PRÓLOGO

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♥ Fred♥

Existe alguma coisa que obriga mais uma pessoa a pensar na vida do que a morte?

Foi assim comigo. Perder meus pais num acidente de avião, fez os eternos questionamentos humanos sobre o sentido da vida, posteridade e legado passarem a me atormentar com a mesma persistência irritante de um pernilongo que não para de zumbir no seu ouvido. Tipo quando você precisa muito dormir porque já são quatro da manhã e tem que levantar às seis e você abana a mão feito um louco, o filho da pernilonga prostituta some por alguns segundos, mas sempre acaba voltando.

Até o momento em que precisei encarar que eu nunca mais ia rever, conversar ou abraçar, as duas pessoas mais extraordinárias que eu conhecia, eu costumava rotular minha vida de perfeita.

Problemas? Claro que eu tinha, como todo mundo, mas eles eram tão insignificantes perto do que os outros enfrentam por aí, que me considerar qualquer coisa menos que privilegiado era injusto e errado.

A barra mais pesada que eu tinha enfrentado até ali, nem tinha acontecido comigo. Foi quando a minha irmã mais nova, Biatriz — é isso mesmo, não está errado, é Biatriz com 'i' — ficou grávida de um cara que pegou cinco anos de cadeia por vender drogas. E mesmo assim, ao encontrar meu pai chorando, e eu arrasado do lado dele, por causa do sofrimento que a minha irmãzinha estava passando, minha mãe chamou a gente no cantão e nos fez ver que aquilo não era nada. Que de todas as tragédias que podiam ter acontecido com a Bia, ser mãe solteira era o menor dos males. Que uma nova vida chegando no mundo era sempre uma benção e melhor meu pai e eu pararmos de criar tempestade num copo d'água e começarmos a dar o apoio que a Bia precisava ou nós dois íamos nos ver com ela!

Extraordinária, né? Eu disse.

Meu pai não ficava atrás. Eu tenho muita facilidade em fazer amigos, mas a exigência na hora de colocá-los na categoria dos 'melhores' é alta, e no patamar do meu pai, só ele. Não havia assunto proibido entre nós dois, conselho que eu não pudesse pedir e bronca que não tivesse sido justa e merecida. Eu contei para ele até da minha única experiência com drogas. Um comprimido de E que, por ironia do destino, eu tinha comprado do mesmo cara que iria causar tantos problemas à minha irmã, anos depois.

Eu sei, mas foi uma vez só, eu juro!

Não que eu seja um desses caras certinhos, maníacos por controle, pelo contrário, mas eu fiquei tão de bem com a vida, achando tudo tão mais maravilhoso que o normal naquele dia, que se alguém tivesse colocado uma arma na minha mão e me dado a desculpa mais esfarrapadada mundo para eu sair atirando, eu acho que eu teria obedecido, me maravilhando com a cor viva e linda do sangue que eu ia derramar. A experiência de não estar no controle das minhas ações nunca mais ia me pegar por minha vontade própria.

Ao ouvir aquilo, meu pai riu, me deu dois tapinhas no ombro e disse que ficava feliz de saber que todas as merdas que eu faria na vida seriam feitas em pleno uso das minhas faculdades mentais.

E merdas, eu fiz. Não muitas, mas algumas. Como, por exemplo, não dar a devida importância a um conselho dele quando eu contei que eu a Camila estávamos pensando em casar.

Eu e a Camila nos conhecemos numa festa. Dois anos mais nova que eu, ela tinha acabado de se formar em Direito e cinco minutos de conversa foi o suficiente para perceber que ela era focada nos objetivos que ela tinha traçado para a carreira dela e já estava a meio caminho de atingir todos. Mesmo sendo o oposto completo das meninas descontraídas e despojadas que eu costumava namorar, eu não resisti e roubei um beijo. E esperei ser empurrado e humilhado. Porque a Camila não era só inteligente. Ela era também a mulher mais maravilhosa que tinha me permitido chegar perto dela.

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