Capítulo I - O Último Dia de Primavera - por Jughead

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O relógio tocara a meia-noite e meus olhos continuavam arregalados. O sono não vinha, e eu meio que não queria dormir. Havia tendo estes pesadelos desde a última lua-nova e não podia contar a ninguém, afinal, eram apenas pesadelos.
Cansado de parecer um filé num grill, me inclinei sentando na cama. Virei-me ascendendo o abajur com um apenas toque e abri a primeira gaveta do criado-mudo. Retirei de dentro um pequeno caderno de desenho o qual relatava meus sonhos com riquíssimos detalhes. Nas ultimas páginas havia desenhado a lua sobre as nuvens densas de fumaça e homem encapuzado saindo entre as árvores, seguidos de mais quatro homens, dois em cada lado. Na página seguinte havia uma garota morta, com a garganta estraçalhada, mas não conseguia reconhecê-la apesar de saber que a conhecia, mas minha memoria a bloqueava. Meu ultimo desenho havia duas pessoas de mãos dadas e na frente delas outro homem se desintegrando em chamas.
Não eram desenhos muito bonitos de se ver.
Fiquei um tempo com a lapiseira na mão, pairando-a sobre a folha em branco, mas não conseguia desenhar nada, pois afinal, os desenhos eram feitos logo após eu acordar totalmente amedrontado, e eu nem havia dormido.
Várias coisas já haviam acontecido, e elas que me trouxeram a esta pequena cidade. Woonden´s Ville não era lá grande coisa, mas você se acostuma. Quem não estava acostumada, era Sophia, minha irmã gêmea. Excêntrica, ela gostava dos holofotes, e apesar de sermos univitelinos, não éramos nada iguais. A não ser é claro pelos cabelos escuros e olhos verde-esmeralda.
Morávamos com nossos tios, que sempre nos relataram órfãos com a única explicação de nossos pais terem morrido num acidente de carro. Apesar de repetirem a histórias várias e várias vezes sem mudar uma vírgula, eu e Soph desconfiávamos. Mas como disse, nós éramos diferentes. Enquanto eu buscava ser normal e invisível, me acostumando aos padrões da sociedade, Veronica buscava aventuras, paixões e encrenca, muita encrenca.
Ela não era do tipo que atraia bad boys, era do tipo de garota que era a bad girl. Linda, encorpada, inteligente, era também rancorosa e vingativa. Não deixava nada passar e quem se metesse em seu caminho ela fazia questão de fazer pagar. E aas vezes o preço era muito alto, e acabava afetando todos nós.
Nos nossos quinze anos, havíamos nos mudado umas nove vezes, pulando de cidade em cidade feito ciganos. Nova casa, novo carro, nova escola, novos professes, colegas de turma, novas vidas. Era sempre a mesma coisa. Darly, nosso tio, chegava em casa e anunciava a mudança. Nós, como “tutelados”, acatávamos a decisão.
Soph nos acarretou quatro mudanças por sua extravagancia, as outras cinco fora apenas anunciadas sem explicação. Eu estava cansado, eu desejava uma vida normal. Terminar o colegial, ser aceito em uma boa faculdade, e definitivamente, ser uma pessoa normal. Mas nos últimos anos, a palavra normal já parecia fugir de mim.
Definitivamente eu e Soph não éramos normais. Mas ainda perdidos na aceitação da existência, desejávamos descobrir, mas tínhamos medo de correr atrás.
Realmente não iria aparecer nada em minha mente a não ser que eu dormisse então eu desisti e deitei a lapiseira no meio do meu caderno de desenhos, e o fechei, o depositando de volta a primeira gaveta e fechando-a. Repousei novamente minha cabeça no travesseiro de penas de ganso e obriguei-me a permanecer de olhos fechados até que adormecesse.
O sono não demorou, e eu dormia profundamente com uma leve respiração e tranquilidade.

Nuvens de fumaça. Eu e Veronica na floresta com um garoto.
Estávamos correndo, ou fugindo de algo. Paramos as pressas em frente a um curto desfiladeiro onde não dávamos pra pular.
O garoto se afastou, e num abrupto movimento sua pele se rasgou como se fosse um pedaço de tecido, e de dentro de sua carcaça caída no chão, saiu uma criatura gigantesca onde não conseguia ligar a um animal parecido para poder identificar. Ele se deitou para que subíssemos nele e pulássemos o desfiladeiro.
Assim que aterrissamos no chão, olhamos para trás e vimos o homem o qual havia sonhado antes matando a garota, e mais dois homens ao seu lado.
- Nós ainda pegaremos vocês, filhos de Nephilin! - gritou ele.

- O que? – eu acordei diretamente, me inclinado para sentar na cama – Filhos do que?
Eu estava perdido no sonho. Foi a primeira vez que não tive um pesadelo e acordei me debatendo.
Me contorci para o lado direito da cama e olhei o despertador, onde marcava quatro e quarenta e sete. Então liguei o abajur e apanhei meu caderno de desenhos, para reproduzir a cena.
Eu começara desenhar eu e Veronica montados na criatura do outro lado do desfiladeiro, e o homem apontando para nós com os outros dois a seu lado. O desenho era claro e nítido.
Quando fui me deitar novamente o relógio já marcava cinco e cinquenta e nove. Resolvi não enganar meu sono e me levantei. Andei tropeçando nos meus sapatos espalhados pelo chão do quarto, e fui em direção ao closet. Abri a porta e entrei, acendendo a luz no interruptor. Entre os vários cabides preenchidos da arara de cima, procurei uma camiseta que não chamasse tanta atenção. Droga, a minha camiseta favorita não estava lá. Deveria estar na secadora. Procurei então na arara de baixo um calça jeans, apanhei uma preta Calvin Klein e joguei-a na cama. Me virei para lado oposto das araras, onde haviam as gavetas, o sapateiro e algumas estantes em quadrados. Abri a gaveta de cuecas e retirei qualquer uma. Fiz a mesma coisa com a gaveta de meias abaixo. Olhando abaixo da gaveta de meias, o sapateiro, o qual havia apenas dois pares, pois a maioria estava espalhada no chão.
Bom, eu não era desorganizado, apenas dava liberdade aos meus sapatos de ficarem onde bem quiserem. Ou onde eu deixo. Risos.
Sai do closet fechando a porta e jogando a meia e a cueca box na cama em cima do jeans. Ainda estava escuro, e não havia porque ascender a luz do quarto, já que a luz do abajur esta iluminando bem.
O abajur tinha forma do meu personagem favorito de Toy Story, o comandante intergaláctico Buzz Lightyear. O espaço sempre me fascinou desde pequeno e de certa forma, eu sentia que havia algo mais além das estrelas, algo além da imaginação humana. O governo esconde muita coisa, então não duvido que esconda alguma descoberta que tenha feito por lá. Talvez eu devesse ir para NASA e ser um astronauta. Havia muito a se pensar até eu terminar o colegial. Mas o fato era que eu sentia que meu futuro já havia sido traçado sem meu consentimento, e eu sabia que chegaria uma hora que eu teria de escolher em seguir a predestinação, ou o meu desejo de pertencer um mundo que não me aceitaria por ser quem eu era.
Havia ganhado o abajur na viagem de aniversário de dez anos, onde fomos pra Disneyland. Foi a melhor viagem que eu já havia feito. Me sentia como uma família. E por um tempo, eu pertenci ao mundo. Uma simples criança atrás de diversão e alegria. Mas foi depois disso que tudo mudou.
Peguei a roupa que estava em cima da cama e destranquei a porta do meu quarto silenciosamente a abrindo movendo o trinco pra baixo. Espiei o corredor do primeiro andar esticando meu pescoço e não vendo ninguém. Atravessei a porta e segui para o banheiro onde a porta estava aberta. Eu entrei e a fechei, girando a chave automática para trancar a porta e garantir que ninguém invadiria o banheiro enquanto tomasse meu banho.
Pendurei as roupas nos gancho de ferro maciço e abri a torneira da banheira no máximo para enchê-la depressa e fechei a cortina para não respingar água no chão.
Retirei as meias do meu pé apoiando na parede de ajulejos de cerâmica, e as atirei no cesto de roupas sujas. Com um passo mais ao lado, me fixei em frente o meu reflexo no espelho do armário de madeira creme. Por um rápido instante, quando meus olhos se conectaram com o reflexo deles no espelho, eu esqueci minhas preocupações, e por um instante, pude ser normal.
Retirei a camiseta branca, com um Bob Esponja desbotado, e meu short de setim azul Marinho com bolinhas brancas. Típico de um shorts pra dormir. Haha. Por fim abaixei minha cueca box preta e a tirei com o pé próximo ao cesto.
Me voltei pra banheira, onde puxei a cortina de plástico e desliguei a torneira, pois havia cumprido sua função. Coloquei primeiramente o pé direito na água, e descendo-o até o fundo; coloquei a perna esquerda e antes de me sentar, fechei a cortina para que não respingasse no chão do banheiro, pois era uma coisa que Ângela detestava. Sentei e abracei meus joelhos, após de mergulhamos na água.
A água batia até meu peitoral onde deixava as pontas dos meus joelhos descobertas; e estava morna, o que me fazia quere mais ainda a ficar ali. Eu me deixei escorregar para dentro da banheira para que pudesse molhar meu rosto e meu cabelo. Enquanto ficava submerso a agua, pensava o que realmente acontecera conosco. Haviam mais outros diferentes? Ou algo mais? Afastei estes pensamentos da minha cabeça e voltei a realidade emergindo novamente a superfície. Aqui era meu refúgio. Sozinho, perdido em meus pensamentos, poderia planejar meu futuro em terminar o colegial, ser aceito em uma ótima faculdade onde passaria os quatro anos da minha vida morando no alojamento do campus, começar a trabalhar de garçom em um bom restaurante, conhecer uma garota, se apaixonar perdidamente por ela...
- Se casar, comprar uma casa e viver feliz para sempre! - terminou Veronica me interrompendo.
- Como entrou aqui? - perguntei esquecendo como.
- Por que insiste em tentar se encaichar? Você é patético!
Ela levantou da privada com a tampa fechada onde estava sentada. Caminhou até o espelho e ficou se admirando.
- Porque não tem nada pra nós a não ser pensarmos em um futuro concreto e com responsabilidades normais. - respondi em um tom sensato.
Não queria discutir, afinal, eu estava tentando relaxar.
- A questão é que não somos normais Jughead Quando vai aceitar? - essa conversa de novo! Vi que iria durar muito - Você não pensou que pode ter um mundo lá fora onde podemos descobrir novas coisas. Pessoas como nós!
Eu achava incrível a força de vontade que ela tinha de procurar aventuras... E encrencas! Mas não podia me entregar a um plano de possibilidades onde  arriscaria um futuro concreto por um futuro incerto.
- Você não precisa de mim para ir! - disse.
- Mas preciso de você para me proteger. E além de tudo, por que é meu irmão e teria que me apoiar e ficar do meu lado! - ela havia ficado irritada.
- Você sabe muito bem que te apoio e fico do seu lado sempre que precisa. Mas você esta obssecada por essa aventura que não pensa que somos apenas eu e você contra um mundo. - me levantei apanhando a toalha e enrolando em minha cintura enquanto saia da banheira.
- E nós venceremos! - animação! Onde ela encontrava tanta?
- Viraríamos cobaias de experimentos científicos. Se já não somos uma? - ri.
- Posso até não saber o que somos. Mais eu sei o que eu quero! - por quanto tempo ela tentaria me convencer desta vez?
- Essa é a questão. "O que você quer!" Você nunca se preocupa com o que Eu quero. É apenas você, você e você a sua vida inteira Soph. - comecei a ficar irritado - Você não quer que eu vá com você pela minha compania. As vezes fico pensando se você me ama de verdade por sermos irmãos, ou por causa... - eu não gostava de falar.
- Até quando vai ficar na negação? Qual é, já faz cinco anos! - ela definitivamente me irritou.
Eu peguei minhas roupas no gancho e fui em direção ao meu quarto onde me seguiu.
- Não, você não vai entrar. Vou me trocar em paz! - parei diante a porta barrando a entrada dela com meu braço segurando as roupas encostado na borda da porta.
- Jughed - protestou ela.
- Por hoje chega Veronica.
- O dia ainda nem começou. - gruniu ela irritada indo para o lado oposto do corredor em direção a seu quarto.
Eu me virei e entrei, fechando a porta e a trancando com chave.
Desde quando chave foi o problema para impedir Soph a invadir algo que ela queira?
Andei até minha cama onde atirei o shorts, a cueca e o par de meias, e me atirei ao lado delas inteiramente molhado e nu, apenas com a toalha verde algodão frouxa em minha cintura.
Colocando minhas mão sobre a testa, tentando abafar os sentimentos de fúria que Veronica havia despertado, e remoendo o que ela me dissera. Que vontade que eu estava de gritar!
Me inclinei me sentando novamente pra conferir a hora. Já era seis e cinquenta e dois. Me levantei tirando a toalha de minha cintura e me enxugando. Deixando a toalha molhada em cima da cama, vesti primeiramente minha cueca box e o par de meias, então vesti a calça o qual definia bem minhas pernas atléticas, por seu modelo ser justo. Abotoei e fechei o zíper. Estava pronto, agora só faltava a camiseta.
- Jughead já são sete e meia! - gritou Ângela batendo na porta do meu quarto.
- Já estou acordado.
Me levantei e abri a porta revelando meus cabelos ainda molhados.
- Uau, já esta pronto. - riu ela surpresa.
- Acordei cedo. – revelei.
- Termine de se vestir e desça. Vou começar a preparar o café. – avisou ela indo em direção à escada.
Enquanto ela sumia descendo pelos degraus eu me voltei para dentro do quarto e antes que pudesse fechar a porta, Veronica me impediu.
- Espere! – pediu ela.
- Veronica não! – pedi.
- Eu achei uma coisa. - ela parecia realmente entusiasmada, mas eu não estava a fim de saber.
- É de um repórter do The New York Times. – ela estava tentando me convencer – Eles não publicariam se fosse mentira. É o maior jornal do país.
- Tem dez minutos antes que Ângela volte pra nos chamar novamente.
- Foi publicada por Victor O´Connor, o maior e melhor jornalista de fenômenos paranormais do país. – começou ela atravessando  a porta e entrando em meu quarto.
- Está falando que somos fantasmas? – eu não resisti em fazer uma piada com o entusiasmo dela.
- Não, seu imbecil. – ela pegou o papel impresso e me mostrou a reportagem onde continha uma foto de pinturas rupestres – Ele diz que nesses desenhos contem uma história oculta de um povo que existiu aqui na América pós-Pangeia. Pinturas estas que se parecem com um outro povo no continente africano, europeu e asiático. Ele defende a ideia que eles eram uma nação, e que foram divididas em aldeias, e que cada aldeia tinha como brasão um elemento natural.
Ela conseguiu me intrigar, e agora estava ansioso por respostas. Mas não poderia demostrar nem compartilhar seu entusiasmo.
- Mas o que isso tem haver com a gente? – perguntei.
- Na Pangeia, as aldeias ainda eram divididas apesar de compartilhar das mesmas leis. Cada uma tinha devoção a um determinado elemento, que no caso são os quatro: água, terra fogo e ar. – ela mostrou outra folha impressa com desenho de apenas três elementos - Mas ai que esta, pré-Pangeia o ar não era considerado elemento, só foi considerado quando a aldeia da água se instalou no norte da Ásia tomando todo território de gelo, a aldeia do fogo tomou o continente americano, e a aldeia da terra tomou o continente africano. – ela mostrou uma terceira folha com imagens pós-Pangeia, mas com mais um desenho de um novo elemento -  Pós-Pangeia, o ar foi reconhecido como elemento, e sua aldeia teve início na Oceania, como é conhecida atualmente.
- Então acha que somos, como ele usa o termo mesmo? – perguntei procurando a palavra em sua reportagem na primeira folha - “Elementares”? – questionei interessado mais ainda sim, focado na realidade.
- Aqui ele deixa claro que eles controlavam apenas o elemento de sua aldeia. – disse ela pensativa – Fazemos mais que isso!
Ela se levantou com as folhas na mão.
- Vou pra New York amanhã de manhã. – informou ela.
- Está louca? – me exaltei – O que vai fazer lá?
- Já marquei um horário pra falar com esse jornalista.
- Não é por que estamos nas ultimas semanas de aula que você pode faltar assim. Já avisou Ângela e Darly? – ao parar de falar me questionei pr que havia perguntado se mais uma vez eu sabia a resposta.
- Não, não falei. – eu sabia – Jughead eu preciso de respostas! – os olhos dela lacrimejaram de ansiedade. Confesso que também havia ficado ansioso, mas eu ainda me focava nos cursos avançados que tinha de terminar. – E eu não posso ir sozinha.
- Eu não posso ir com você. Você sabe que eu preciso fechar com A em Francês Avançado. – protestei minha ida.
- Eu já comprei as passagens. – declarou ela por fim saindo d meu quarto.
- O que? – a pergunta havia sido inútil, pois quando terminei a frase, ela já estava no topo dos degraus pronta pra descer.
Meu peito nu e definido havia ficado molhado novamente. A ansiedade e o nervosismo me haviam feito transpirar. Peguei a toalha a meu lado e me enxuguei novamente.
Me levantei com a toalha molhada em meu ombro esquerdo e caminhei até a porta onde abaixei o trinco para abri-lá. Atravessei-a e andei apressado até o fim do corredor do primeiro andar, em direção as escadas de madeira canadense de segunda mão. Desci os degraus chegando a divisão entre a sala de estar e o hall com a sala de jantar e a cozinha.
- Bom dia Jughead - cumprimentou apressado meu tio Darly, com um dos seus tradicionais ternos Marc Jacob e sapatos da Tommy Hilfiger. Ele se sentou à mesa e começou a comer os ovos com bacon que estavam em seu prato e ler o jornal que Ângela sempre deixava ao lado - Como está o colégio? - perguntou ele ainda concentrado no jornal.
- Normal. - respondi indo em direção a meu lugar.
- Nem pense nisso mocinho! - Ângela me impediu de sentar - Nada de comer sem estar inteiramente vestido!
- Qual é tia! - protestei rindo.
- Não mocinho. Vá vestir uma camiseta e deixe a toalha estendida no varal. - pediu ela.
Quando ela terminou de falar a porta da lavanderia se abriu rapidamente e Veronica atravessou a cozinha ao meu encontro segurando minha camiseta verde-limão fluorescente, com Hollister escrito em vermelho-sangue.
- Não há de que, maninho! - sorriu ela ironicamente.
Ângela e Veronica nunca se deram bem, e Veronica sempre fazia algo para irritá-la, afrontá-la ou desprezá-la. Veronica me entregou a camiseta que ainda estava úmida e continuou em passos lentos.
- Ainda esta molhada! - disse me virando pra ela.
- Suba e escolha outra. - ordenou Ângela.
Eu sei que Darly também estava sentido a tensão que Veronica queria provocar, e eu estava vendo a hora que ele iria pará-la.
- Não precisamos disso. - afrontou Veronica voltando até mim e colocando sua mão sobre meu ombro direito nu.
Após o toque, senti um formigamento que ardeu, mas nada que não pudesse aguentar, e em instantes a toalha e a camiseta estava secas.
Então Veronica encarou Ângela com indiferença e sorriu sarcástica, indo em direção aos degraus.
- E você, Veronica? Esta se saindo bem no colégio? - perguntou Darly evitando o tumulto.
Darly era um ótimo tio, e tentava realmente agir como um pai, o que pra mim, nunca fora um problema. Mas era um problema para Soph.
- Exatamente como você sabe que estou! - ela deixou de encarar Ângela e começou encarar Darly.
- Mas eu gostaria de escutar de você! - insistiu ele pacificamente.
- O que agora? Vamos começar a agir como uma família feliz? - ela não estava nada pacífica. E pelo jeito, não iria ficar.
- Eles são nossa família, Veronica! - defendi-os.
- São? - ela andou até a mesa - E por acaso eles podem fazer o que nós fazemos? - ela começou a se dirigir a eles em terceira pessoa.
- Basta Veronica! - ele apenas olhou para que ela parasse. Mas ela não parou.
- Vocês sempre evitaram nos contar de onde viemos. Ou de por que estarmos aqui? O verdadeiro motivo para que vocês vivem nos escondendo! - eu estava entendendo o que ela queria fazer, e não podia deixar que fizesse.
- Veeonica pare. - eu afastei ela da mesa ficando diante dela com minhas mão agarradas firmemente em seus braços tentando a fazer voltar para si.
- Não preciso que me parem, mas que me expliquem!
Ela se soltou e subiu a escada rapidamente em um enorme estado de fúria.
- Eu falo com ela! - avisei, indo em direção a escada e refazendo os passos de Veronica.
- Está chegando a hora! - diz Darly.
"Hora de que?" me pergunte parando em meio a escada.
- Eles não estão preparados. Eles só tem dezesseis anos. - rebateu Ângela.
"Preparados para o que?" Darly conseguira me intrigar, e eu comecei a perceber que Veronica poderia ter alguma razão. Parei onde estava para poder escutar o rumo deste debate.
- É exatamente por isso Ângela. Ao completar a Décima Sétima Lua, eles irão ficar visíveis aos Iluminados, e  eles virão para aniquilá-los. - diz Darly temeroso.
"Iluminados? Do que eles estão falando?" eu realmente estava muito interessado em saber o final desta conversa.
- Então devemos tirá-los daqui. - disse Ângela se apressando como se eles já tivessem decididos.
- E levá-los para onde Ângela? - a conversa tomou um novo rumo - Eles irão ascender em dois meses, e não poderemos mais protegê-los.
Darly se levanta da mesa e fica diante de Ângela.
- Eu avisei a você que deveríamos ter começado a treiná-los aos dez anos. -  lembrou Darly do momento que descobrimos que eramos diferentes. Veronica havia ficado irritada com uma colega de classe que tentou intimida-la por ser novata e eu fui defende-lá. Sem sucesso de meu ato de coragem, a garota me derrubou e saiu como se nada tivesse acontecido. Lembro-me como se fosse hoje, dos sentimentos de Veronica naquele momento. Ela ficou tão irritada que quando foi seguir a garota eu a agarrei pelo pulso, ainda no chão, tentando impedir que espancasse a garota.as o que aconteceu foi pior.
Foi como uma descarga elétrica. Nosso corpo se conectou, e nossas mentes se tornaram uma, nossos desejos se tornaram únicos, e Veronica desejou que a garota não voltasse a andar novamente. A uns vinte metros de onde estávamos, a garota tombou como uma manga madura no chão. Sua espinha dorsal havia se desintegrado dentro do próprio corpo. Ela não voltaria mais a andar. E nem a ter mais movimento algum.
- Se Veronica conseguiu tornar uma garota tetraplégica com dez anos de idade, imagine o que ela poderia fazer agora? - temeu Ângela.
- Seus poderes se manifestaram de maneira errada. Poderíamos ter focado, tê-los controlado. - sugeriu ele.
- Já perdi minha família uma vez. Não a perderei novamente! - Ângela estava com uma xícara na mão, e quando terminou de falar, a xícara estourou, assustando nós três.
- O que sugere que façamos? - continuou Darly ignorando o fato da xícara, como se isso fosse absolutamente normal.
- Temos de leva-los ao Ninho. - ela encarou Darly.
- Ian deu ordens expressas a Persephany para que os mantivessem longe de lá. - lembrou Darly testando a vontade dela.
- Vá a merda com as ordens daquele Caído. Somos de uma geração mais antiga do que a dele. - arrogante como Veronica ela desdenhou o homem mencionado.
- E ainda sim recorrerá a ele? - Darly continuou alfinetando-a.
Havia percebido o que ele queria fazer, e eu queria ver aonde aquela conversa iria chegar.
- Eles não podem se proteger sozinhos, e nós não temos força o suficiente para protege-los. Lá, eles terão. - complementou ela - Você acha que será fácil pra mim contar a verdade?
- Não será fácil pra nenhum de nós. E eu não tripudiarei dizendo que poderíamos ter feito isso antes, apenas direi que você foi a melhor mãe que pode pra essas crianças. - Darly se aproximou dela e a beijou num beijo longo e caloroso de amor.
- O que acha que Ian irá dizer? - perguntou ela intrigada.
- O que quer dizer? - respondeu ele perdido.
- Ian não sabe que os filhos sobreviveram. - ela fez uma longa pausa fitando-o - Ele acredita que os filhos foram abatidos com minha irmã.
- Irá contar isso a eles também? - perguntou ele sem surpresa.
Eu me surpriendi por ele não ter ficado surpreso. Mas Veronica tinha razão. Eles escondiam algo de nós; e algo me falava que era mais do que descobrir que nosso pai estava vivo e que não sabia de nossa existência.
Sim, eu ainda estava em choque. Perplexo com a revelação. Tão perplexo que meu corpo não conseguia obedecer os comando de minha mente para subir os degraus.
- Vou chama-los para ir pro Colégio se não vão se atrasar. Contaremos assim que eles retornarem. - ela se afastou dele e foi até a pia para lavar a mão - Deixarei as malas prontas.
Ao perceber que ela estava vindo para a escada, eu me assustei e dei um giro veloz demais que minha camiseta caira no impulso que fiz para subir. Mas não havia tempo de retornar e pega-lá, apenas continuei subindo e atravessei a porta de meu quarto aberta e a fechei me jogando na cama, perdido em meus pensamentos como já era de costume, preocupado com a camiseta nos degraus, e contar a verdade a Veronica.
Toc Toc.
Levei um susto e saltei da cama preocupado.
- Veronica? - chamou Ângela.
Ela não obteve resposta.
- Veronica? - tentou mais uma vez esperando ansiosamente que Soph respondesse para que ela não precisasse invadir o quarto, o que deixava-a muito irritada.
Sem sucesso, novamente, Ângela empurrou para baixo o trinco da porta e o abriu, vendo Soph deitada na cama com seu iPod e fones de ouvido.
Assim que Veronica avistou Ângela, ela arrancou os fones de ouvido e saltou da cama furiosa.
- O que esta fazendo aqui?
- Olha o tom, mocinha. - se irritou Ângela - O ônibus chega em dez minutos.
Ângela avisou se retirando do quarto, sendo afrontada com uma batida forte da porta. De frente com a porta do meu quarto, ela se aproximou um ou dois passos.
Toc Toc.
Ela estava aqui.
- Jughead, o ônibus chega em dez minutos. - avisou ela.
Eu respirei fundo para não gritar. Estava ansioso, desesperado e frustrado por saber que podia ter mais coisas além do que eu imaginava. Não sabia se iria conseguir disfarçar. Eu estava transpirando novamente.
- Já desço! - avisei protestando sua entrada. Sem sucesso.
O trinco se mexeu e a porta rangeu para dentro. Eu gelei.
- Jughead. - ela entrou me chamando.
- Sim. - a encarei não sabendo exatamente o que dizer. Não sabia o que ela iria perguntar, e eu não estava nem um pouco afim de responder. Nem de mentir.
- Acho que esqueceu isso nos degraus. - ela me entregou a camiseta.
- O-obrigado. - gaguejei.
- Eu não sei o que escutou, mas vocês ainda não estão prontos! - ela se aproximou com cautela e me abraçou - Mas acima de tudo, quero que saiba que sempre amei vocês! - ela terminou me dando um beijo na testa.
Ao se afastar de mim, seus olhos reviraram meu quarto e se encontraram com os papeis impressos que Soph havia me trazido, e eu havia deixado em cima da cama.
- O que é isso? - perguntou ela os apanhando e lendo seu conteúdo - De onde conhecem Victor O´Connor?
Sua expressão calma e serena havia desaparecido, e um olhar de fúria e preocupação me fitava agora.
Ela havia me deixado mais curioso, e pela primeira vez resolvi enfrenta-lá como Veronica.
- De uma palestra no colégio. Achei ele uma pessoa muito interessante. Aborda assuntos curiosos. - eu fugi do assunto principal jogando o jogo dela. De omissão.
- Você falou com ele? - seus olhos se estatelaram, o que me assustou mais ainda, então resolvi ir mais afundo na mentira.
- Mas é claro! - fui sarcástico - Ele é um dos maiores repórteres de New York tia. Não pude perder essa chance. - me afastei dela ficando em frente do espelho na porta do closet, onde vestia minha camiseta.
- O que ele lhe contou? - ela foi até mim e agarrou meu braço fortemente me encarando - Não minta!
- Me solta! - ela havia me deixado muito assustado.
Puxei meu braço para o lado o libertando de seus dedos, e me afastei indo para porta do quarto.
- Sinceramente tia. Não lhe interessa o que ele me contou! - uau, eu estava assustado por te-lá respondido; nunca havia feito isso, mas eu queria saber a verdade. Mesmo que não estivesse pronto - Agora você poderia me deixar terminar de me arrumar?
Eu estava a expulsando do meu quarto. Eu estava diferente. Não era idiota, mas não era rebelde como Veronica. Apenas estava... Me libertando?
- Essa conversa não acabou aqui mocinho. - ainda irritada ela deixou o quarto batendo fortemente sua sandália Jimmy Choo nos degraus da escada, como se eles tivessem culpa.
Eu apanhei minha mochila do chão e sai atravessando a porta, indo reto e batendo na porta do quarto de Veronica.
- Eu já disse que já desço. Mas que merda! - gritou Veronica do quarto.
Quando percebi que ela não iria abrir a porta eu forcei o trinco para baixo e abri a porta, entrando.
Veronica estava do mesmo jeito que havia ficado quando Ângela se entrou no quarto: deitada na cama com fone de ouvido.
Ela se assustou um pouco ao ver que era eu adentrando em seu quarto.
- Preciso lhe contar uma coisa. Urgente! - eu estava com um tom nervoso - Mas não pode ser aqui.
Quando terminei de falar eu deixei o quarto, deixando-a curiosa, e fazendo-a apanhar a bolsa ao lado da cama e saltar feito um canguru, indo o mais depressa possível atrás de mim, que já estava mais da metade da escada.
Atravessei a divisão das salas, rumo a porta, com Veronica logo atrás de mim.
- Tomem cuidado! - avisou Darly fitando Veronica.
Ao ouvir isso, pausei rapidamente perante a varanda pensativo.
Cuidado? Uma palavra a qual percebi que teria de me acostumar daqui em diante.
Veronica grudou em meu braço, e caminhamos pra fora da varanda sob a grama, me conduzindo para o ponto de ônibus, o qual relutei, forçando-a a me seguir calçada a frente.
- Pra onde está indo? O ponto de ônibus é para o outro lado! - ela tentara me relembrar como se eu fosse um idiota em não ver uma enorme placa de trânsito azul, com o desenho de um ônibus, indicando que lá era a parada.
Eu a encarei sarcástico e sério.
- Não vamos de ônibus hoje!
- Ok então. - assente ela.
Andamos umas três quadras em silêncio. Estava procurando as palavras certar para revelar a ela. E ainda me perguntava se revelava?
- O que tem de me contar? -perguntou ela rompendo o silêncio.
- Que você não estava errada ou paranoica. - disse fitando o rosto dela.
- Em relação? - ela questionou o motivo.
- Há mais por trás do nosso passado. Nossos pais não morreram em um acidente de carro. - eu respirei fundo me questionando se a revelava que nosso pai estava vivo - E depois da da reação de Ângela ao ver as folhas do jornalista em cima da minha cama, tenho certeza de que ele dará as respostas a qual precisamos.
Ufa.
Eu consegui falar tudo de uma vez. Tinha decidido que contar sobre nosso pai ainda não era o momento certo, então decidi esperar.
- Isso quer dizer... - pausou ela sorrindo em um sorriso vitorioso de que estava certa.
- Que eu irei com você pra New York!
Eu estava decidido a obter respostas. Tudo havia mudado. Eu estava diferente, e por algum motivo eu estava curtindo isso.
Estávamos a uns três quarteirões do colégio, quando Veronica me contara sobre as antigas reportagens de Victor.
- O mais interessante é que ele não só foca, mas demonstra sua obscessão pelas civilizações antigas. - ela revira o celular e me mostra uma reportagem sobre a civilização maia e sua de devoção a Faweix, o Deus do Fogo.
- "Pelos desenhos criptografados, nos revela a separação hierárquica dos aldeões. No topo da pirâmide encontramos os Kumikai, os líderes de cada aldeia, os Anciões, os Elementares e por fim, os Kanikais, as outras pessoas integrantes da aldeia." - li um trecho da reportagem o qual me deixara fascinado - Elementares? O que são eles? - perguntei,curioso.
- É por isso que estou indo atrás dele. - diz ela demonstrando tanta curiosidade como eu - Ele não revela em artigo nenhum entre os quinhentos e oitenta e três artigos publicados.
- Ele publicou quinhentos e oitenta e três artigos sobre isso? - perguntei surpreso por saber que ela tinha mesmo se informado sobre o assunto. Pelo menos, quando encontrarmos Victor, não ficarei constrangido por não ter assunto. Hahaha
- A maioria são contos de espíritos de cidades locais ou em algum lugar do mundo. Algumas são reportagens provando os fatos, o que em geral se desvai mesmo com a veracidade, e a minoria são sobre as antigas civilizações. - explica ela revirando os arquivos que havia baixado no celular.
- Você leu todos eles? - perguntei curioso.
- Ainda não. Mas a maioria! - disse ela calmamente - E pretendo terminar todos até o vôo de amanha.
Ela estava mesmo determinada. Determinação esta, que também tomou conta de meu corpo e me fez ir atrás do meu passado para que pudesse ter um futuro.
Caminhamos pelo gramado do colégio, tentando não esbarrar nos outros alunos, o quais se mantinham imóveis com seus grupinhos fechados, e mal tínhamos nos aproximado o bastante da porta, Nicholas Quiller saiu empurrando as enormes portas duplas da entrada do colégio, caminhando rapidamente em nossa direção. Eu sempre achei incrível a forma que ele sempre sabia quando estávamos próximos.
- E ae Jughead. - cumprimentou ele socando vagarosamente o meu punho fechado. Um cumprimento que tínhamos desde quando se tornamos melhores amigos.
Em um shorts jeans desbotado Calvin Klein, uma camisa polo vermelha um tamanho menor Lacoste, um tênis azul marinho com detalhes em vermelho Vans e um óculos de sol marfim escuro Gucci, Nick estava mais do que elegante. Ele sempre se vestia assim, se tornando o ponto de referência fashion dos garotos metrossexuais do colegio, além de ter uma enorme queda por Veronica. Capitão do time de futebol, bronzeado, musculoso, cabelos lisos castanhos claros e olhos verde-esmeralda, era o sonho de qualquer garota, menos o de Veronica Ele era "certinho" demais para ela.
- Oi Veronica. - disse ele acanhado levando os óculos de sol aos cabelos, e se aproximando das bochechas rosadas dela.
O beijo foi suave e rápido. Mas ela não o devolveu, apenas sorriu arrogantemente.
- Bem, já que encontrou o seu cão-de-guarde, vou encontrar Steff. - avisou Veronica desdenhando Nick como sempre fazia.
Conhecia Veronica muito bem para saber que apesar de Nick não fazer seu tipo, ela adorava dar esperanças a ele ainda que o desdenhasse.
Veronica saiu caminhando em direção as portas duplas que Nick saíra, o que instantaneamente o fez correr na frente dela para abri-las. Veronica passou por ele olhando-o como se ele tivesse a obrigação de fazer isso. Ao adentrar ao longo e antigo corredor de Woolden's Ville High, passou desfilando pelos outros estudantes, os quais alguns se fixaram os olhos a desejando, e outros nem se atreveriam a olhar, por saber que não tinha nenhuma chance. As portas se fecharam e Nick caminhou até mim.
Como Veronica não tinha amigos, assim que comecei a namorar Steff, ela começou a testa-la para que ela tentasse ganha-la como amiga. Deu certo. Atualmente elas eram melhores amigas.
Veronica e Steff sempre foram muito iguais, por sua independência, seu incrível poder de manipulação e o que as unia ainda mais, não conseguiam viver sem mim.
Stephanie Rigonatti era a filha única do renomado Juíz de Woolden's Ville, Albert Rigonatti, com a melhor médica do grande Hospital local, Dra. Mary-Kate Jones Rigonatti. Construíram sua fortuna em base do trabalho, e pelas más-línguas, subornando outras famílias para que não as condenassem por sonegação de impostos, depósitos fantasmas, e outras fraudes possíveis de se manter invisíveis aos olhos da justiça.
- Estudou para o teste de história? - perguntou Rodrick esperançoso de que eu tivesse estudado para que pudesse passar cola.
- Estudei. - respondi repassando a matéria em minha mente.
Meu histórico escolar sempre fora impecável, cheio de atividades extracurriculares, notas máximas nos testes de aptidão avançada, notas máximas nas outras disciplinas que preenchiam o currículo escolar e medalhas de ouro e prata em capeonatos de xadrez, cálculo e  física.
- Será que tenho alguma chance de conquistar o coração da sua irmã? - perguntou Nick novamente, ainda esperando que a resposta fosse diferente.
- Talvez em outra vida. - respondi rindo. Eu gostava de tripudiar um poucado em cima dos sentimentos dele.
- O tempo esta mudando. - disse ele farejando o vento que acabara de chegar, nos refrescando do grande mormaço que o sol provocara. De todas as pessoas que conheci, Nick era diferente. Não como eu e Veronica ainda mais diferente. Mas nunca questionei-o. Há certos segredos que as pessoas preferem manter escondidos, e eu respeitava isso.
- A previsão de ontem disse que o mormaço iria permanecer até domingo. E olha que estamos na primavera. - desafiei-o sabendo que ele nunca errou a previsão dele.
- Talvez seja porque hoje é o último,dia da primavera. - corrigiu ele tentando disfarçar.
- Mais duas semanas de aula, entao Verão! - disse animado. Eu realmente não via a hora de entrar de férias.
Nós entramos no corredor indo em direção a nossos armários para pegar nossos materiais. E por onde passávamos, não havia uma só pessoa que não passava por Nick o cumprimentando-o.
- Se candidatou a um cargo do congresso e não me contou? - perguntei percebendo a euforia.
- Não. - riu ele - É que eu consegui ficar com a Margot DiMautelle. - gabou-se ele.
Como Steff, Margot era uma das garotas mais exclusivas do colégio. Misteriosa, rica e bela, seu sotaque francês também não passa despercebido. Como exclusivas, ela e Steff não se davam muito bem.
- Não deve ter sido tão difícil. A tempos que ela estava a fim de você! - contei deixando escapar o leve pensamento que capturei da mente de Margot a alguns meses no refeitório.
Eu e Nick estávamos servindo almondegas e macarrão sueco, quando ela e suas duas amigas, Francis e Thalia, passaram por nós com seus pratos muito bem decorados de salada e pouquíssimos carboidratos; sem perceber, Margot se esbarrou em meu braço fazendo com que meu copinho de creme caísse. Fui me virar pra arranjar encrenca, imaginando ser algum calouro apressado, e foi ai que,meus olhos se ligaram aos dela e uma suave voz saiu de sua boca.
- Perdón. - um pedido singelo de desculpas em francês, acabou expondo sua frágil alma, e liberando um pensamento oculto, que nem Francis e Thalia sabiam. - "Se o amigo dele pelo menos soubesse que eu existo."
- Como assim? - perguntou ele curioso.
- Steff me contou que,ouviu Francis e Thalia fofocando sobre isso no banheiro. - menti rindo, para ocultar a mentira. Nunca fui um bom mentiroso.
- E por que não me contou isso cara? - Nick havia se exaltado um pouco.
- Foi mal, cara. Não sabia que ela era tão importante. Que eu saiba, a prioridade sempre foi da Veronica! - devolvi em defesa fingindo irritação.
- Veronica é prioridade. Mas se eu soubesse que Margot era afim de mim, já tinha ficado com ela a tempos ne, mané! - Nick deu um leve tapa na minha nuca para focar o meu erro. Sim eu merecia, mas não pelos motivos que ele achava certo, e sim, por eu não ter me contido em escutar os pensamentos alheios.
Havíamos chegado em nossos armários, e ao pôr minha mão no cadeado, ele se abriu sem que eu girasse a senha. Estavam ficando cada dia mais fortes.
- Será que Veronica já esta sabendo? – perguntou ele risonho.
- Não fez isso por que esta afim de Margot, fez isso pra fazer ciúmes em Veronica. Cretino! – soquei seu braço fortemente fazendo-o gemer de dor.
Não precisei dos meus poderes para descobrir isso. Estava óbvio.
- Não usei a garota. – se defendeu ele – Impossível não ficar afim dela, né?
Apanhei meu livro de Cálculo e de Química, minhas duas aulas seguidas com a Sra. Gilbert, uma velha de uns cinquenta anos que não parava de falar de suas gatas, e a Srta. Hooling, uma jovem recém-formada que obteve uma alta pontuação no concurso do estado eliminando as outras concorrentes. Nick frequentava a maioria das aulas comigo, menos essas duas.
- Vai começar a chover após o almoço! - disse ele batendo a porta de seu armário com apenas uma caneta na mão.
- Como faz isso? - perguntei curioso esperando que ele respondesse algo idiota em tom de brincadeira.
Ele apanhou a mochila do chão, colocando apenas uma alça em seu ombro esquerdo e se dirigiu para a escada norte, que dava ao corredor do primeiro andar.
- Da mesma forma que vem abrindo seu armário nas ultimas semanas! - ele piscou sério se virando e subindo os degraus.
Ele havia percebido o que tentei esconder.
Mas se ele percebeu, será que mais alguém também percebeu?
Enquanto eu estava pensativo diante meu armário, a sineta tocou avisando o começo do primeiro tempo. Apanhei minha mochila também no chão e me esquivei em meios aos outros alunos que andavam apressados e atrasados, assim como eu, pelo estreito corredor leste.
Cheguei até a sala da Sra. Gilbert, e a encontrei afofando um novo filhote que segurava em seus braços.
- Bom Dia Sra. Gilbert! - cumprimentei educadamente.
- Bom Dia meu jovem. - respondeu ela assentindo com a cabeça.
Rapidamente procurei meu lugar e me sentei abrindo o livro de Cálculo no último capítulo.
"Matrizes" li desanimado.
Estava tentando aprender as simples desde o começo do ano letivo, imagine agora que ja estávamos nas avançadas? Eu não era muito bom em Cálculo, e nunca atingia a média, mas eu acabava sendo aprovado pelos trabalhos extras que a Sra. Gilbert me dava nos finais de bimestre.

...

A hora passou depressa, e logo o sinal tocou novamente indicando o fim da aula. Eu, como sempre, fui o último a sair da sala.
- Sr. Luthier? - chamou a Sra. Gilbert impedindo a minha saída - Poderia vir aqui por um momento?
Eu estava na divisa entre a sala e o corredor, e girei, retornando a mesa da Sra. Gilbert.
- Fiz algo que lhe atrapalhou Sra. Gilbert? - perguntei na defensiva.
Uma pergunta retórica e automática quando qualquer pessoa é chamada por seu superior.
- Desculpe ser franca Sr. Luthier, mas por que escolheu Cálculo Avançado se não vai bem? - era uma pergunta inteligente.
Geralmente as pessoas fogem daquilo que não gostam ou não conseguem fazer. E ela realmente estava intrigada.
- Desculpe se eu for petulante, Sra. Mas creio que devemos desvendar o que nos é escondido. - minha filosofia só a deixou mais confusa - Se eu fugir de tudo que não gosto e não consigo fazer, como poderei cantar vitoria assim que conseguir. Gosto de desafios, pois pra que fazer o fácil, se ja sabemos fazê-lo. - parei pra tomar folego pois meu cérebro estava funcionando a todo vapor, ainda concentrado nas matrizes que não havia conseguido resolver - Irei me esforçar mais e mais, e se ainda for pouco, não procurarei o caminho mais fácil e aceitarei derrota.
Ficamos em silencio por algum tempo. Eu sabia que era final de bimestre, e que os professores poderiam reprovar qualquer aluno, mesmo que tivesse atingido a média, se não gostasse dele.
Eu não temia o resultado, a resposta ou a consequência, sabia que havia conseguido fazer com que ela entendesse o meu ponto de vista, e pra mim, isso ja bastava.
- Então espero muito que possa se esforçar assim que retornarmos de férias. - ela não estava contente, mas ainda sim, abriu um sorriso satisfatório.
Eu havia sido aprovado.
Estava feliz, contente...
- Fico eternamente grato Sra. Gilbert. Boas férias! - me despedi se retirando da sala.
Eu estava extremamente feliz por ter conseguido aprovação em Cálculo, e sim, seria eternamente grato a Sra. Gilbert, e tentaria recompensa-la ao máximo. Mesmo sem saber como.
Caminhando pelo corredor, coloquei o livro pequeno, mas grosso de Cálculo na bolsa e retirei o livro de Química, não tão grosso e nem tão grande. Eu adorava Química, e era a única disciplina que conseguia manter minha total concentração por não ter Rodrick me atrapalhando.
Cheguei na sala da Srta. Hooling, no fim do corredor do primeiro andar, aproximadamente umas nove salas a frente da Sra. Gilbert.
- Está atrasado Sr. Luthier. - Srta. Hooling me chamou a atenção.
- Desculpe Srta. Hooling, eu estava tirando minhas dúvidas sobre o trabalho de... - ela me interrompeu.
- Chega de desculpas Sr. Luthier. Guarde-as para o próximo semestre.
Ela me encarou com os olhos neutros. Não havia sentimento algum ali. E nem alma.
Rapidamente procurei meu lugar e me sentei. Eu disse que adorava Química, e não a professora.
- Não é por que estamos nas ultimas semanas de aula que vou deixar vocês sem nada para fazer! - ela começou ligando o multimídia.
- Última semana de aula. - corrigi.
- O que disse? - questionou ela intimidadora. Ela havia entendido, só me questionou de volta para ver se eu tinha coragem de repetir.
- A Srta. disse "últimas semanas" de aula. Mas estamos na "ultima". - corrigi em detalhes agora.
- Você sabe o que acabou de fazer, Sr. Luthier? - questionou ela indo até a mesa e abrindo os livros de nota.
- Acabei de corrigir a Srta. E que eu saiba, não pode fazer nada a respeito, pois eu tenho cem por cento,de presença em suas aulas, e como acabou de conferir em,seu livro, fui aprovado com a nota máxima, com diferença de vinte pontos a mais do que o melhor aluno da sala. - disse enfrentando-a. Logo que ela abriu o livro, eu havia conseguido enchegar quase todas as notas, se não todas as notas - E sinceramente, não sei por que estou aqui? Ja fui aprovado! - me levantei retirando o livro de cima da carteira e a bolsa do chão.
Andei até a porta passando por ela e sai sem olhar pra trás.
Sim, eu estava diferente, e tinha que encontrar Veronica o mais rápido possível. Então enviei um torpedo.
"Pode me encontrar no refeitório o mais depressa possível?"
E enquanto eu caminhava até as escadas para ir ao refeitório a resposta chegou.
"Chego em meia hora. Desculpe, pode esperar?"
Enviei.
"Sim"
Cheguei ao térreo e me dirigi para a ala sul do colégio, onde se encontrava refeitório do colégio. Sentei no banco de uma mesa próxima a escada e as gigantescas portas de vidro que davam para o campo de futebol.
Enquanto Soph demorava, apanhei "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas e continuei lendo a partir da página que tinha parado.

Os Filhos do Olimpo vol IStories to obsess over. Discover now