Capítulo 1

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Carmem

London - England, 1902.

As ruas de Londres nunca estiveram tão vazias quanto naquela tarde. Sob a pequena brecha de luz do sol que as nuvens carregadas deixavam transparecer, eu caminhava um pouco apressada, temendo me atrasar para a nova exposição de quadros que havia chegado a national gallery. Eu não conhecia a origem de tais novas obras, porém, a essa altura da vida em que eu tinha chegado, observar novas obras e tentar entendê-las, era quase uma sina para mim. Tudo que envolvia filosofia e seus adornos chamava minha intenção.

Caminhei o percurso todo bem rápido, com o ar úmido penetrando meus pulmões e tornando mais difícil a tarefa de respirar. Quando cheguei a Trafalgar Square, diminui a intensidade dos passos e deixei que a leve brisa do vento que vinha das árvores aliviasse o peso do ar úmido que eu tinha respirado até então.
Ao chegar à porta da National Gallery, a burguesia em peso tomava conta do local. Os brincos reluzentes feito faróis e os relógios banhados em ouro, faziam o local cheirar a luxúria e ganância. Eu era de origem nobre. Pai dono da maior relojoaria da cidade toda, mãe alfaiate. Juntos eles vestiam e enfeitavam quase noventa por cento das pessoas que estavam naquele local. Todo mundo sabia quem eu era. E eu sabia quem todos eles eram. Ao chegar na portaria, entrego meu casaco de lã vermelha ao rapaz que ali estava, e deixo á mostra meu vestido de ceda marfim que caía um pouco nos ombros deixando parte da clavícula a mostra. Os cabelos castanhos estavam jogados para trás e envoltos por um rabo que o deixava um pouco solto. Ao entrar, sou saudada pelo senhor que fazia o controle das entradas da noite.

-Boa noite, senhorita...

-Delaveccio. Carmem Delaveccio. - Falei com convicção.

-Ah sim, claro. Srta. Delaveccio. Filha de Pascoal Delaveccio.

Balancei a cabeça como afirmação.

-Emiliano irá levá-la até as obras.

Do meu lado direito surge um rapaz. Branco como neve, cabelos e olhos tão escuros quanto a noite.

-Emiliano Veras. Ao seu dispor.

Pela voz com a qual se referiu a mim, não deveria ter mais que dezesseis anos. Sorri com desprezo para ele que imediatamente endireitou sua postura e começou a andar.

-Por aqui, Mademoiselle. Siga-me.

Emiliano seguiu por entre corredores. Os cavalheiros baixavam a cabeça como cumprimento e as damas sorriam, sempre sorrisos enormes, tão falso quanto as coisas que possuíam. Depois de avistar quase toda a burguesia da cidade, paramos em frente à primeira obra. Um quadro magnífico de um degradê em tons frios. As cores vinham descendo em riscos até se emergirem e formarem o que parecia um lago totatalmente em degradê.

- A exposição começa aqui, Mademoiselle Delaveccio. Creio que os quadros á frente lhe chamaram mais atenção que este.

Sorri com desprezo outra vez para o garoto que atrapalhara meus pensamentos.

-Sei avaliar muito bem as obras, Emiliano. Obrigada por me acompanhar até aqui. - Falei asperamente esperando que ele se retirasse.

Não demorou dois segundos e o garoto já não estava mais sob meus olhos.

Continuei reparando na obra por mais alguns minutos. "O que pensava o autor quando pintou-a?". "Como interpretá-lá?". "Por que as pessoas não estavam lhe dando atenção?". "Porque eu sempre reparava em tudo que ninguém mais reparava?"
Enquanto eu metralhava minha mente de pensamentos, um casal se aproximou da obra. Ele era alto, cabelo ruivos acastanhados e branco.
Não me era estranho, mas também não me era um conhecido. Mas ela... Ela eu nunca tinha visto em lugar nenhum. Com seus olhos verde esmeralda ela encarava o quadro. Seu vestido não era uma das confecções de mamãe e nem as jóias que portava da relojoaria de papai. Seu vestido azul claro, provavelmente feito de seda refinada, fazia jus a seu tom de pele. Não era tão branca quanto o rapaz que lhe acompanhava, possuía um bronzeado diferente. Mas ainda sim era branca. Quando me dei conta, não estava mais reparando no quadro mas sim nela, e em como ela o admirava.

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