Part.2

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                                                                               Jack

Eu ainda estava completamente paralisado, minhas mãos trêmulas apoiadas no batente da porta. Era como se, naquele momento, tudo ao meu redor se desconectasse, e eu fosse sugado para um looping, revivendo todas as atitudes estranhas de Marcellus nos últimos meses. Como não percebi que ele estava distante todo esse tempo?Os gritos de agonia de Celeste se tornaram um ruído de fundo, um eco distante em meio à tempestade interna que me consumia, até que senti alguém me sacudindo pelas costas. Era Marcellus. Seu rosto estava um misto de pânico e desespero, uma súplica silenciosa por ajuda.Tentei emergir do transe, olhando ao redor, mas Carlise e Eikko estavam tão atônitos quanto eu. Não sei quanto tempo se passou, mas logo senti as mãos de Marcellus abandonando meus ombros. Quando finalmente despertei desse devaneio, ergui os olhos e vi o que se desenrolava à minha frente.Marcellus estava ajoelhado no carpete branco, com o corpo de Celeste parcialmente em seu colo. À frente deles, um homem observava a cena com uma expressão carregada de preocupação — talvez porque o carpete, que antes era imaculado, agora estava saturado de sangue.

Marcellus

— Força, Celeste! — Ben gritou, sua voz trêmula, carregada de urgência.— Está quase lá — eu disse, tentando infundir alguma esperança, mesmo sabendo que nada estava bem. Não, nada estava nem perto de estar bem. Ben me contou que Celeste entrou em trabalho de parto logo depois que eu saí, e eu estava fora por horas. Olhei para Ben, e pela primeira vez vi medo em seus olhos. Ele me lançou um olhar pesado, balançando a cabeça em um movimento negativo. Droga.Foi então que senti algo quente no meu braço... Celeste estava chorando.— Celeste... — chamei suavemente.— Eu não vou conseguir, Marcel — sua voz saía entre soluços, trêmula e frágil.— Promete que vai cuidar dela... — ela implorou.— Anjo, olha pra mim. — Segurei seu rosto entre minhas mãos, forçando-a a me encarar. Com apenas um olhar dela, eu já me sentia em casa.— Sabe por que, apesar de tudo estar contra nós, eu nunca desisti do nosso amor?Ela balançou a cabeça, a confusão dançando em seus olhos marejados.— Porque você... — parei por um segundo, tentando encontrar as palavras certas — ...você é a minha pessoa, Celeste. Você foi a luz que me guiou quando eu estava perdido. E mesmo com sua teimosia, fez com que eu enxergasse o melhor de mim.Lembrei-me de todas as vezes que ela esteve ao meu lado, mesmo quando eu duvidava de mim mesmo.— Quando eu desistia das minhas pesquisas, frustrado por não conseguir respostas suficientes, você estava lá. Acreditando em mim, quando nem eu conseguia mais acreditar. — Continuei, minha voz cheia de emoção. — Meus dias eram tão cinzentos, e até hoje eu agradeço por ter caído daquela árvore idiota no dia em que te conheci...Passei o polegar suavemente sobre sua bochecha, enxugando a lágrima que escorria.— Você me faz querer ser alguém melhor, Celeste. E esse é apenas um dos muitos motivos pelos quais eu te amo, a cada dia mais.Inclinei-me para perto de seu ouvido, sussurrando:— Eu amo você, por todas as vidas antigas e por todas as vidas que virão.E então, com um grito final de dor, o choro de um bebê preencheu o ambiente.— É uma menina! — Ben exclamou, exultante, enquanto segurava em seus braços o que agora era o meu mundo.— Deixe-me vê-la, Benjamin — pediu Celeste, sua voz agora fraca, exausta.Ao olhar para aquela cena, desejei congelar o tempo. Tudo o que importava estava ali, nos braços de Celeste — nosso mundo.Nosso bebê agora repousava no colo dela, e eu observava tudo por cima dos cabelos negros e úmidos de suor de Celeste.— Eu te disse que seria uma menina — ela murmurou, me tirando de meus devaneios.— Sim, você disse — respondi, o sorriso em meu rosto já enorme.Com carinho, empurrei os cabelos de Celeste para o lado e toquei a pequena mão de nossa filha.— Eu gosto de Elizabeth — disse Celeste, sorrindo levemente.Eu não sabia se sorria pela coincidência dela ter lido minha mente, ou pela primeira vez termos concordado tão facilmente.— Ela é a minha cara — Celeste comentou, com um brilho de orgulho nos olhos.Foi então que olhei com atenção para nossa filha.Seus cabelos loiros se destacavam contra suas bochechas rosadas, e sua pele era tão clara quanto papel. Ela era, de fato, minha cara, exceto pelos grandes olhos azuis, que ela claramente herdara da mãe.— Elizabeth Odera Schneider... — sussurrou Celeste, como se quisesse que apenas Liz ouvisse.Eu enxerguei algo nos olhos de nossa filha, algo poderoso e intangível. Mesmo em meio ao caos que nos rodeava, os olhos de Liz eram a centelha de esperança que me mantinha firme. Sabia que, apesar de tudo, ela representava um futuro diferente. Ela era nossa Esperança.A esperança de um mundo melhor. A esperança de um amor que transcende raças, passados sombrios ou hierarquias absurdas. De que, no fim, só o amor importa — da forma mais pura e verdadeira. E eu podia ver em seus pequenos olhos azuis que ela mudaria essa distinção ridícula entre os nossos mundos. Mesmo que eu não estivesse lá para ver.


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⏰ Last updated: Sep 15, 2024 ⏰

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Call Me Jack, Jack DevilWhere stories live. Discover now