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Antes de tudo

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Planeta Terra, 2093 D.C.

Antiga Cidade de Nova Iorque, atualmente conhecida como Megalópole das Luzes (união entre Nova Iorque e Nova Jersey)

As sirenes soavam cada vez mais próximas, esconder-se nas sombras sozinha seria fácil caso não estivesse com uma criança de colo e com o filho de 5 anos correndo o máximo que suas pernas curtas permitiam. Patricia tentava continuar oculta pelas falhas na iluminação pública e pela fumaça que era densa como se fosse uma cortina pairando sobre as ruas, sua próxima é aguardada parada seria a entrada para o esgoto principal da cidade, que àquela hora possuía alguns barcos de fugitivos. Os que tentavam se exilar do sistema.

Ela tinha pouco mais de 25 anos, quando se descobriu portadora do vírus que causava demência e agressividade nas pessoas que o contraíram, o que as pessoas 'não-contaminadas' não sabiam, é que o período agressivo duravam poucos dias e depois dele ficavam apenas sequelas por causa da forma avançada de Alzheimer, o marido dela fora capturado por ser um dos portadores não entregues ao governo, como o contato de pele era a única forma de contaminação, as pessoas foram separadas em pequenos quadrados. Antigamente, antes dessa epidemia, era possível viver com o marido e os filhos (que eram concebidos de maneira natural ainda) num pequeno cubículo, depois do pandemônio causado por causa dela, você é obrigado a viver na solidão de um cubo só seu... ou como as pessoas costumavam dizer 'no seu quadrado'.

Juan e Patricia desobedeceram a lei e mesmo depois da contaminação dela, tiveram dois filhos Uriel e Natan, sem a autorização do governo e sem quaisquer suportes viveram na sombra durante os meses seguintes ao nascimento do caçula, esconder uma criança era mais fácil que duas e com dificuldades conseguiram sobreviver até a data de hoje pelas sombras. Uriel tinha pouco mais de seis meses agora, Natan tinha já uma idade pouco mais avançada. Naquela noite mesmo, horas atrás Juan morrera lutando contra os soldados especiais do governo, os PlastCops, únicos autorizados a tocar outro ser humano sem sofrerem consequências e que levavam seu dever de manter os humanos separados a qualquer custo.

O saneamento, alimentação, serviços de todos os tipos, tiveram a mão de obra humana substituída por máquinas, que faziam todo o trabalho de entregar e cuidar de tudo o que envolvesse contato. Um entregador de pizza nunca era um humano, um médico, um enfermeiro, um professor, um florista... Todos substituídos por máquinas. Não havia um único humano trabalhando com algo que não fosse voltado à programação ou manutenção de algumas dessas máquinas. Com a perda de empregos e o pobre suporte por parte do governo, apenas os mais ricos tinham direito ou conseguiam comida de qualidade. A maior parte da população morria sem nem mesmo provar um bom pedaço de carne durante a vida.

A expectativa de vida que antes da epidemia era de mais ou menos 150 anos, atualmente chega a ser 60, à duras favas foi descoberto que ao contrário do que muitos afirmavam durante toda a pesquisa, o ser humano de fato não nasceu para a solidão. Aqueles que não suicidavam, acabavam morrendo de inanição. A esperança de um futuro melhor, veio quando o governo informou que estava inicialmente escolhendo indivíduos para testar a cura desse vírus agressivo, no entanto, os objetos de estudo nunca retornavam para suas famílias, quando a separação começou a acontecer e as pessoas só mantinham um parco contato virtual a esperança de cura caiu pelo ralo.

Rebeliões foram abafadas antes mesmo de seu começo concreto, as poucas resistências eram de colônias humanas externas à grande megalópole que estavam sempre com recursos em baixa e sem qualquer expectativa de melhora por parte de qualquer dos lados, também acabavam por morrer de tristeza. Fora as famílias que foram mortas em confrontos, geralmente os remanescentes estavam doentes ou debilitados demais para continuar lutando. Era uma época em que a única verdadeira felicidade era morrer sem sentir muita dor.

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