Ela já tinha terminado, as mãos sujas de tinta, o coração acelerado, a tempestade imensa que engolia aos poucos aquele pequeno vilarejo, foi então que a porta bateu, quem poderia ser naquela tempestade? se perguntou. Ao abrir se deparou com um menino sujo de tinta em sua porta, o coração disparou, era ele? o mesmo menino que acabara de pintar?
Os dois ficaram ali, estáticos, um olhando para o outro como se a muito tempo não se vissem, foi então que ela tomou coragem e perguntou:
⎯ Olá, está procurando alguém?
⎯ Me deixe entrar, sirva-me aquele suco de hortelã e me dê algumas roupas limpas. Nem uma palavra a mais, nem esperou pela reposta e entrou dentro da casa, antes que ela pensasse em fechar a porta, o vento o fez. ⎯ Sei que já fez muito por mim, mas estou com frio e me sinto mal.
Quem era aquela criança? nunca a tinha visto no vilarejo, será que estava perdida? pensou.
⎯ Você está perdido?
⎯ Não, estou muito bem achado.
Por um momento pensou que aquela criança não parecia saudável mentalmente.
Começou a tirar as tintas e pincéis que tinha espalhado pela casa, olhou para a tela e não encontrou o menino, ele havia desaparecido, olhou para o garotinho tímido a sua frente, novamente para a tela, de novo para o menino.
⎯ Não é possível!
⎯ Você pinta tão bem, onde aprendeu? ele perguntou.
Começou a se afastar, estava assustada, acabou tropeçando e caiu no chão, o garotinho se aproximava, ela o observava tentando buscar alguma coisa que dissesse que era apenas alucinação, que tinha tomado muito vinho. O garotinho estendeu a mão:
⎯ Por favor, prepare aquele suco de hortelã.
Sua casa era pequena, tinha uma pequena horta nos fundos da casa, onde se tinha várias mudinhas de hortelã, tirou algumas e depois foi para a cozinha fazer o suco que o garotinho pedia. Dali da cozinha o observava, que não fazia nada mais do que brincar com os dedos e balançar os pés. Ele era tão pequeno, não tinha roupas que lhe servissem, pegou uma camiseta azul e meias cinzas, era o que podia oferecer, disse a ele.
⎯ Está ótimo! que azul tão agradável. Ele respondeu.
Lhe deu o suco que tanto pedia, e também um sanduíche caprichado, com alface e tomate de sua horta, ele comia tudo extremamente devagar, como se tivesse analisando todo sabor, não disse uma única palavra até terminar tudo.
⎯ Me sinto mal, podemos conversar?
Quem poderia ser aquela criança, o que tinha acontecido com a sua tela? suas roupas sujas de aquarela, o cabelo negro, o que aquela tempestade havia trazido até sua porta.
⎯ Podemos sim, o que lhe fez está assim tão mal? Ela se sentou ao seu lado, em uma distância confortável, sem contato visual, apenas para que ele soubesse que ela estava ali o ouvindo.
⎯ Eu não sei explicar, é como se algo tivesse escapado das minhas mãos, ou melhor, de todo meu corpo. ⎯ Para ser mais específico, eu não me sinto mais criança, e caso tenha percebido, ainda estou preso em um corpo minúsculo, tenho cheiro de terra, eu não gosto disso.
⎯ Porque você não se sente mais criança? Ela não sabia o que dizer.
⎯ Um dia eu acordei e não me sentia mais criança.
⎯ Só isso? talvez você apenas esteja confuso.
⎯ Tudo está muito organizado, não há espaço para confusão, já racionalizei tudinho, acredite.
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O MENINO FEITO DE AQUARELA - CONTO
FantasíaEla já tinha terminado, as mãos sujas de tinta, o coração acelerado, a tempestade imensa que engolia aos poucos aquele pequeno vilarejo, foi então que a porta bateu, quem poderia ser naquela tempestade? se perguntou. Ao abrir se deparou com um menin...
