POV Júlia
Sinto o cheiro da terra molhada, abro os olhos. 21h30. Está chovendo. O clima aconchegante, típico do outono, fez o meu cochilo da tarde se estender a ponto de me fazer sonhar com nós dois novamente. Mas... Por que não consigo me lembrar?
Levanto-me, desvencilhando-me dos tecidos pesados de minha cama. A súbita ventania faz com que os galhos das árvores batam em minha janela, intensificando o barulho da chuva, agora ainda mais forte. A única luz que me permite me encontrar em meu próprio apartamento vem do poste, recém reparado, do outro lado da rua. Era difícil lidar com o medo que às vezes eu sentia quando a lâmpada quente piscava noites a fio, intermitentemente.
Debbie está dormindo em sua almofada ao pé do sofá. Escuta meus passos, abre os olhos e fecha-os novamente. Fico aliviada. Costumo me preocupar quando ela está pegajosa, seguindo-me por todos os lados, dependente. Mas, agora, sou eu quem precisa dela. Sento-me, inclinando-me e esfregando suas orelhas. Desço até o pescoço, volto para suas bochechas e brinco com o seu queixo. Ela se vira e permite que eu faça carinho em sua barriga, gosto de como ela confia em mim. Alguns gatos acham esse gesto desconfortável.
Trago-a para mais perto, pegando-a no colo. Está tão sonolenta e despreocupada. Um barulho mais forte na janela a assusta e ela corre, escondendo-se no vão do armário. Deixo que vá, faz parte da nossa convivência respeitarmos uma o espaço da outra.
Quisera eu que a chuva, mesmo com tantos efeitos, ruídos e mudanças de paisagem, pudesse lavar a minha alma, purificar o meu corpo e ainda servir de esperança para um novo nascer do Sol. Quisera não precisar esconder-me de mim mesma, poder correr ao seu alcance, abraçá-lo e confortá-lo, apesar de todo o mal deste mundo, apesar das promessas não cumpridas. Quisera eu prometer-lhe que lágrimas de saudades não cairiam mais de seus olhos, mas sequer posso controlar as gotas quentes que, neste momento, caem dos meus. Deixarei que elas, mesmo que superficialmente, levem um pouco de minha dor.
— Se ao menos eu pudesse tirar esse peso dos meus ombros... — digo, aninhando-me no sofá. Chorando, mais um dia, por não ser capaz de me aliviar, de ter minha paz de volta. Minha vida. Você.
POV Fernando
Estou atrasado. As goteiras de minha casa não me permitiram dormir essa noite. Preciso me mudar antes que tenha maiores prejuízos com meus equipamentos de trabalho, que apenas consegui comprar com a parte da herança que me coube. Sinto falta do meu pai. Queria poder mostrar-lhe que, apesar das dificuldades que disse que eu enfrentaria como fotógrafo — e enfrentei —, estou feliz.
Chego à Redação. Não tive sequer tempo para comprar um café. O Senhor Louis quer ver o que consegui registrar dos efeitos do temporal da noite passada.
— Bom dia, senhor Louis. Por favor, perdão pelo atraso — digo, após bater em sua porta e me ser dada a permissão para entrar. — Estou com um problema sério em ca...
— Já sei, meu filho. — Impede que eu continue. — É a mesma justificativa dos atrasos passados, sua noite em claro, controlando a água que entra pelos buracos do seu teto.
— Goteiras, senhor.
— E não foi isso que eu disse? Bom, onde estão as imagens? Espero que essas “goteiras” não as tenham arruinado também. — Abro minha maleta sobre sua mesa e lhe entrego as impressões. Ele analisa uma a uma.
— Esta aqui foi o quê?
— Uma árvore que, pela força do vento, caiu sobre um carro que passava numa avenida bem próxima ao Hotel Geub.
— E alguém morreu? — Pergunta como quem precisa que a história seja trágica para ter espaço no jornal.
— Não, senhor. Felizmente, a árvore atingiu apenas o capô do carro, e a família usava cintos de segurança.
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The Truth Untold: a verdade não dita
RomancePOV Fernando Os conflitos já duram cinco anos. Hoje, o que mantém o meu amor ainda desperto são as fotografias que tiramos enquanto estávamos juntos, suas cartas entregues a mim a cada mês de namoro e, agora, os recortes de jornais que citam os feit...
