Capítulo 1 Parte 1 Velha nova vida

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Não tinha como não sorrir. Mesmo que meus cadernos estivessem todos espalhados pelo chão, sendo pisoteados pelos colegas que passavam sem entender, e eu ainda olhava fixamente para a tela do celular. Não me importava mais, nem com os colegas, nem com os cadernos.

Era, praticamente, o último dia de aula, nada mais naquele lugar me importava. Ainda precisava realizar as provas finais, mas, eu tinha acabado de ver meus resultados no ENEM, e, adivinhem só, eu havia alcançado uma nota bem maior do que o esperado e, com certeza, eu conseguiria uma vaga no curso de gastronomia.

Eu não estava acreditando no que meus olhos estavam vendo; eu ia chorar, com toda a certeza do mundo, eu ia.

Precisava ir para casa e contar para a minha avó! E era exatamente isso que eu faria.

Não! Espera. Primeiro eu tenho de pegar os meus cadernos que, ainda, estão espalhados pelo chão.

As meninas chegaram no momento em que eu me abaixei e começaram a me ajudar. Não satisfeitas, começaram, desesperadamente, a perguntar o que havia acontecido.

- Calma! Não foi nada demais. Bem, na verdade, foi! Foi mais que demais. Foi algo fodástico!

- Ah, menina, conta logo o que foi! - Disse Ana, aparentemente, ansiosa e irritada.

- Não vai dizer o que foi mesmo, não é Ayary?! - já me acusava Fran.

- Calma! As duas. É claro que eu vou! Mas, só depois que chegarmos na minha casa.

As duas se olharam e, juntas, me fuzilaram com o olhar. Mas, é claro que não reclamaram. Elas duas me conheciam há tempo o suficiente para saberem que eu não mudaria de ideia, nem mesmo por elas.

Chegamos em casa mais cedo que o normal, já que não tivemos as últimas aulas. Minha avó era incrível! Mesmo chegando mais cedo, ela já deu um jeito de encher a casa com cheiro de comida pra eu sentir logo que chegasse. Ela sabe todos os meus gostos e faz questão de satisfazê-los.

Uma vez eu disse à ela: a senhora está me mimando, sabia? Isso vai me estragar! Sabem o que ela respondeu? "Não vou te estragar. Vou te ensinar que você merece tudo, você merece o máximo. Assim, você aprende a nunca se contentar com migalhas. Sejam elas de amor, sejam de atenção, sejam de dinheiro de status, ou de comida." Eu diria que, no mínimo, minha vó é muito sábia.

As meninas já sabiam de cór. Chegar, tirar os sapatos. Limpá-los e guardar na prateleira que tinha ao lado de fora. Pegar um pouquinho de água no pote de barro na entrada de casa, passar por sobre a cabeça em círculo e jogar na rua. Foi assim que fui ensinada pela minha avó, foi assim que ensinei aos que tinham o direito de frequentar a minha casa. É para esfriar a terra, amansar o chão, o caminho. É para não trazer de fora o que não faria bem estar dentro de casa. É um ato bonito.

Fui direto para a cozinha, e lá estava ela. Linda em seu alaka colorido. Aquela preta me fazia muito feliz. Ver aquela mulher, guerreira e poderosa, sorrindo com uma rama de salsinha numa mão e uma faca na outra, ambas para cima, a faca fazendo o papel do microfone, cantando em voz de cantora de blues, enquanto chacoalhava as salsinhas na mão esquerda, acima da cabeça e com os olhos fechados. Deveria ser uma versão contemporânea da visão do paraíso.

Eu parei, com a mochila pendendo no ombro esquerdo, o qual eu apoiei no beiral da porta, o sorriso me rasgava a face de modo fácil. Eu era completamente apaixonada pela minha avó. Ela era a real razão de eu estar aqui. Ela abriu os olhos levemente, mas, o suficiente para me ver ali, parada. Fechou-os e os abriu novamente de súbito. Abriu um enorme sorriso ao me ver e disse com estridência e alegria:

- Oh! Você já está aqui? Chegou cedinho hoje meu amor. Venha aqui, dá um abraço na sua avó!

Ela sempre fazia isso, era como se eu viesse, todos os dias, passar as férias de julho com ela, e, só nos veríamos de novo no Natal. Eram todos o primeiro e o último. Não sei o que faz minha avó ser assim, mas, isso é uma característica muito especial, eu não me lembro de ter conhecido alguém com algo parecido, muito menos, igual. Isso me ensinou muitas coisas, coisas que eu não aprenderia com mais ninguém, em nenhum outro local.

Eu a abracei, como fazia todos os dias, com o sorriso rasgando o rosto, dos lábios aos olhos. Ela tinha perfume de casa. Sabe? Quando a pessoa te faz se sentir em casa? Como se, naquele abraço, nada fosse conseguir me machucar. Minha avó era mais que minha família, era minha casa.

- Vó, tenho uma coisa pra te contar.

- Hum! Algo grande e importante? - ela já tinha o brilho nos olhos de quem sabia que seria um motivo a se comemorar.

- Uhum! - meneei com a cabeça, segurando um sorriso e algumas lágrimas. Levei vovó para a sala, junto das meninas, e fiquei em pé na frente das três. Então! Adivinhem só quem vai conseguir aquela vaga de gastronomia na melhor universidade de São Paulo?

Eu vi o sorriso da vovó retroceder em uma cara de espanto, talvez, terror. Seu corpo virou-se, abruptamente, para o lado, olhando para as meninas que também estavam incrédulas. As três, melhor, as quatro, começaram a chorar juntas, as meninas vieram me abraçar, enquanto a vovó, ainda incrédula, processava a informação, começando a dar risadinhas nos intervalos dos soluços.

A essa altura, eu já estava soluçando também, com o rosto banhado em lágrimas e alguns litros prometendo derramar.

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⏰ Última actualización: Oct 20, 2019 ⏰

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