Parte I - Desejo secreto

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11 de dezembro de 2018

"Jingle bells, jingle bells

Jingle all the way,

Oh what fun it is to ride

In a one-horse open sleigh,."

Ao abrir a porta vejo 4 crianças cantando, é época de natal – faltam apenas duas semanas para o bom velhinho visitar lares alheios - e estou em casa, me escondendo do mundo. Dou um grito na direção delas e as assusto. Saem todas correndo e gritando. Olho para o lado e vejo o vizinho que acompanhava tudo da porta me repreendendo com o olhar – dou de ombros mentalmente e reviro os olhos

Eu nem tenho cara de bruxa para assustar tanto assim. Sou branca, cabelos negros e longos, mas uma carinha de 20 a pesar de já ter 25 anos. Meu 1,63 de altura e meu corpo quase magro demais não são capazes de assustar a quase ninguém, eu disse quase! As crianças realmente ficaram com medo. Encarei mais uma vez meu vizinho que ainda me julgava mesmo sem dizer uma única palavra, entrei na cozinha apenas com metade do corpo e peguei um facão que estava próximo a pia, olhei para minha vítima que ainda estava a espreita e comecei a correr gritando em sua direção, ele arregalou os olhos e começou a gargalhar. É sério, como assim ele vai rir?

- Ah menina, vê se toma juízo. – diz sorrindo em minha direção – sua mãe era igualzinha você, tentava assustar as pessoas e mais parecia um dos "ursinhos carinhos" tentando ser mau

- Ah, não enche meu saco, seu mala – digo irritada, arqueio uma sobrancelha em sua direção como quem diz "chega né", o que o faz rir ainda mais.

- Tá bom, tá bom Sophie, não está mais aqui quem falou

- Você é um idiota Theo – respondo e entro em casa

Na verdade Theo é muita coisa além de idiota, um moreno alto, sarado na casa dos 30 anos, mas que só quer saber de pegar mulher. Também com aqueles olhos verdes contrastando com o corpo dourado, como vai aquietar? Até vestido de papai Noel deve ficar um tesão. E o problema de tudo isso? É meus amigos, por mais clichê que possa parecer eu sou apaixonada por ele desde que eu tinha 15 anos, mas me diga uma coisa, qual história de amor não é clichê?

Quando nos conhecemos, eu tinha acabado de me mudar para a fria e cinzenta Londres, eu e minha mãe saímos da ensolarada Flórida para esse lugar encantador. Meus pais são separados desde que eu tinha três anos de idade, e se eu encontrasse meu doador de esperma por aí – é assim que o chamo carinhosamente – talvez nem o reconhecesse, levando em consideração que não o vejo há exatos 22 anos. Exatamente o que você está pensando, desde o divórcio.

Eu sempre amei o natal, mesmo sendo apenas eu e mamãe, ela era aquela pessoa pequena e frágil aos olhos da maioria, mas quando ficava nervosa... até o capeta tinha medo.

Mamãe me deixou há um ano, na época de natal. Quem a levou foi um maldito câncer de mama que foi descoberto quando já era tarde demais. Aí está o motivo de eu ter passado a odiar o natal, os natais eram meus e dela, agora não me restou mais nada além de um vazio imenso dentro de mim.

Nessa época do ano enfeitávamos toda a casa como se fosse halloween. Não que a gente tivesse algo contra o natal, pelo contrário, nós amávamos! Do teto todo da sala pendiam várias cabeças de caveiras de todas as cores, na lareira a gente colocava encostado pedaços de pessoas feitos de plástico, como se estivesse ali esperando para serem assados. O corredor era a minha parte favorita, nós virávamos todos os quadros e colocávamos fotos antigas que imprimíamos da internet, todas em preto e branco. Do lado de fora, fazíamos um cemitério, cheio de lápides e fantasmas assustadores, era uma verdadeira casa dos horrores, mas todos sempre estavam sorrindo ali. Até ela partir e deixar o vazio no lugar. Antes de morrer, mamãe me fez prometer que eu continuaria a tradição, mas ainda não fui capaz de ir até o sótão onde todas as lembranças estão guardadas, como se isso fosse amenizar um pouco o sofrimento.

[COMPLETO] Um vizinho de natal (Conto)Stories to obsess over. Discover now