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Este é talvez o meu memorial emocional escrito apenas por desabafo, ou talvez por gosto, até certo ponto. É uma introdução realizada através da conclusão que eu mesmo retirei, Já não sei até que ponto o que escrevi é recíproco entre o antes e o depois, mas sei que por vezes é, pois eu tenho uma bipolaridade assumida pelas minhas palavras. E quando em vocês penso, só não me lembro do vício que despertaram, embora esse seja o motivo pelo qual estou a escrever, sendo mais puras as palavras, se forem ditas de rajada sem pensar em opiniões ou sentimentos, mas pouco importa, café é café. 

“Custa-me escrever com as regras de passados há muito perdidos para o presente. Dizer quem foram e quem já não são, lembrar quem fomos e que já não somos. 

Pior ainda, é relembrar que eu próprio fui culpado e desesperadamente citei esses fins. “

Se tudo o que é bom voltar, porque é que ainda não vos vi voltar. Sinto-me uma presa, presa pelos próprios dentes, que procura ferozmente uma receita há muito perdida.

Em tempos não fui perfeito, admito, mas  tudo não passou de uma conversa de esplanada em que despertei com a cafeína que nele foi dissipada, admito. Estes cafés ficaram para a história, pois sempre fui homem de escolhas únicas e beber café de casa só mesmo em porcelana com requinte.

Evoco Ruby como a tentação em que fingi desprezo na conquista, como se na minha boca nunca tivesse passado de um café. Embora sem nunca esconder que era mais que isso, voltou para  provar que sua amargura era digna de deixar marca, mas não uma marca qualquer, a marca de amante de café.

Veio mostrar-se uma autêntica moça de café, que quase me iludiu a acreditar que me encontrava na cidade invicta, sentado numa poltrona do majestic.
Cheirava a torrado, aquele aroma tinha expressão e expressava mais do que requinte de um café. Classificar como tentação alguém, que é para além de um vício irresistível, é ser meigo com as palavras e pouco rigoroso.
Mas eu, como um pseudo amante, desfrutei-a sendo a sua necessidade quase como que clandestina, tentando evitar relembrar que em tempo já fora café de casa.

Pode parecer mais uma conversa de cabaré, mas não o é. Eu embora consciente do perigo, ignorei o facto de ser meio caminho andado para re-acelerar meu coração. Bebi e senti de novo aquela textura, sem nunca a associar a mais um chiripiti, embora em ato contínuo fingisse ainda ter as borras de um café mal tirado e saí sem sequer um olhar fingir.

Só fingi para mim mesmo a desnecessidade daquela cafeína e rebaixei a delicadeza daquela chávena para que não fizesse falta ao madrugar.

Nunca faltou saudade às chávenas que parti, admito, mas também nunca deixei de beber café, embora que em copo de plástico.
Sinto que nunca deixei de sentir a falta do preliminar de dedo quando na hora de beber, pois tudo o que encaixa no dedo, envolve um dia saudade.

Esclareço também que por vício à cafeína custa-me por vezes deitar, mas o pior é quando existe a sua necessidade, aí sim, a sua ausência é sentida. Aí sim, os meus olhos começam a baixar pelo cansaço e a cabeça a não deixar dormir, exigindo respostas a perguntas às quais não sei responder. 

Café para mim tem aroma, tem textura e tem sabor amargo. Já não leva açúcar, antes sim era indispensável, hoje? Não, apenas existe a saudade da tentação atroz, em que, em vez de ficar por um café, ceder a tentação de uma bica.

Diamond fora minha eleição, origens Sul Americanas, com textura rígida, mas sabor suave. Aroma único, sem nunca me ficar despercebido. Mas ficou no tal passado presente, fiz esfriar várias vezes, mas nem sempre por distração, por vezes, só pela precaução do vício. Embora a acessibilidade também não fosse a melhor, isso nunca foi problema, pelo menos para mim. A sua maturidade, a meu ver, era algo compreendedor da situação, até ao dia em que lhe foi previsto uma contaminação, quase pode ser considerada uma moda hoje em dia, meu comportamento pode não ter sido o melhor, mas para mim perdê-la não era opção, muito menos sem ter certezas. as Diamond menosprezou minha preocupação e ainda se deu ao luxo de não confirmar, manteve-se de chávena quente, mas num piscar de olhos esfriou e conseguimos combater essa epidemia juntos, mas consequentemente deixei de a sentir, foi por medo? Por saudade dos que também foram? Não sei, mas fomos uma história de uma vida que acabou num instante, e isso fez de si um momento para a vida.

“Mas evito re-lembrar-te, para evitar a tua necessidade e a tua procura, nem que seja só para te sentir o aroma, mas não quero, não posso e não devo e sim, também temo.”

Temo as texturas, os aromas, os momentos, as cores e saindo da personificação de chávena, temo que os seus olhos consigam ler o que os meus ainda têm escritos. Só existe algo que eu não temo, não temo que o verdadeiro motivo tenha sido só meu, e metendo os pés na terra, finjo que hoje em dia és só mais um lote descontinuado.

As coisas para mim são de uma simplicidade abstracta, não  têm que se entender, têm apenas de se perceber, pois não quero que saibam ler os meus sentimentos escritos nas riscas da íris, mas sim o motivo pelo qual as coloquei assim pintadas. As coisas podiam ser mais simples e, em tempos, foram muito mais explícitas, mas quando os lábios já não desejam beijar aquela chávena, existe sempre bocado de nós que fica por beber e outro bocado que fica por provar.

“Numa noite, em que um dos meus objectivos era um copo de plástico com um bom café, aconteceram várias coisas inesperadas.  Conheci um fascínio que apelido como Quartz, aquela que de longe aparentava-se como porcelana, não o era, era apenas plastico, em embalagem vista alegre. Eu como antigo amante da noite, não soube como reagir àquele enigmático café, filosofei sobre conversas que não tivemos, ficaste pela cinza num cinzeiro e um filosofar na minha cabeça. As coisas que pensei foram para além de sexo, foram traições e foram pecados mortais impossíveis de escrever.”

A certo ponto da noite, senti o aroma de Diamond e não saiu da minha cabeça, mesmo ao ver ser degustada por outro alguém que a meu ver era menos do que um quarto da minha pessoa. Senti uma vulgaridade enorme quando a sua acessibilidade, o que me fez sentir substituível. A mágoa com o tempo apareceu, pois não é fácil sentir que o meu torrão de exclusividade é hoje em dia uma mera cápsula de café de edição limitada, disponível em ocasiões natalícias. Não tem o mesmo requinte, nem a mesma textura, mas na minha cabeça nunca deixará de ser Diamond e eu nunca deixarei de ser o erro. Vou ter que me habituar e fazer do teu sabor manchete para todas as chávenas que tocar com os lábios.

E assim como num ápice desapareceu Quartz do meu pensamento, existem sabores que se sobrepõem a outros, e existem texturas que se textualizar não existem adjectivos. 

Passo noites a pensar em vocês, não incluo Quartz, apenas me refiro às chávenas, pareço confuso? Não o sou, se ao terem ouvido dizer “só sei que nada sei” meio mundo conseguiu ver sentido nas palavras, porque não posso eu dizer “sinto que por todas sinto algo em simultâneo enquanto me foco em sentir algo em específico” será mais fácil assim analisarem-me? Muitos dirão que sou tirano, outros dirão que sou independente, eu apenas digo que sou racional. 

“Sinto que o único erro da minha vida foi ter abdicado de algo que era tão certo, não conhecem, mas refiro-me a Sapphire, café de origens Transilvânicas. Foi café com delicadeza e fidelidade, e melhor que tudo foi café simples, mas café puro. Com uma marca que nunca tinha conhecido em nenhum café português ou de línguas lusófonas, mas, mais uma vez, Ruby obteve o que queria e interviu da sua maneira pecaminosa esta vez sem me tocar, e, quando dei por mim, abdiquei de Sapphire, sem pensar no que sentira. E hoje, ontem, e todos os dias penso que ainda hoje poderia viver esses tons de café, mas não... Destruí o que era meu e ainda fiquei sem ti.”

Durante tempos culpei-me a mim, pois a impossibilidade de os defeitos serem recíprocos em todas foi se induzindo em mim. Mas hoje, consigo perceber, consigo perceber que quem falhou foram vocês, pois vocês só me conseguiam amar a mim e não mais do que eu. Mas eu nunca fui apenas eu, eu era muito mais do que expressava ser, era um actor pelo qual vocês só sentiram amor em dias de representação ou quando deixei de representar. Sinceramente, não sei bem, pois sou tão bom nesta representação que se tornou um vício de boca dizer o que não sinto e fingir quem não sou. Não ter vícios quando escrevo é impossível, mas escrever sobre vocês ou sobre ti em específico é ainda mais difícil. 

“Tudo o que encaixa no dedo, envolve um dia saudade, e essa saudade só deixaste tu, as outras procurei eu. “

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⏰ Última atualização: Nov 26, 2019 ⏰

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