ღ São Paulo, 2005

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O dia estava incrivelmente quente, beirava os 32° graus, era janeiro, auge do verão daquele ano, e todas as crianças da minha rua estavam prontas para tomar banho na represa que ficava a dois quarteirões dali, inclusive eu. Já tinha até dormido com o meu biquíni, de tamanha que era a ansiedade.

- Vem Jú! O carro da Tapioca está aqui na rua, vamos comer antes de irmos nadar!

Corri quando ouvi a voz da Ana me chamando no portão. No meio da cozinha meu pai estava sentado conversando com seus amigos, ele sempre recebia amigos em casa. Minha casa que era pequena, tinha três quartos e uma pequena cozinha. O meu quarto, o quarto dos meus pais e um quarto que sempre ficava trancado. Era uma regra e sempre foi assim, nunca entrar lá, eu sempre via muitos homens entrando e saindo de lá acompanhados do meu pai, de dia, e até de noite, mas eu nunca desobedeci a ele.

- Ei pirralhinha, aonde você vai com tanta pressa? – Ele agarrou a minha cintura me puxou para seu colo magro e me deu uma "explosão de beijos", que sempre me arrancava um ataque de risos. Quando parei de rir percebi que ele me encarava com seus olhos azuis idênticos aos meus. Parecia que ele sentia que algo ruim viria a acontecer.

- Vou nadar pai!

- Vê se toma cuidado viu, papai tem uma surpresa para você quando você voltar.

- Oba, tá bom! É de comer? Ou é uma boneca nova?

- Larga de ser curiosa, só quando você voltar!

Ele me colocou no chão e eu voltei a correr para encontrar Ana, comer a tapioca, nadar na represa e ser a criança que eu era, feliz e cheia de vida, mas eu sentia algo de errado, algo de muito errado.

Quando eu voltei para casa, com a pele vermelha do sol e os cabelos ainda molhados, me deparei com muitos carros coloridos, com uma luz vermelha na sua superfície, eles estavam todos em frente à minha casa. Muitas pessoas estavam na rua e dois daqueles amigos do meu pai, que a pouco eu vi na minha cozinha, estavam estirados no chão com uma toalha por cima de seus corpos. Quando todos viram eu me aproximar, instantaneamente fizeram aquela mesma cara de tristeza que meu pai fez enquanto me encarava e seguia para um carro estacionado, minha mãe finalmente apareceu no meio daquela multidão e me arrastou para dentro de casa.

- Vem amor, está tudo bem.

- Cadê o pai? – Perguntei já com lágrimas nos olhos.

- Depois nós conversamos sobre isso, tá Ju? Agora vamos lá para dentro comer algo.

Depois daquele dia, eu nunca mais vi meu pai.

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