O Primeiro

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Não!

Sento na cama sentindo o coração disparado e as mãos trêmulas.
Fico ali por alguns instantes, inspirando fundo e expirando lentamente até conseguir me levantar em direção ao banheiro.
Tomo banho depressa, sentindo o coração apertado, me segurando para não chorar. Meu rosto já estava suficientemente inchado e desde que cheguei, os vizinhos já tiveram muito o que cochichar.
Visto um antigo suéter da mamãe, que me cabia perfeitamente, junto com uma calça jeans e o par de tênis All Star e traço caminho para a cozinha, no andar de baixo da casa.

— Bom dia, querida.

Helena, minha tia por parte de mãe e agora minha guardiã legal, se aproxima para afagar meu cabelo.

— Bom dia, tia. – respondo baixo.

— Pesadelos outra vez?

Faço que sim com a cabeça, enquanto me esforço para comer as torradas que a mesma pôs em minha frente.
Helena tinha os cabelos acobreados e alguns traços faciais iguais aos da minha mãe, o que tornava as coisas um pouco mais difíceis.
Desde que meus pais morreram em um incêndio e nossa casa veio abaixo — há exatamente um mês, a casa de Helena tem sido meu novo lar. Parte de mim gostaria de não ter saído para dormir na casa da minha amiga naquela noite. A outra parte imagina que meus pais não gostariam de me ver tendo esses pensamentos, e apesar de não saber se acredito ou não em espíritos, prefiro afastar esses pensamentos para não desagradá–los.
Helena tem sido perfeita, entretanto concordou com a terapeuta que eu deveria terminar meu ensino médio como uma adolescente comum, indo a escola e não recebendo aulas em casa como meus pais faziam. As duas disseram que seria melhor para mim seguir em frente assim, fazendo amigos e estando rodeada de pessoas que se importam e vão me ajudar. Mas eu só quero terminar o ano e ir para algum lugar longe de todos que eu conheço. Eu precisava disso, um tempo para pensar e recomeçar em um lugar completamente desconhecido. Essa cidade foi o lugar onde passei algumas férias de verão com meus pais, Helena e Jordan, meu primo. Eu conhecia cada rua, cada esquina e lembrar dos momentos que tive com meus pais partia meu coração cada vez mais.

— Bom dia, prima.

Desperto dos meus devaneios.

— Bom dia.

— Amanhã começam nossas aulas, pensei que seria legal se nós fossemos comprar seus materiais depois da sua consulta com a terapeuta, eu posso até te buscar. O que acha?

Jordan sempre se empolgava quando eu chegava para passar as férias de verão, já que era filho único e passava a maior parte do tempo sozinho. Imagino como ficou ao saber que eu moraria com ele pelos próximos meses. Bom, ao menos até eu encontrar a faculdade e o lugar certo para ir.

— Tudo bem. Vai ser bom para eu me distrair um pouco.

— É assim que se fala! – Helena dispara.

Jordan ri baixinho ao ver que me estremeço de susto com o entusiasmo repentino de minha tia.

— Você vai matar a menina de susto um dia desses.

— Desculpe, querida. É que eu odeio ver você assim, eu sei que tudo tem seu tempo, mas eu te quero bem.

Sorrio fraco.

— Eu sei. – respondo.

***

15:00 P.M.

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