O jazz misturado com música eletrônica ecoava na casa escura. Exceto por isso, era possível ouvir também o ventilador a girar, cigarras a cantar e o cachorro vizinho a latir. Matheus, por sua vez, cantarolava alguma música que não condizia com a do rádio.
O cabelo molhado do garoto respingava e manchava, ainda que temporariamente, a camiseta azul marinho. Eram baleias; sua favorita era o cachalote, pelo simples motivo de ser considerada "cabeçuda", igual ele. O apelido veio de sua família, especificamente de seu falecido tio-avô, que, por alguma razão, era mais próximo que os avós e que os próprios pais.
Matheus não era alguém muito familiar. Tinha momentos específicos em que gostaria de conversar mais com sua irmã mais velha, ou com seu pai. Entretanto, a única pessoa com quem realmente passava o tempo era sua mãe, que vivia a falar e comentar sobre como ele precisava estudar mais. Era verdade, mas não é como se fosse algo legal de ser repetido.
Na parcela acadêmica de seu dia, passava com Tiago, seu melhor amigo. Desde que se entendem por gente, dividiam o bolo preparado pela vizinha de Tiago, que vivia, por alguma razão, na casa do menino. Apesar das personalidades relativamente diferentes, davam-se bem, eram como chicletes de sabores diferentes grudados — ainda é possível notar a diferença, mesmo que não os consiga separar.
Quando um trompete começou a ressoar, acompanhando a melodia da música que tocava, Matheus processou tudo e desligou o aparelho herdado de seu tio-avô. Suspirou e, cansado, foi dormir.
A segunda-feira começou como qualquer outra: Matheus desliga o despertador e, depois de trocar a areia de seu gato, Bartolomeu, vai à escola com carona de seu pai. A conversa é breve e superficial.
Na sala de aula, o mesmo novamente. Com Tiago ao seu lado, rendendo conversinhas paralelas, as aulas passam minimamente mais rápidas, até que o professor os repreenda, mandando-os prestarem atenção. Afirmam com a cabeça, mas vai cada um para um mundo da Lua diferente.
O mundo da Lua de Matheus conta com objetos retrô, pelos quais nutre certa paixão. Talvez fosse porque sua infância inteira, praticamente, se passou na casa de seu tio-avô, já tão mencionado, mas os anos 60 para ele soavam bons, apesar de todas as desavenças sociais. Além disso, havia videogames, comidas gordurosas e felinos de todas as espécies.
O sinal bateu e ambos os rapazes se levantaram. Esbarrando em Tiago, um outro garoto alertou-o:
— Vê se presta atenção, imbecil. — Tiago, depois que o tal deixou a sala, mostrou o dedo do meio à porta.
— Acho você muito estressado — Matheus comentou, mas Tiago deu de ombros, pegando em sua mochila uma maçã.
— E acho você muito lerdo.
— Não vou me esforçar para mudar isso. — Matheus sorriu de lado, levando Tiago a rir.
— Eu já sabia.
O intervalo, como em todos os outros dias, seria passado dentro da sala de aula, na qual comeriam seus lanches e jogariam conversa fora. Salvo algumas exceções (como a necessidade de copiar um dever de última hora), seria sempre assim. A monotonia, entretanto, foi quebrada ao que uma menina, a representante dos 3ºs anos, adentrou sua sala, 3ºB.
No mural, colou um papelzinho. Tiago, movido pela curiosidade, e talvez por outros fatores, chegou na menina e perguntou-lhe do que se tratava. Sara, simpática, informou:
— É um jeito da escola promover as atividades extracurriculares. — Sorriu. No papel, aproximou-se Matheus para lê-lo, constava que seria organizado um sorteio para aqueles que participassem das tais atividades. O prêmio? "Secreto".
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Goleiro Sorteado
RomanceMatheus costumava se preocupar apenas com as suas notas e com o seu gato gordo, Bartolomeu. Entretanto, por obra de seu melhor amigo apaixonado, Tiago, acabou sendo "obrigado" a entrar em um dos clubes da escola. Por acaso, entrou no de futebol. Não...
