Dado um determinado momento, Steven se deu conta de que havia esquecido algo importantissimo, dentro do apartamento, algo que faria falta se ele não voltasse para buscar. Mas agora já era tarde demais, o elevador já estava quase no primeiro andar, e ele morava no décimo andar.
A batalha estava travada, ele agora era o centro de uma dúvida crucial.
Descer ou subir? Eis a questão!
Steven estava tão viajante em sua mente, fingindo ser um filósofo, que nem percebeu a porta do elevador se abrindo, então ele saiu.
Mas ao sair o elevador logo se fechou e ao que parecia o elevador já tinha ido para cima novamente.
-Droga!
Steven passou as mãos sobre os cabelos de uma forma que não os assanhasse, e então ouviu Sr. Alceu falar alguma coisa, e pelo tom da voz era com ele que o velho porteiro falava.
-Bom dia, sr. Alceu!
-Bom dia jovem. Não se aperreie, vá pela escadaria, tá um pouco empoeirada, faz tempo que Eliza não a limpa, mas dá pra ir.
Steven pensou bem, odiava escadas, odiava atrasos, odiava poeira, odiava falta de compromisso, odiava degraus, odiava relaxamento...
Em menos de 10 minutos Steven já era o centro de mais uma guerra pessoal.
Subir ou esperar? Eis a questão.
-Jovem?
Steven balançou a cabeça de um lado para o outro, como se aquele gesto fosse distancia-lo de seu conflito.
Olhou para Alceu e então pensou: por que não tentar?
-Bom dia, Sr Alceu!
Se despediu e saiu rumo a escadaria.
Ao abrir a porta, ele parou, olhou bem para a escuridão, a final eram apenas cinco da manhã, e ali, com o frio que fazia demorava a clarear, principalmente dentro dos estreitos corredores da escadaria.
Assim que adentrou, a porta bruscamente se fechou atrás dele, Steven tentou conter um grito, caçou Imediatamente um interruptor, não o encontrava em canto algum.
-Onde está você?
Fussou daqui, fussou Dalí, e nada de interruptor. E foi quando ele já estava pensando em desistir que o achou, ao que parecia faziam anos que ninguém nem limpava e nem usava aquela velha escadaria.
Steven ligou a luz, como se estivesse em um filme de terror, a luz começou a piscar, alternando entre seu amarelo incandescente e o negro da escuridão.
A cada lapso de luz que dava, ele conseguia ver as diversas e densas teias de aranhas dispersas por alí.
Então ele pensou em sair, mas também pensou: - O que Alceu vai pensar que sou? Um covarde? Exatamente. Mas também pensou que talvez Alceu nem o visse sair da escadaria, ou então ele poderia mentir, dizendo que já subira, é faria isso.
Quando se virou para abrir a porta, a luz novamente tinha se apagado, ele sentiu alguém ao seu lado, mas balançou a cabeça em negação, até por que seria impossível, ele estava sozinho.
Estava, não estava?
Steven não queria dar asas a esse pensamento, então apenas virou-se e abruptamente abriu a porta, quer dizer, tentou abrir a porta.
Ele tentou de todas as formas, pôs força, tentou abrir devagar, tentou pressionar, mas nada, a maçaneta não se movia um centímetro.
Gotinhas de suor começavam a escorrer de dentro de seus ruivos fios de cabelos espalhados pela testa, ele imediatamente as secou e endireitou o cabelo, jogando-o para o lado.
Respirou fundo olhou para maçaneta, e com olhos melancólicos desejos que aquela porta se abrisse- coisa que não aconteceu.
-Taa legal, minha única opção vai ser subir, e descer de elevador, ou então subir ao segundo andar e entrar e de lá pegar o elevador.
E foi o que fez, Steven tirou coragem de onde não tinha, e foi. Ligou a lanterna do celular e tentou subir.
Pôs os pés sobre o primeiro degral com coragem, no segundo nem tanto, no terceiro já não restava muita coragem, no quarto ele já não tinha mais coragem nenhuma.
Ainda bem que só faltavam dois degraus, (. )
As gotas de suor agora escorriam mais quentes, não que ele fosse um sedentário, ele era até "saudável", ou pelo menos o mais perto de saudável possível.
Pesava 62 quilos mas, não era tão magro assim. Tá, talvez fosse um pouco.
Steven parou ao patamar da escada, moveu a lanterna da esquerda para a direita tentando enchergar algo, mas não via nada, apenas teias.
Quando ele começou a subir novamente a segunda parte de escadas -para chegar ao segundo andar eram 15 degraus- a luz acendeu, não seria nada estranho se ele não lembrasse de ter apagado-a.
-Tem alguém aí?
Não obteve resposta, então tentou novamente.
-Tem alguém aí?
Novamente não obteve resposta, respirou fundo e começou a subir denovo os degraus.
Foi quando sua lanterna começou a falhar, piscando, sem parar.
-Aaa até você?
A luz da escadaria tambem começou a piscar, e Agora o celular e a lâmpada piscavam em um compasso quaternário.
Depois de oito batidas de compassos de quatro, as duas luzes- a lâmpada e a do celular-pararam e a escuridão tomou conta do ambiente.
Steven tentou não ligar para aquilo, e começou a subir, foi quando sentiu algo batendo contra seu corpo, pelo fato de tudo estar escuro, Steven não conseguiu identificar o que era.
Ele tremia dos pés a cabeça, mas não podia ficar parado ali. Dane-se reunião, dane-se empresa, dane-se tudo, o assunto agora era sair urgentemente dali, e de preferência vivo.
Steven estava a apenas 7 minutos na escadaria mas, mais pareciam horas.
38 anos antes...
- Mãe vou na casa da Elisa, chamar ela e Cristya para brincar.
-Nao demore, Sara. Chegue antes do jantar.
-Sim mamãe.
Sara saiu correndo pelas longas escadarias, seu maior hobbie não era nem brincar com as gêmeas, mas sim correr pelas escadarias.
Acreditava que isso a tornava uma boa corredora, e por conta disso que sempre ganhava das outras meninas na corrida escolar.
Sara corria cada vez mais rápido, e não cansava, de fato era boa. Enquanto todos os moradores do condomínio "Enville Green Home", odiavam as escadas, mas Sara, ela as amava.
Morava no décimo andar, de um edifício com treze andares, subia e descia por volta de quatro vezes por dia e nunca se cansava.
Sara estava tão distraída focada em correr as escadas mais rápido que não se atentou a sombra que tão rápido quanto ela a seguia.
E foi em um deslize que Sara caiu, ou foi empurrada, das escadas do nono andar e saiu rolando até o oitavo, ela rolou quinze degraus seguintes.
Horas depois...
-Mary, você não acha que sua irmã tá demorando?
-Ah mãe, vai ver, a brincadeira ta tão boa que ela nem viu a hora passar.
- A pois, quando essa mocinha vai ficar um bom tempo sem ir na casa das gêmeas, até aprender a seguir horários.
- Mãe, não é pra tanto, ela nunca se atrasa.
-Mary, desça e vai chamar sua irmã.
-Eu mãe? Manda o Dean, mas eu não. Odeio essas escadas, me dão medo.
- Sim, você. Deixa de bobeira, e vá logo.
...
Mary estava irritada, odiava descer e subir aquelas escadas. Ela estava tão distraída em seus pensamentos que não percebeu gotinhas de sangue nas paredes das escadas a baixo.
Só então quando chegou ao oitavo que tomou um susto, sua respiração acelerou de uma forma surreal, ela não conseguia processar nenhum pensamento.
O corpo de Sara estava totalmente ensanguentado, seus sapatos jogados para um lado, seu corpo todo contorcido.
Sara estava de bruços porém o pescoço, estava visivelmente quebrado.
Dava para ver uma parte do osso.
Mary começou a chorar, não conseguia descer nenhum degral até o corpo visivelmente sem vida de sua irmã.
Tudo o que pôde fazer foi subir, correndo, Mary também não percebeu a sombra que a acompanhava.
