"Fria é a noite, a abraçar aquele que não dorme
Frio é o toque na pele gélida, posta em mármore
Desfalece a flor, de beleza sem par
Nos braços inermes, sobre o rosto inerte verte
A lágrima doída, cálida, que do âmago traz incessante amargor
A dor do não-mais amor, profunda dor
Do triste pesar
Ando por terras, vago por eras
Da morte eu espero
Que me traga de volta a candura
E pago o que me custar"
Numa região inóspita e distante, uma figura incógnita passa apressada por uma trilha íngreme. Os passos ruidosos sobre as folhas secas no caminho compunham uma estranha sinfonia junto ao som da inclemente ventania que recurvava as árvores.
Ela avista uma antiga edificação, se aproxima e transpõe, sôfrega, uma grade velha e retorcida.
Ofegante, deixa sob uma enorme porta de madeira um cesto de vime, e sai sem nada dizer, a não ser por um bilhete preso à alça, onde se lia: "Que Deus se apiede de mim".
Ali ficava o Lar das Irmãs da Misericórdia, um convento incrustado em imensas pedras cinzentas, tendo em seu redor a segurança da fúria do mar; era uma paisagem de grandes penhascos rochosos e picos escarpados.
Irmã Marian, que era a líder das vinte mulheres que ali viviam, foi quem ouviu um ruído estranho no alpendre.
Todas as freiras já dormiam àquela hora, e, silenciosamente, ela tratou de ir lá fora ver o que teria causado o barulho.
Espantou-se ao perceber que dentro do cesto havia um bebê, que dormia indiferente a tudo.
Num rompante instintivo, tomou a pobre criança pelos braços e a levou a um aposento que ficava secretamente sob seu quarto.
Contrariando todas as expectativas, ela decidiu criar o menino em segredo, contando apenas com a cumplicidade da sempre fiel Irmã Fabienne, que não podia falar nem ouvir.
Ela tinha a exata medida do tamanho dessa sandice, mas estava irredutível: antes de ser nomeada freira havia perdido um filho, que morrera afogado.
A vida, enfim, havia lhe proporcionado uma redenção.
Todavia, com o passar do tempo, Irmã Marian foi aos poucos percebendo que o menino não era uma criança comum: tinha hábitos estranhos, como passar as noites em claro e não se alimentar adequadamente, além de sentir-se bastante desconfortável sempre olhava para seu crucifixo. E para seu desespero, certa vez o flagrou mordendo o pescoço de um pássaro desavisado que havia entrado em seu quarto.
Irmã Marian àquela altura já entendera que seu pecado era ainda maior do que supunha, o que ganhava contornos de sacrilégio: ela criava um vampiro como seu próprio filho, mas como já havia se afeiçoado ao pequeno, não viu outra possibilidade senão prosseguir em sua contenda, carregando uma culpa tão grande quanto seu amor pelo menino, que decidiu chamar de Peter.
Sempre que podia, já que era ela quem tinha o controle da cozinha, conseguia alguns bons animais para Peter saciar sua sede de sangue, e assim que ele adquiriu uma certa idade, consentia que ele saísse do convento para que pudesse dar vazão à sua natureza.
E assim ele cresceu, tendo a clara noção de que as freiras não deveriam ser jamais molestadas.
Muito tempo se passou, e, numa bela manhã de primavera, graças aos seus sentidos aguçados, o jovem Peter teve sua leitura interrompida por um vozerio e pelo barulho de cascos de cavalo se aproximando.
Levantou-se, subiu rapidamente as escadas e acessou o patamar superior até o quarto de Irmã Marian, de onde pôde ver, através da minúscula janela, uma carruagem parada em frente à entrada do convento.
Irmã Marian lá estava, para recepcionar quem quer que fosse.
Desceu, de início, um senhor de avançada idade; de cabelos brancos e enormes suíças. Em seguida, uma mulher muito elegante, que auxiliou uma jovem a descer também. A moça era de uma extraordinária beleza, o que deixou Peter completamente embasbacado.
Soube depois que seu nome era Jezebel, uma camponesa de vinte anos que havia ficado órfã.
Ele voltou à sua leitura e assim a vida seguira seu curso.
Numa noite porém, Jezebel foi até o quarto de irmã Marian para lhe pedir alguns conselhos, quando, num descuido, esta deixara a porta aberta.
- Olá, irmã! A senhora está aí? disse a jovem.
Como não ouviu resposta, a moça achou por bem entrar no quarto, de onde se podia ouvir uma conversa abafada. Era irmã Marian, mas havia uma outra voz - grave, mas melodiosa.
Um súbito barulho de taramela cortou a conversa, e num movimento furtivo, Jezebel se escondeu sob a cama. Irmã Marian passou por ela, alheia, e saiu em direção ao refeitório, por rara sorte. Guiada pela curiosidade, a jovem tateou o chão até encontrar a porta de acesso ao subterrâneo, puxando-a, resoluta. Desceu os degraus, pé ante pé, e antes de chegar ao aposento de Peter, o ouviu dizer, aproximando o castiçal à entrada de seu quarto:
- Mamãe?! A senhora esqueceu de me dizer alguma coisa? está tudo bem? - indagou Peter.
A luz das velas aos poucos revelou o rosto angelical através da penumbra.
Ambos se mantiveram estáticos por um instante, tomados por uma profusão de sentimentos; nascera ali uma repentina e improvável paixão.
Depois desse encontro totalmente inesperado, tanto Peter quanto Jezebel, cada um à sua maneira, encontraram formas de se verem; cada mínima oportunidade não era desperdiçada.
Muitos meses se passaram, e numa tarde fria, Irmã Marian precisou ir ao vilarejo buscar provisões e de lá trouxe uma notícia que se espalhara como praga: Havia uma ordem da Santa Igreja dada aos quatro cantos do velho mundo que seriam pagas régias recompensas a quem pudesse caçar os vampiros e eliminar do mundo essa maldição em definitivo.
Aflita, Irmã Marian rogou a Peter que não mais saísse do convento pelo menos até que a situação se amainasse.
Porém, desafortunadamente, numa noite, o pior ainda estava por vir: justamente por ser um local distante da civilização, um bando de vampiros vindos do norte elegeu aquele lugar como esconderijo.
Seu isolamento, que por muito tempo fora sinônimo de refúgio, agora era sua ruína.
Uma a uma, as janelas eram postas abaixo, e as irmãs, estarrecidas com o ataque, buscavam abrigo em qualquer canto que encontravam.
Fabienne tentou sem sucesso se defender com uma tocha, e que, ao ser atacada, derrubou-a acidentalmente em cima da mobília, dando início a um incêndio.
Os gritos chamaram a atenção de Peter, que subiu em disparada para ver o que estava acontecendo.
Mais jovem e muito mais forte que seus oponentes invasores, Peter não se furtou em acudir as pobres freiras das mãos dos vampiros.
Havia ao menos cinco deles, e em meio aos gritos pavor e à destruição, apressada e repentinamente, ele agarrou um pelo braço, dando violentos golpes em sua cabeça, enquanto outros dois barbarizavam e sugavam o sangue das pobres irmãs que não tinham como se proteger.
Mamãe!... Jezebel!.. onde estão vocês?
Gritava Peter, enquanto inalava a fumaça que invadia as dependências do lugar consumido pelas chamas e tentava se desvencilhar do segundo vampiro, estrangulando-o o mais forte que pôde.
Com uma faca em punho, correu atrás de um outro, que se virou e mordeu-lhe violentamente o braço, sendo em seguida apunhalado mortalmente por Peter.
Aos poucos os gritos de horror das mulheres iam diminuindo, ao passo em que o temor de Peter se materializara: no canto escuro de um cômodo, dois vampiros se esbaldavam com os corpos inertes das freiras, e entre elas, Marian e Jezebel.
Enfurecido com a bestialidade da cena e tomado por um ódio que jamais sentira, Peter saltou sobre um deles e o degolou, e quando o último tentava escapar, ele o alcançou e o deteve, estocando várias vezes a faca em sua jugular.
Já agonizando, ele ainda pôde dizer a Peter, com um estranho sotaque:
- Você não se envergonha por matar os da sua raça?
- Eu não sou um de vocês, seu miserável - disse Peter, rasgando-lhe o ventre com absurda fúria.
Após defenestrar os vampiros, Peter decapitou suas cabeças e atirou-as no fogo, e em seguida enfiou-lhes estacas em seus peitos. A sanguinolenta batalha chegara ao fim, e a ele restou apenas chorar a perda de sua mãe e de sua bela Jezebel, cujos corpos jaziam no chão, misturados aos das outras infelizes mulheres.
- Descanse em paz, mamãe. Jamais perdoarei seu deus por ele permitir um destino tão ingrato a quem passou uma vida servindo-o. Eu sei que você jamais concordaria comigo, mas não me importo. Não me importo com mais nada. Nunca me esquecerei de você! - disse ele, beijando demoradamente sua testa.
- Jezebel...minha doce Jezebel! eu nunca seria capaz de dizer em palavras o quão feliz você me fez.
Diga para mim: era esse o fim que planejamos? não iríamos fugir para viver o que tivéssemos direito, longe de tudo? deu um último beijo na boca desfalecida de Jezebel e, não havendo tempo para mais nada, deixou o lugar, já prestes a vir abaixo; o fogo dominava quase totalmente o convento.
Exausto e ferido, Peter saiu sem rumo, completamente tomado pela dor de uma profunda tristeza.
Caminhou por muito tempo e por longas distâncias, sem saber ao certo para onde ir, ele estava totalmente perdido, procurando qualquer lugar onde pudesse ficar por um tempo a salvo.
Certa noite, andando por uma trilha estreita e repleta de grandes árvores e arbustos secos, a uma determinada altura Peter sentiu, tocando com as mãos, o que lhe pareceu ser um muro, que estava praticamente encoberto por um emaranhado de ramos ressequidos. Olhou para cima e pôde ver com mais clareza em virtude do intenso brilho da lua que invadia a escuridão uma enorme parede. Ele escalou as grandes pedras e adentrou uma velha propriedade.
Lá dentro havia o que parecia ter sido um imponente casarão, ladeado por imensos ciprestes. As telhas estavam a ponto de ruir junto com o madeirame; o mato tomava conta de todo o seu entorno.
Sem titubear, Peter apertou o passo e resolveu entrar; abriu com facilidade uma porta que por pouco não se desfizera em sua mão.
Pelo visto, havia muitos anos - décadas, talvez - que não entrava viv'alma naquele lugar. A vegetação invadira o chão, escondendo toda a beleza e o luxo que há muito perdera seu fulgor. Nas paredes, quase todas em petição de miséria, podiam ser vistos sob o limo impregnado no pouco de reboco que ainda resistia, resquícios de antigos afrescos, que muito provavelmente remetiam a poderosos reis do passado ou a importantes nobres de tempos idos.
Peter vasculhou o lugar, subiu em um balcão de mármore e ali ficou, amargando seu luto, prostrado, qual gárgula de um castelo esquecido.
As horas se esvaíam, mas a sensação era de que o tempo parecia não querer interferir.
Amanheceu. Pequenas réstias de luz irrompiam por onde havia frestas na velha construção, e ele permaneceu exatamente onde se postara na noite anterior.
E assim se manteve, até o sol dar adeus a mais um dia triste e monótono e a noite se aproximar, deitando seu manto negro no horizonte.
De repente, Peter sentiu um mal-estar, o que finalmente o faz se mover, contra a sua vontade. Gotas de suor brotaram de sua face; seu corpo começou a tremer descontroladamente.
Ainda que aparentemente não houvesse nada nem ninguém além dele naquele ambiente esquecido, Peter sabia que não estava sozinho. E disse, com muito esforço, mas num tom imperioso:
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Peter, O Vampiro
VampireCriado por uma humana num ambiente improvável, Peter atravessa os séculos em meio a sentimentos igualmente humanos, como a paixão e a saudade. Contém referências a nomes do pop gótico oitentista.
