capítulo 1

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Ana Maria

- eu nunca vou te deixar.
- filha minha, jamais te deixarei sozinha.
- meu anjo, nada me fará te deixar sozinha.

Acordo com o barulho irritante do despertador, e fico ainda deitada na cama olhando para o teto.
Não sei porque ainda sonho com ela, eu nem se quer a conheço.
Desde que me intendo por gente, sei que não tenho mãe, Ninguém nunca me disse se ela está morta, ou se ela me abandonou, eu realmente não sei, cresci num orfanato, e lá ninguém é especial que o outro e muito menos importante.
Minha vida é o que pode se considerar monótona, casa, faculdade e bar, só isso.
A maioria das pessoas consideraria isso menos saudável para uma pessoa de 23 anos, mas para mim é tudo normal.

Amo música, por isso todas as noites canto no bar do Joy, músicas de outros cantores claro... Mas ninguém nunca reclamou da minha voz.
Quando saí do orfanato, recebi documentos e explicações detalysob
Quando fiz 20 anos descobri quem é meu pai. Primeiro foi eufórico e depois decepcionante, fora a faculdade que ele paga para mim, não faz diferença alguma na minha vida.
Não sei onde ele mora, se tem filhos esposa, nada.
Apenas recebi esse apartamento em meu nome no centro de Manhattan e uma mesada milionária, por isso bens materiais é o de menos.
Gosto de pensar que sou órfã e tudo isso é a erança que meus pais deixaram e que eles me amavam tanto que fizeram arranjos para que nada me faltasse.

Deixo a preguiça de lado e me arrumo para a faculdade, tomo um pouco de leite e pego uma maçã e vou logo andando, desde que saí do orfanato, vivo sob as minhas regras e nem sinto falta das regras daquele lugar.
Pego o elevador, é fácil se acostumar com o conforto, luto todos os dias para manter o meu.

- Bom dia senhor Antônio!!

- Bom dia menina Ana, me chama só de Antônio por favor? O senhor está lá no céu.

- talvez amanhã senhor Antônio.

Senhor Antônio é o porteiro mais bem humorado que eu conheço e único, está aqui desde a primeira vez que cheguei a três anos atrás.
Saio do prédio e pego um táxi para faculdade, pago a corrida e vou logo entrando.
Lúcia vem correndo na minha direção com cara de muito poucos amigos, reviro os olhos quando ela vem me abraçando.
- Ana! Minha Ana, senta a minha frente hoje na avaliação? Por favor.

- hmmmmm, eu não vou te passar nada… eu te chamei para estudar e você me trocou por uma balada.
Digo de cara fechada.

- tá tá tá! Foi a última vez, prometo, agora vou estudar feito louca você vai ver eu juro, por favor.
Diz com voz chorosa.

- não prometa, sei que não vai cumprir, melhor não habituar porque é a última vez, agora vamos, parar no corredor não adianta nada.

- obrigada amor, eu sabia que você não ia me deixar na mão.
Diz e me abraça.

Depois das aulas fiquei um pouco na biblioteca, sempre gostei de repassar tudo que foi discutido na turma, é o meu jeito de fixar a matéria.
Término tudo e vou andando para o bar/restaurante onde sempre canto, me pagam o suficiente para atender meus caprichos, mas não é por dinheiro que faço isso, eu quero me sentir parte de alguma coisa, e lá eu me sinto assim, musicas de outros onde sinto como se  tivessem escrito especialmente para mim e minha própria plateia, eu posso dizer tudo que está aqui dentro cantando pra os outros.
Entro pelas portas do fundo e bato a porta do escritório do Joy, o dono do bar.
- entre.

- oi joy, passei para cumprimentar.
Falei sorrindo, o Joy é legal apesar de ser um pouco protetor com seus funcionários.

- Mariana baixinha, daqui a pouco venho apreciar teu show, tenho que terminar de checar esse inventário.
Ele diz me dando um beijo na testa, as vezes age como o pai que nunca tive mas gostaria muito de ter.

- você nunca perde um, te vejo lá.
Digo me virando para porta e saindo.

Encontro tudo organizado no palco, meu pequeno mundo dourado. Tiro a pequena lista dos temas que vou cantar hoje é decidi que vou começar pela última: lugar nenhum.
Testo e violão e tá tudo no ponto certo, me ajeito no banco e respiro fundo, posso ver Joy chegando e ficou sentado lá no balcão, as mesas estão cheias, todos alheios e presos nos seus próprios mundos, e eu aqui no meu.
Não preciso de nenhum sinal, começo a tocar os primeiros acordes.
Um homem sentado ao lado de Joy se vira e olha pra o palco onde eu estou, com sua dose de wisk. Me sinto presa naquele olhar e começo a cantar com a voz rouca e embargada de mistos sentimentos... Não preparei essa música, mas por um impulso começo a cantar.

(...) E que nunca te rendas meu amor
Y que nada te pueda vencer
Que al hablarnos desejemos sin voz, al ovido y su fuego
Que nos quiten lá venda después
Quando el água nos vuelve a cobrir...
E se abrirmos os olhos será, porque queremos vernos.

Aqui eu me sinto parte de alguma coisa, o homem que estava ao lado de Joy foi embora, e eu continuei cantando, alguns clientes acompanhando, outros absortos nas suas conversas.
Término todos os temas da lista e dou por encerrada a noite, me despeço de Joy e vou caminhando para casa...

A rua está silenciosa, só um e outro carro passa, não é aconselhável andar a essa hora sozinha, a criminalidade está em alta e qualquer coisa pode acontecer, com esses pensamentos aumento o passo, quero chegar logo em casa.
Antes de dobrar a esquerda escuto passos atrás de mim e isso  me assusta, mas aqui está bem iluminado não vai acontecer nada, continuo a caminhar com pressa até que escuto uma voz asquerosa.

- oi gostosa, quer companhia? Vem com o papai.

Ai meu Deus, quem no inferno falaria assim " vem com o papai "
Aumento o passo mas não adianta muito porque ele é mais rápido que eu e pega meu braço me puxando para a parede.

- porque tanta pressa não gostou de mim? - pergunta - que pena, eu já te amo e faço você me mar rapidinho.

- me solta - digo o empurando mas não faz muito efeito.
- sai de cima de mim seu nojento - grito dando lhe uma joelhada no meio das pernas.

Tento correr mas ele me pega pelos cabelos, grito pela dor repentina.

- sua cadela - sinto um tapa no meu rosto ou talvez um soco, sinto sangue escorrer por meu lábios - agora você vai se arrepender.

Aconteça o que acontecer, não posso permitir que isso aconteça comigo, já são muitas mulheres que sofrem nas mãos de homens como esse, perdedores e sem moral que estão a espreita esperando qualquer oportunidade para atacar, mas não desta vez.

O impacto da queda expulsa o ar dos meus pulmões, ele está com as mãos por todo meu corpo e se concentra em descer minhas calças enquanto eu apalpo o chão na esperança da vida não ser tão injusta comigo até esse ponto, é que eu encontre qualquer coisa, que eu possa usar para me defender antes que seja tarde, sinto um objeto sólido na mão, sem pensar duas vezes aperto com força e bato forte na cabeça do meu agressor, ele parece disnorteado, tempo necessário para eu sair a toda velocidade.

- você! Sua vadia. - ele grita raivoso - eu não vou ser gentil.

Ele vem atrás de mim se contorcendo um pouco é a minha chance para correr e faço isso, não tarda até eu sentir e ouvir os seus passos muito perto de mim, ele não pode me pegar de novo... Num ato impensado atravesso a estrada, quando uma luz forte me cega e sinto um impacto forte... Ele não pode ser necrófilo penso... E tudo fica escuro.

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