Ela abriu os olhos com dificuldade. Sentia como se tivesse caminhado em uma tempestade de areia com eles abertos e conseguia distinguir apenas um feixe de luz azulada e cintilante refletido no teto. ''Quanto tempo eu dormi?'' indagou a si mesma.
Fechou os olhos novamente, sentou-se na cama que imediatamente soltou um rangido choroso; prendeu a respiração pensando que assim evitaria quebrá-la. Não teve jeito, a cama desfaleceu no chão. Para a minha surpresa, a queda não fora tão catastrófica quanto eu imaginava que seria.
Ainda de olhos fechados, ela aprumou os ouvidos. Silêncio tumular. E tão tumular quanto, era a atmosfera densa e fria, os pés que o digam. As pernas entesadas faziam com que seus pés ficassem para fora da cama e, dessa forma, tocassem delicadamente a cerâmica dura e gelada com a ponta dos calcanhares.
Tal constatação fez com que ela prontamente esfregasse os olhos com a ponta dos dedos para analisar melhor o ambiente. Tudo escuro, exceto pelo feixe azulado no teto. Era como se a Sininho tivesse voado por ali deixando o rastro de pó de pirlimpimpim. Os olhos percorreram todo seu trajeto e repousaram diretamente no que pareciam ondas do mar, descendo do teto até o chão. Ela podia sentir a brisa salgada do mar e tinha o sabor de peixe.
Estranhando aquilo, ela esfregou os olhos novamente, as ondas sumiram e no lugar viu uma cortina azul royal cheia de desenhos infantis de peixes, que dançava suavemente ao sabor da brisa fina que adentrava a janela. Esticou o braço e puxou o pano azul com força. A claridade reinou ali.
No mesmo instante, o olhar arregalou-se tanto que imaginei seus globos oculares saltando para fora. Logo reconheci onde ela estava. Eu conhecia aquele lugar. Ela estava no quarto dela. Parece idiota esse tipo de constatação, porque é um acontecimento mais do que comum alguém acordar em seu próprio quarto! Havia um cheiro de marshmallows e algodão doce no ar, combinando com as paredes azuis-bebê repletas de ursinhos dançantes. O tipo de lugar onde ela se sentia feliz quando criança... Mas as paredes algodão doce não foram macias e doces o suficiente para proteger-la contra os dissabores e espinhos do mundo.
Mas o que realmente a deixou estarrecida foi o fato dela ter despertado em seu quarto de criança.
Um pensamento ainda mais sombrio inundou a mente dela... "Quantos anos eu tenho?" Ela sabia que não era mais uma criança, pois tinha o corpo de uma adolescente, obviamente... Mas ela não sabia, ou melhor, não lembrava quantos anos realmente tinha.
Antes que pudesse pensar um pouco mais a respeito da dúvida que a consumia, uma avalanche de outros questionamentos tão aterradores quanto foram invadindo e, a medida em que isso acontecia, ela sentia uma onda de calor e torpor nascer do peito e subir até o topo da cabeça. "Quantos anos eu tenho?" ela se perguntava. "É possível eu ter viajado no tempo?", eu não duvidaria dessa possibilidade, se considerássemos onde estávamos."Por que acordei nesse quarto??". Congelou. E então o assombro completo instalou-se quando se deu conta da pergunta que faria a si mesma em seguida... "Quem sou eu?".
"Eu... não... me... lembro... do... meu nome. - tadinha. - "Caralho!" exclamou diante da constatação chocante.
O palavrão foi completamente espontâneo. Ela sempre teve costume de usar palavras fortes em momentos de angústia... Era seu jeitinho especial de dividir com o mundo o peso que tais sentimentos causavam dentro de si. Uma vez resolveu dividir sua angústia de forma diferente. Ao invés de palavras ela usou socos e dividiu tanto sua agonia com um garotinho, que o nariz dele respondeu-lhe com uma cachoeira de sangue. Mas a verdade é que ela tinha um apreço muito grande a tudo o que sentia e apenas transbordava todas as sensações, quando já não lhes cabiam mais.
"Calma, calma, calma... Preciso controlar minha respiração, colocando a mão sobre meu diafragma, como a... a... " como a... Vamos, você consegue!
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Memórias do Abismo
FantasíaEla não sabia há quanto tempo estava dormindo, não sabia quantos anos tinha, onde estavam todos e, principalmente, quem era ela. Depois de acordar e não se lembrar de absolutamente nada e de ninguém, ela descobre que está vagando solitária num mundo...
