"Oi, pai. Oi, mãe. Sou eu, Sansão, seu filho. Eu sei que fugi e que fiquei vinte anos sem mandar um sinal de vida, mas eu to bem e queria saber como vocês estão-"
Rasguei o papel que eu escrevia pra fumar um cigarro de palha na varanda da casa. Fazia um tempo que eu não escrevia uma carta e eu precisava mostrar para os meus pais que eu ainda estava vivo. Eu sei que 20 anos é muito tempo, mas nunca é tarde para tentar desfazer as merdas que fazemos na vida... A carta tinha ficado bem ruim e eu precisava pensar.
Uma coisa que havia me afastado de casa era o fato de eu não corresponder aos desejos de meu pai. Ele queria que eu fosse pai, que casasse com uma moça de família e que tivesse filhos fortes e saudáveis. Já eu só queria aproveitar minha juventude. Não entendia muito bem o porque de ter filhos. Não entendi o porque de ter que me juntar com uma moça.
Não que não houvesse alguma atração aqui ou ali, mas nunca foi algo que me moveu ou motivou a fazer as coisas. Basicamente, eu vivia só e bem tranquilo. Tinha meu trabalho, ia ao bar da vila próxima para tomar uns tragos, as vezes transar com alguém e voltava pra casa bêbado e cansado. Eu prezo muito minha solidão.
Um sorriso se formou no meu rosto barbudo e um pouco sujo do dia de trabalho. O horizonte começava a trazer nuvens que dariam início ao inverno tão esperado. Ainda haviam muitas coisas pra fazer e eu precisaria de ajuda até que esse inverno chegasse.
Voltei pra dentro, depois de fumar meu cigarro, e voltei a escrever. Eu realmente queria meus pais sabendo de mim. Não sei o porquê disso, mas eu acho que estava com saudades. Eu espero que eles ainda morem no mesmo lugar...
"Pai, mãe, sou eu, Sansão, seu filho. Como têm passado?
Eu sei que passei muito tempo sem falar com vocês, mas quero que entendam que eu tinha que me encontrar na vida. Eu precisava de entender quem eu era e o que eu poderia fazer com a minha existência.
Muitas vezes fico acordado pensando como vocês tem passado... Sinto falta de vocês dois. Desculpe escrever tão tarde e espero que possam me responder.
Desejo tudo de bom,
Sansão."
Minha carta foi breve, mas não tinha muita ideia do que escrever, principalmente numa primeira carta. Fiquei nervoso demais para entregar a carta nos correios da vila, mas depois de me olhar no espelho: um homem de 36 anos, ruivo, barbudo, forte e com uma barriga dura, mas saliente, com medo de entregar um papel para um pessoa que vai levar até meus pais.
Ok, eu estava aterrorizado! Será que eles iam querer manter contato? Eu não queria deixar a cara à tapa, então resolvi guardar a carta na gaveta da cômoda da sala e voltei à rotina normal, buscando esquecer um pouco disso.
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A neve começa a cair alguns dias depois, deixando a montanha coberta pelo seu manto branco e gelado. A lareira fica acesa boa parte do dia e, mesmo com o estoque de madeira que fiz este ano, creio que, antes do inverno terminar, terei que pegar mais.
Mais tarde vou ao bar pra ver Daiane, uma amiga que devo dizer... nós ficamos juntos algumas vezes por ano. Muitas vezes apenas para matar a vontade, mas não é algo que me satisfaz totalmente. Já recebi dela uma proposta de namoro e até casamento, isso entre nossas conversas na cama, e eu sempre recusei. Não que não gostasse dela, mas curto mais minha solidão e sempre que penso que meu pai ficaria orgulhoso de mim se eu casasse, acabo ficando um tempo sem ir ao bar.
Já estava quase na hora de sair de casa, algo perto de 17h, quando resolvi tomar um banho de água quente para lavar o cheiro forte que meu corpo exalava depois de um dia trancado, trabalhando dentro da casa. Resolvi colocar algumas roupas mais quentes para encarar o frio brabo de lá de fora. Sabe aqueles frios que, se deixar, congela até a ponta dos cabelos? Esse frio.
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O deserto branco (Romance Gay)
Storie d'amoreSansão, um homem solitário que vive nas montanhas há 20 anos, se vê perdido quando Bernardo aparece em sua vida. Tudo começa a dar errado naquele inverno no qual os dois se vêem juntos presos por quase 3 meses tendo apenas a presença um do outro. Na...
