Prólogo

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Setembro 2017

Eu me sentia estranho. Não ia mais à escola todos os dias, minha cama era meu porto seguro.

Minha mãe já havia parado de insistir que eu fosse para a escola, ela sabia como eu sofria naquele lugar. Nunca fui respeitado, sempre fui vítima de bullying. Talvez essa seja a razão do meu comportamento estranho.

Meu pai só sabia gritar, desde que arrumei um namorado, dois anos atrás, ele perdeu completamente o pouco respeito que tinha por mim. O namoro durou apenas dois meses, não foi algo muito relevante em minha vida.

Minha mãe e irmã sempre me respeitaram, nossa relação só se fortalece com os anos.

Abril 2018

Minha familia já havia desistido de me fazer ir para a escola, eu não era mais matriculado, o que me tranquilizava.

Com minha irmã na faculdade de psicologia, minha mãe dona de uma empresa multinacional e meu pai empregado na empresa, só me restava passar os dias ocupando minha cabeça em casa.
Sempre gostei de escrever e desenhar, usei meu tempo livre para me aprimorar cada vez mais. Até que comecei a ter crises.

Uma voz na minha cabeça me dizia que eu era péssimo em qualquer coisa que fazia, assim como comecei a ter certeza que estava sendo perseguido.

Na época minha irmã percebeu meu comportamento estranho, conversou com minha mãe e fui encaminhado à um psiquiatra.
Fui diagnosticado com esquizofrenia paranoide aos 19 anos.

Dezembro 2018

A esse ponto a doença já havia tomado conta de mim. Passei por três medicamentos diferentes, e meu psiquiatra ainda estava tentando encontrar um remédio que me fizesse bem. Eu conversava com as vozes, via elas, e cada vez mais eu tinha certeza de que alguém estava me perseguindo.

—Harry, querido, podemos conversar? — Minha mãe disse, entrando em meu quarto e fechando a porta atrás de si.

—Claro.

Coloquei minha prancheta com lápis de lado. Eu gostava de desenhar minhas alucinações, mesmo sendo um pouco pertubador, era algo que me fazia bem, tirava um pouco o peso de meus ombros.

—Gemma e eu estamos preocupadas com você.

Minha mãe nem citava mais meu pai em nossas conversas, já que o mesmo não falava mais comigo. Ele me achava um lunático maluco, além de dizer que era tudo culpa de minha sexualidade.

—Eu entendo.

—Você têm ficado muito sozinho, nós duas não podemos te dar a atenção que gostaríamos, você sabe.

—Tudo bem, mamãe, eu entendo que vocês têm seus compromissos.

—Nós duas conversamos, e eu preferi conversar com você primeiro antes de tomar qualquer decisão. — ela olhava atenciosamente para mim enquanto falava. Seu olhar sempre me acalmou.

—Gemma começou o estágio em uma clínica psiquiátrica aqui na cidade algum tempo atrás, como você já sabe, e ela disse que a clínica é muito boa.

—E vocês querem que eu vá para lá?

—Por pouco tempo, querido. Não vou te obrigar à ir, mas acho que seria muito bom. Não quero que pense que nós estamos te abandonando, mas lá têm psiquiatras e psicológos 24 horas ao seu dispor. Nós achamos que pode ser bom para você, ao invés de ficar aqui sozinho convivendo com essa doença—Ela se aproximou de mim, passou a mão pelo meu rosto e beijou minha testa, logo levantando meu queixo, me fazendo olhar para ela—O que você acha?

—Por mim tudo bem. Se vocês acham que vai ser bom para mim... eu vou.

—Você não está sozinho, querido. As visitas são permitidas apenas de duas em duas semanas, e você pode ter certeza de que vou estar lá sempre que possível.

—Obrigado, mãe, te amo.

—Te amo, querido.

Beijou novamente minha testa e saiu pela porta.

Há 6 meses estou internado. Minhas crises ainda não estão controladas, isso é algo que leva tempo.

Nós podemos sair do quarto das 8 às 22, mas ainda não me permiti fazer isso. Ocupo um quarto com uma única cama, uma escrivaninha, um banheiro e um guarda roupas. O lugar é aconchegante.

Passo todo o meu tempo aqui desenhando ou escrevendo. Tudo o que faço é monitorado, e minha psicóloga e psiquiatra sempre veem meus desenhos, elas dizem que ajuda a saber como estou indo.

A Dra. Jéssica, minha psiquiatra, disse que as pessoas aqui são bem legais, e que eu deveria sair para conhecer alguém. Não entendo pra quê, já tenho meus companheiros. Eles estão em minha cabeça.

Psiquê Where stories live. Discover now