Seus pensamentos ininterruptos diziam quase sempre o mesmo: "Mimi, o que aconteceria se você simplesmente pulasse agora!?"
Ela, uma jovem de pouco mais de 20 anos, se via sentada à beira de um lago. Contemplando a água e as árvores ao seu redor, acordou de súbito do seu transe quando notou certa movimentação nos arredores. Ao olhar para trás, não enxergava nada que já não estivesse ali antes. Voltou a refletir sobre as consequências de ações impulsivas, como a de pular dentro de um lago, quase às 23h, num parque considerado perigoso pela vizinha.
Distraída, ouviu novamente um barulho que passava por trás de si. Dessa vez, se congelou num medo abrupto que dominou todas as suas ligações nervosas. Um arrepio lhe subiu pela espinha. O som ficava mais próximo a cada segundo, e então, olhando pelos cantos dos olhos, viu uma sombra enorme. Seu reflexo nas águas daquele lago era distorcido, não conseguiria ver quem estava ali.
Seu senso de perigo chegou ao extremo quando a pessoa atrás dela levantou a mão e, num tom rouco e abafado, disse: "Não está tarde para uma moça como você estar num lugar desses sozinha?". As pupilas da garota se dilataram e ela agarrou o guarda-chuva que carregava consigo, numa tentativa desesperada de se defender. Ao toque do desconhecido ao seu ombro, Mimi arremessou seu braço direito que segurava sua arma improvisada em um movimento de meia lua.
- "MEU DEUS, o que você tá fazendo!?" - ela ouviu o grito sair da boca do homem.
Ela foi surpreendida ao notar que aquele, por mais estranho que fosse, era Igor, seu irmão.
- Por Deus, Igor! O que você está fazendo aqui? - com o coração acelerado, ela deixou o guarda chuva despencar pelo braço e colocou a mão no peito.
- Eu estava te procurando. Sua amiga me ligou dizendo que não tinha te visto hoje e perguntou se estava tudo bem. - Igor agora puxava um maço de cigarros do bolso da jaqueta e observava o vento a balançar as folhas das árvores.
Mimi pensou se deveria dar uma explicação pelo seu sumiço, o terceiro em uma semana e meia. As outras duas haviam sido tão problemáticas que ela preferiria não tocar no assunto. Estava mais aliviada que seu irmão mais velho estava ali, mesmo que os dois não dissessem nada sobre isso. Ela olhou-o tirar o cigarro e colocar entre os lábios. Eles se encararam por alguns poucos segundos e então ele suspirou, rendido ao pedido (ou ordem) silencioso da irmã. Tirou o cigarro da boca e guardou novamente.
*
Já era manhã e Mimi não havia pregado os olhos. Ao voltar para a casa de seus pais junto ao seu irmão na noite anterior muitos pensamentos rodeavam sua cabeça. Haviam exatos dois anos desde que ela precisou se mudar para iniciar a faculdade de Química em uma cidade há 2 horas dali.
A princípio, ela negou o pedido de Igor para passar o fim de semana lá. Não sentia que poderia tirar nada de bom ao voltar para casa em que viveu até seus 19 anos e ver seu pai adoecer aos poucos mas, que não podia abandonar seu emprego porque precisava criar Cecília, filha mais nova e de outro casamento. Ela até entendia, a vida deles não ficou mais fácil nos últimos dois anos, mesmo que um dos principais motivos de Mimi para ir embora fosse não dar mais tanto trabalho para eles.
Todos comiam o café da manhã em completo silêncio. Ainda pairava o sentimento de luto desde que Mimi estivera em casa a ultima vez, há pouco mais de dois anos agora. Ela percebeu o desconforto que causava ao estar ali. Seu pai sequer levantava o olhar para encara-la e manter uma conversa que exigisse mais do que duas frases. Nesse momento, a garota sentiu-se totalmente fria por dentro, com a culpa a exalar por seus poros e misturava-se com vergonha. Decidiu que faria as malas e não passaria mais um dia sequer ali. Precisava dar paz à sua família de uma vez por todas.
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Os Contos De Mimi Walker
FantasySerão reunidos contos sobre a vida da incomum Mimi Walker ao longo de sua adolescência e sua transição para a vida adulta.
