Prólogo

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Pingos de chuva caiam na janela. Pequena Júlia, que no caso sou eu, mal esperava o que estava prestes a acontecer.

Ding Dong

Corri para a porta antes mesmo de minha mãe gritar "Já vai!". Eu sabia exatamente quem estava atrás. O motivo de todos os corações no meu diário: Lucas.

Calma, vou atualizar vocês.

Lucas é meu vizinho/melhor amigo/amor secreto. Conheço ele desde sempre. Não lembro de nenhum momento em que ele não esteve presente na minha vida. 

Minha mãe sempre dizia que íamos acabar juntos quando fôssemos mais velhos mas sempre olhávamos um pro outro e dizíamos um "ECA" sincronizado. Talvez a Júlia de 8 anos concordasse com esse "Eca" mas a Júlia de 12 anos já imaginava até como iria ser o casamento.

Ao receber Lucas na porta com um sorriso de orelha a orelha percebo que há algo de errado. Lucas evita olhar pra mim e percebo seus ombros caídos.

- Lucas? O que aconteceu? - falo com o coração apertado.

Lucas sempre chega a minha casa fazendo a festa, me assusta muito vê-lo tão diferente.

- Oi Júlia. Será que posso entrar? -ele pergunta ainda sem olhar pra mim.

Sem falar nada apenas sai de frente da porta e ele entra arrastando os pés. Minha mãe finalmente chega na sala e percebe a mesma coisa que eu.

- Lucas, meu filho, aconteceu alguma coisa? Você tá tão abatido. -diz minha mãe da forma mais carinhosa possível.

Minha mãe tem uma consideração enorme por Lucas e sempre o tratou como se fosse seu próprio filho. Ele nunca teve a oportunidade de conhecer a mãe. Diz tio Humberto, seu pai, que ela o abandonou ainda recém nascido por achar que era pressão demais e nunca tentou entrar em contato com ele novamente.

- Ju, eu vou embora. Meu pai foi transferido para a Bahia. - e foi nesse momento, meus amigos, que o meu mundo caiu.

Pelo tio Humberto seguir a carreira militar ele sempre viajou bastante e nesses tempos Lucas sempre ficou na minha casa mas era questão de no máximo uma semana. Agora que o pai foi transferido para outro Estado ele precisava se mudar junto.

Depois que ele falou aquilo eu o abracei com tanta força que eu jurava que ia ser incapaz de soltá-lo. Ele sofria, eu sentia isso. 

Ele deixaria tudo que ele conhece para trás. Me deixaria para trás.

Tentei ser otimista para fazer ele ficar bem. Disse que eu ligaria sempre que pudesse, mandaria cartas e visitaria em feriados longos.

Naquela semana tentei passar a maior quantidade de tempo com ele para poder guardar cada lembrança possível.

-Meu pai disse que na nossa casa tem uma piscina e uma casa na árvore. Vai ser legal quando você for lá me visitar. -disse Lucas enquanto estava botando suas roupas na mala.

- É... -foi tudo o que eu consegui dizer. Ele ia embora no dia seguinte e tava difícil de encarar a realidade.

- Sabe Júlia, você é minha melhor amiga do mundo inteiro. Se eu pudesse eu levava você comigo. Tudo vai ser tão chato sem você. - ele disse se virando para mim enrolando um pedacinho de papel e amarrando nas pontas formando um círculo - e sabe, eu não entendo muito essas coisas de adulto mas vai que o que sua mãe sempre fala esteja certo. Que um dia vamos acabar juntos. - eu gelei nessa hora. Ele não podia estar falando sério, né?? Eu tava a ponto de ter um piripaque!

Continuei olhando pra ele sem saber se eu deveria falar alguma coisa ou não mas logo ele se ajoelhou na minha frente com o "anel" de papel:

- Eu vi isso em um filme e achei legal - ele pigarreou - Julia Fernandes, você aceita se casar comigo? Ou pelo menos aceita esperar eu voltar? - ele me olhou com um sorriso bobo no rosto achando graça daquela situação.

- Você é doido, garoto! - eu ri mais de nervoso do que realmente achando aquela situação engraçada.

- Aceita logo, Júlia! Meu joelho tá doendo. Não sei como as pessoas ficam nessa posição.

Sem falar nada apenas estendi minha mão para que ele botasse seu anel improvisado. Depois  disso olhamos um pra cara do outro e começamos a ter uma crise de riso que logo se tornaram lágrimas da minha parte.

- Ei, não chora. -ele disse segurando meus ombros.

- É que eu vou sentir tanto a sua falta. Eu não sei o que fazer sem você. Você é meu melhor amigo, o único que me entende. Isso tudo é muito injusto. -desabafei o que estava guardando aquela semana inteira.

- Eu sei, eu também vou sentir sua falta. A gente não vai perder o contato, lembra? E você é minha noiva agora! Eu tenho que voltar pra gente se casar. -rimos dessa situação que pra gente era absurda. Não fazíamos ideia do quanto profundo um casamento poderia ser.

-Ok então. -disse em meio sorriso.

Seguimos o resto do dia rindo de coisas absurdas e arrumando a mala dele. Quando a noite se aproximava mais difícil ficava de aceitar que estava chegando a hora de dizer adeus.

No dia seguinte, eu e meus pais levamos Lucas e Tio Humberto no aeroporto. Era chegado o momento que para mim era o mais temido

Tio Humberto me abraçou forte e bagunçou meus cabelos como sempre costumava fazer.

- Tchau Pequena. Vê se vem nos visitar. A nossa casa sempre vai estar aberta para você - disse com a voz embargada.

Lucas ia se despedindo do meu pai e da minha mãe e quando ele veio finalmente até mim parecia que ele não sabia o que falar.

- É chegou a hora. - eu comecei

- É... -então ele me puxou pra um abraço tão forte que se eu parar para pensar eu sinto a quentura até hoje. -Eu te amo, Júlia. Não se esqueça de mim.

- Nunca me esquecerei! -não consegui dizer que o amava e até hoje não sei dizer o porquê.

Ele segurou minha mão e viu que eu estava usando o "anel" que ele tinha me dado e abriu um sorriso em meio às lágrimas.

- A gente vai ficar juntos! Pela nossa amizade. - sussurrou no meu ouvido.

Antes que eu pudesse falar alguma coisa uma voz anunciou que o vôo deles já ia sair. Então com mais um abraço breve de tio Humberto e do Lucas eles partiram. E levaram um pedaço do meu coração com eles.

Nas primeiras semanas eu e Lucas nos falávamos todos os dias por telefone. No primeiro mês eu lembro da bronca que levei do meu pai quando chegou a conta. Mas fazer o que, naquela época era o único meio de comunicação. E então os meses foram se passando e cada vez mais nossa comunicação ficava escassa. Não recebia mais cartas dele, cada vez menos ele me ligava. Quando ligava era sempre muito rápido porque sempre tinha alguém chamando ele pra jogar bola, soltar pipa ou qualquer outra brincadeira do tipo. Ele estava feliz, eu podia perceber isso. Mas por que eu não estava? Eu deveria estar feliz por ele agora. Ele tinha mais amigos, estava se dando bem na escola.

Foi pensando nisso que eu deixei o egoísmo de lado e decidi que seria melhor não insistir. Conheci pessoas novas, fiz novos amigos também e tudo parecia estar voltando pro lugar. Depois de mais alguns meses nós não entramos mais em contato um com outro. Acho que era o inevitável né? Éramos apenas duas crianças bobas, a realidade uma hora bate na porta. 

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⏰ Last updated: Mar 29, 2021 ⏰

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