O fogo já consumia grande parte da aldeia — mais uma guerra pela disputa do topo da hierarquia. Dessa vez, as bruxas se aliaram aos lycans e o estrago foi devastador. Eles atacaram durante a noite, e tudo desmoronou rapidamente. Não apenas matavam indiscriminadamente, como também executavam os membros do conselho, sabendo que ficaríamos desorientados sem as ordens deles.Eu corria com uma estaca de prata em mãos, a lâmina ainda pingando sangue. A neblina gélida da madrugada envolvia meu corpo, se chocando contra minha respiração ofegante. Procurava uma saída, desviando dos lobos em meio ao caos. — Por aqui, irmão! — gritou Marcellus, entrando em um beco estreito. Seus olhos azuis refletiam um medo que raramente eu via nele. — O que vamos fazer agora? — Ele perguntou, visivelmente abalado.— Precisamos sair, Marcel... mas para onde? — falei, mais para mim mesmo, enquanto andava em círculos, tentando pensar em uma solução.— Há uma saída... — ele começou.— Mas precisamos de um puro-sangue... — completamos juntos.Um puro-sangue, um humano. A raça mais gananciosa que já existiu. Precisávamos de um sacrifício para cruzar a colina sem a permissão das bruxas. Desde sempre, as bruxas se recusavam a se misturar conosco, os vampiros. Elas criaram regras absurdas para nos banir de nosso próprio território, exilando-nos para o fim do mundo.Parei por um instante, tentando me concentrar. **Ela** estava perto.— Na próxima esquina, terceira casa à esquerda — murmurei. Consegui ouvir um coração... não, dois. Ela estava grávida, mas algo parecia errado.O coração de Marcellus acelerou. Ele já sabia quem era.Os vampiros antigos tinham o costume de engravidar mortais por quem se apaixonavam. Era uma tentativa desesperada de forjar laços familiares entre vampiros e humanos, já que, em um tempo distante, os meio-sangues eram celebrados. Mas essa prática tinha consequências terríveis. A maioria das mães morria durante a gestação, pois o bebê sugava seu sangue nas últimas semanas. Algumas tentavam se alimentar de sangue humano para sobreviver, mas isso apenas acelerava o "despertar" da criança, levando-as a uma morte ainda mais rápida.Ao virar a esquina, no entanto, algo estava muito errado. A terceira casa à esquerda... não existia. Fiquei alguns minutos parado, olhando para o vazio onde a casa deveria estar, mas tudo o que havia era um grande buraco no chão.Marcellus foi até a frente do buraco, cortou levemente o pulso e, com o sangue que escorria, traçou uma linha enquanto murmurava palavras antigas:— *Et cum sanguis tuus amor verus dolor erit terminus vester*.De repente, o vazio se transformou. No lugar do buraco, apareceu uma casa, como as da vila antes do ataque. Antes que eu pudesse interrogar Marcellus, ele me puxou para dentro junto com Eikko, desfazendo a linha de sangue atrás de nós.— O que está acontecendo? — perguntei, confuso.Um grito de dor cortou o silêncio. Era uma mulher.Marcellus desceu para um cômodo ao lado, como se já soubesse o caminho. Fui atrás dele, meu coração acelerado. Quando entrei, tomei um susto ao me deparar com uma mulher grávida. E não era qualquer mulher. Era Celeste, filha de Genevieve Odera, a bruxa mais poderosa de todas as convenções. Um calafrio percorreu minha espinha. Eu sabia o que estava prestes a acontecer.— Ela vai nascer, Marcellus! — Celeste gritou em agonia.
MARCELLUS
Já era quase hora do pôr do sol quando eu e Eikko decidimos ir ao bar da vila.— Aposto cinco pratas que a Maria está sem calcinha — provoquei, apontando para a mulher que estava sentada em uma mesa, rodeada de homens. Ela parecia ter um imã, pois todos perdiam a cabeça ao seu redor.— Se perder, vai dormir nas colinas. E ainda me deve cinco pratas — Eikko retrucou, com um sorriso malicioso.— Ela não usa desde os 13. Não vai ser agora que... — e lá se foram minhas cinco pratas quando o vento levantou sua saia.— Mas que... — antes que eu pudesse completar, Eikko esticou a mão.— Nem mais, nem menos. Passe as cinco pratas.Suspirei profundamente enquanto deixávamos o Dran's. Gastei minhas últimas moedas em uma aposta idiota. A brisa da noite trouxe uma garoa fina, e eu ri ao imaginar os humanos pegando resfriados com algo tão insignificante. Apesar das críticas dos outros vampiros, eu sempre achei a raça humana fascinante. Eles são frágeis — demoram meses para curar uma perna quebrada, enquanto nós, vampiros, nos regeneramos em segundos. Mas, sob essa casca frágil, há algo muito mais poderoso: a ganância humana. Quanto mais têm, mais querem.Eu costumava visitar o mundo dos mortais para aprender mais sobre eles. Embora não evoluíssem muito, admirava a busca incansável de alguns pelo conhecimento. Meus pensamentos foram interrompidos quando cheguei ao limite do território. Um simples passo adiante e eu estaria morto. Olhei ao redor. Só árvores.— Onde eu estava com a cabeça quando aceitei isso? — murmurei, sem esperar resposta.Com um impulso, subi em uma árvore alta, seus galhos fortes me acolhendo. Agora, era só rezar para que nenhuma bruxa passasse por ali, pelo menos naquela noite.Olhei meu relógio de bolso. Já eram 23h48.Planejei ficar ali por alguns minutos e contar a Eikko que as bruxas estavam fazendo sacrifícios. Ele ficaria apavorado e eu ganharia um chope como consolo. A ideia me fez sorrir. Mas, de repente, ouvi passos rápidos.Me escondi no espesso galho.— Ela não pode fazer isso, Ben, não pode! — uma voz feminina sussurrou.— Celeste, ela é sua mãe. — Progenitora! — A voz feminina corrigiu, irritada. Os passos pararam, e eu aproveitei o silêncio para olhar. Lá embaixo estava ela, a dona da voz. Quando a vi, esqueci como respirar. Seus cabelos negros contrastavam com sua pele pálida. Sua voz soava como um soneto, cada palavra saindo de seus lábios parecia ganhar um novo sentido. Eu soube, naquele instante, que aquela era a mulher pela qual eu estava destinado a me apaixonar.Ao seu lado, havia um homem. Seu rosto era calmo, e eu podia ver a bondade em seu olhar.— Celeste, não se rebele contra Genevieve. Ela é sua mãe, acima de tudo.Ao ouvir o nome, um frio percorreu minha espinha, e eu perdi o equilíbrio, caindo da árvore.
-----------------------------
olá,tudo bom
então galera,esse livro não é necessariamente do Marcellus,eu só estou contando um pouco da historia dele na intenção de vocês não ficarem tão perdidos,mas se vocês quiserem eu irei fazer um capitulo dele contando mais detalhadamente da forma como ele e a Celeste se tornaram uma coisa só,bom é isso,obrigada por vir até aqui.
ESTÁS LEYENDO
Call Me Jack, Jack Devil
De Todo- você me acha uma péssima pessoa não é Liz? eu podia sentir seu olhar queimando minhas omoplatas - quando passamos por coisas horríveis, nós tornamos capazes de coisas terríveis.
