Algum dia você não vai mais precisar de receber amor.
Talvez porque seja algo que você nunca teve.
Você nunca se amou o suficiente, e sempre correu atrás de outros amores que nunca satisfizeram o seu coração.
As roupas que você usa, como aquele moletom preto e estampado, com o cheiro daquela pessoa te remetem o amor de alguém que talvez você nem sequer conheceu.
A noite, fria e áspera, sempre te jogando pra lá e pra cá, fazendo com que você fique pensativo, observando a lua se dissipar entre as nuvens, sempre vai te fazer pensar em alguém que você um dia (não) deveria ter amado.
O barulho da chuva, batendo na sua janela e te fazendo relaxar enquanto tenta ler um livro do qual você tem certeza de que vai se arrepender depois, porque vai te lembrar alguém que não deveria ser lembrado.
O próprio livro, com as páginas amassadas e gastas, orelhas e arranhões, não por descuido ou raiva, mas porque é o seu livro preferido e você já o leu milhares de dezenas de vezes e nunca se cansa, já que foi aquela maldita pessoa que te deu.
Isso tudo te traz uma lembrança. Uma reminiscência, boa, como no dia em que você viu o filme que tanto queria e se divertiu com os amigos, ou ruim, como no dia em que seu gato morreu.
Algum dia nada disso vai fazer diferença, e tudo vai ser só uma mera ilustração, ou uma tatuagem que a vida vai deixar no seu coração.
A lareira que você nunca teve, na casa que você nunca teve com a pessoa que nunca te pertenceu numa vida inexistente mas que poderia ser sua, é o sinal de que você um dia vai morrer, e quando isso acontecer, quem é que vai te amar?
Talvez não seja algo do destino, promíscuo e incerto. Talvez você precise de amor, mas talvez não.
Sendo assim, com a lareira que você tem, na casa que é sua, com alguém que vai te pertencer pra sempre na sua vida de agora e que sempre será sua imortalmente imaculada, é o sinal de que um dia, você vai morrer, mas quando acontecer, quem é que te amou?
A morte. A infeliz morte.
Você não vai saber o quanto é bom comer aquele macarrão, ouvindo a música que você mais gosta enquanto saboreia tudo o que cozinhou. O fogão a gás que você nunca ascendeu, naquele justo dia, com aquelas justas pessoas. Você nunca vai se lembrar. Você vai estar morto.
Vai doer? Vai ser ruim?
Talvez.
É bom pensar no futuro. É bom pensar no destino. Mas se você transforma as menores palavras do mundo (“ e “, e “ se “) em uma frase (“ e se... “) elas irão te atormentar pelo resto da vida, e se você não se amar o suficiente para te impedir de fazer isso e curtir a vida, como você espera se dar o privilégio de morrer?
E se...
A vida é uma incerteza cruel. Uma surpresa. Mas e se...
Apenas viva. Corra. Cante. Saia. Ame. Cozinhe. Dance. Viva.
O amor e o ódio brigam na camada mais escura, na superfície mais funda das cicatrizes do seu coração.
Para amar alguém, é preciso se odiar o bastante para seu corpo ferver como uma febre e se dar a tal alta traição.
Mas para odiar alguém, é fácil. Você só precisa de ser você.
Mas e se você odiar a si mesmo a ponto de não prestar atenção no que precisa?
E se você se odiar por não prestar atenção em quem odeia?
Talvez se o tivesse odiado enquanto ele passava a mão pela sua cintura e dissesse pra você que te ama, você não precisaria se amar.
Mas talvez se ela o odiasse enquanto ele passasse a mão pela cintura dela e a fizesse saber com aquele olhar de “ eu estou aqui e protejo você “, de que tudo iria dar errado, eles nunca se beijariam.
A escuridão, do fundo do seu coração nunca desejou receber uma morte tão dolorosa quanto a morte por um espinho.
E a que ponto chegamos, se não podemos simplesmente conseguir nos amar?
Já que o amor tem tantas formas superficiais e artificiais que danam no fundo da nossa alma, porque você o guardou praquela pessoa?
Porque você o entregou de mão beijada?
A resposta, oras bolas, é simples: porque você sabe amar.
E talvez, você realmente precise de amor. Mas a pessoa que vai te dar amor, é você mesmo.
Se você não se importar com tudo isso e simplesmente fingir que nada aconteceu, as cicatrizes restantes podem se curar sozinhas.
Se você grampear o seu coração numa caixa, ou o espetar num palito de churrasco e o morder, talvez você sinta nas suas veias o quanto os seus ossos mais íntimos precisem do seu amor.
Não espere em ninguém o amor que você nunca precisou. O amor que você nunca teve.
Aprenda a enxergar que sempre esteve tudo dentro de você, e que sempre foi você e por você, e não se aprofunde em corações rasos demais para receber o amor (o seu amor), porque afinal, se algum dia se você se der o luxo de ser desumano o suficiente para não precisar mais de receber todo o amor que você nunca teve, como você vai se amar?
Se você inverter o jogo, a pergunta muda, e vira um “ como você vai se odiar? “
YOU ARE READING
Poemas Pra Ler Antes de Morrer
PoetryPoemas sobre amor. Sobre ódio. Sobre morte. Sobre vida. Sobre dor. Poemas para ler e pensar.
