Capítulo Sessenta e Oito

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Num primeiro momento, Elisa ficou paralisada. E então sentiu o sangue começar a ferver.

– Mãe, o que este cara está fazendo aqui?

Éder não perdeu o sorriso, mas Dona Nonô encarou a filha com reprovação.

– Não chame o seu pai de "cara", Elisa. E ele está aqui para comemorar meu aniversário, como sempre. Mas resolvi que este ano faríamos uma reunião em família, por isso desmarquei o almoço. Assim o Éder já conhece o Marco e vê como você está linda.

Elisa cerrou os punhos, e não apenas pela reprimenda, mas também pelo absurdo que acabava de ouvir. Marco percebeu que ela se preparava para o ataque, só que não sabia se a impedia ou deixava rolar. Um olhar de Fernando o fez se manter quieto e esperar o vulcão explodir.

– E você não pensou em nos avisar dessa "reunião", mãe?

Dona Nonô empurrou o namorado, que ainda sorria, para uma das cadeiras estofadas perto da televisão.

– E desde quando família precisa avisar de uma visita? É importante que todos se conheçam, talvez Marco queria tirar algumas dúvidas com seu pai sobre paternidade e...

– E QUE BOSTA "MEU PAI" SABE SOBRE PATERNIDADE?

Aquele grito finalmente tirou o sorriso do rosto do homem mais velho. Ele pareceu confuso com a pergunta.

Dona Nonô estava incrédula.

– Filha! Isso não é jeito de falar, me interrompendo! Não é a educação que nós lhe demos!

Elisa deu dois passos em direção à mãe.

– Não há nenhum "nós" nessa frase, mãe. Esse homem que a senhora convidou não é, nem nunca foi, meu pai. Um pai está junto, acolhe, ensina. A única coisa que ele fez foi contribuir com o material genético e olha lá.

– ELISA! ISSO NÃO É VERDADE! – Dona Nonô negou, levantando a voz.– E VOCÊ DEVE RESPEITO AO SEU PAI! PEÇA DESCULPAS AGORA, MOCINHA!

Marco se colocou de pé e apoiou Elisa. Começava a compreender o porquê da resistência dela quando ele lhe disse que queria ser pai.

– FROGA COM RESPEITO, MÃE! E eu não quero saber. Como ousa colocar essa pessoa na minha frente, como se ele tivesse qualquer direito? Como se atreve a falar em "dicas de paternidade"? O pai do Marco é muito mais pai, mesmo nos dias em que esquece quem é! É dele que teremos todas as lições e não desse... Desse... Nem tenho palavras para descrever.

Éder se ergueu, na tentativa de se defender:

– Olha, Elisa, sei que tivemos nossas dificuldades e sinto muito...

Ele foi interrompido com um grito enfurecido:

– NÃO SE ATREVA! Não se atreva a dizer que tivemos dificuldades quando o vi menos vezes durante a vida do que vi um cometa. Nem telefonemas, nem cartas, nem froga nenhuma veio de você. Não sei o que ainda tem junto com a minha mãe, mas não é saudável. Eu não o quero na minha vida, ou na vida dos meus filhos!

Ele abriu a boca, depois a fechou, sem conseguir dizer nada.

Fernando, que até então só assistia aquela cena, e conhecendo muito bem como a sua irmã era, resolveu se aproximar de Éder.

– Olha, cara, não é um bom momento.

Marco escutou aquilo e, por mais incrível que lhe parecesse, não soou errado aos seus ouvidos que Fernando chamasse Éder de "cara", exatamente como Elisa fez. Aquele senhor, que devia ter seus sessenta e poucos anos, era um pai que abandonou a filha e, ao mesmo tempo, um pai cujo outro filho o tratava como um estranho.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now