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A alguns anos, andar à ônibus começou a fazer parte da minha vida e isso me levou a uma ideia, algo como uma metáfora sobre ônibuses e vidas.

Vejo a vida como um ônibus. Assim como você vai a um ponto e espera, um espermatozóide espera no útero; Assim como quando o ônibus chega a porta e entramos, chega a hora de nascer, mas diferentemente da questão do ônibus, saímos; No ônibus, não sozinhos, mas com outros que no ônibus entraram, interagindo com eles ou não, assim como na vida, coexistimos com outros sem escolha; E quando chega o ponto, descemos, quando chega a hora morremos.

Tento sempre pegar o mesmo ônibus, eu já conheço todos os rostos. E todos tem suas histórias conhecidas por mim. Gosto de ouvir os outros... suas histórias e criar minhas próprias pra quem nada me diz.

Então temos: um aposentado, que ainda trabalha, como porteiro;Três garotas que estudam biologia na UFES; uma velha senhora com 8 (oito) filhos que não se importam com ela; um velho e sua bengala, que toda manhã se dirigem ao hospital; duas empregadas domésticas, uma trabalha na casa do prefeito e a outra na casa de um banqueiro; um homem que se dizia poeta e escritor; uma casal de professoras de ensino fundamental lésbicas, uma dava aula de português e a outra de história; uma mãe e seu filho com síndrome de down; uma mulher desempregada que trabalhava como enfermeira, mas que para ter como sustentar seus dois filhos se prostituia, constantemente ela chorava; um pastor que gostava de ficar pregando e falando de nossa pecadora sociedade; E mais as pessoas que pegavam ônibus aleatoriamente para ir para suas respectivas escolas e respectivos empregos ou quaisquer lugar que fosse.

E percebo que após tudo isso, nem me falei, nem me introduzi, nem falei que sou, porque sou, pra que sou, quando sou, onde sou, o que sou, em que sou... Mas não espere que eu conhecendo as questões que talvez possam afligir o leitor, que eu lhes dê a resposta, nem que eu saiba a resposta. Não importa saber quem realmente sou. Posso ser o que a mente de Meu Escritor quiser que eu seja.

Por convenção, sou do sexo masculino, com idade próxima a do Autor, talvez um pouco mais talvez um pouco menos. O Autor me chama de _______________ e assim serei tratado durante o livro, mas me chame de qualquer nome que gostar (desde que seja preto).

E pra falar a verdade, nem sei bem o que ou porque escrever. Só sinto, só escrevo, O que sinto, o que escrevo. É assim que Meu Escritor me fez, Ele me fez escrever. Faço o que ele quer que eu faça, sinto o que ele quiser que eu sinta, escrevo o que ele quiser que eu escreva. Sou o que ele quiser que eu seja, sendo assim, não penso nem por mim mesmo, tudo que faço é criação da mente de Meu Autor.

UntitledWhere stories live. Discover now