O homem que sabia voar

48 3 0
                                        


Conheci por motivo fortuito um homem que jurou saber voar, de início questionei, apresentando vários argumentos lógicos que impossibilitaria tal proeza, mas ele descartou cada um, pois o mesmo possuía a certeza de saber voar, tamanha era a certeza que não importava quão logico e racionais focem meus argumentos ele sempre os desconsiderava. Depois de pouco tempo de conversa ele cansado de tentar me convencer com simples palavras, propôs um acordo, afirmando que pularia de um prédio de minha escolha e se voasse eu escutaria atentamente os resmungos de um velho solitário e entediado,  e se eu tivesse curiosidade ele me contaria a história de como ele conseguiu aquela maravilhosa habilidade, a história do seu maravilhoso mundo, e caso falha-se no salto, me daria um relógio que guardava em seu bolso. Logo após propor esse acordo, o velho tirou do bolso interno do seu casaco, uma pequena caixinha antiga de madeira com varias flores talhadas a mão, e dentro dela, descansava um lindo, quase celestial relógio, que parecia antigo e muito valioso, logo sua proposta pareceu-me demasiadamente tentadora. Porém, depois de refletir dois décimos de segundo pude perceber o quão errado seria sacrificar a vida de um homem louco por um simples relógio, não importando o quão valioso fosse. Este lampejo de consciência trouxe a mim uma maravilhosa epifania, ele não precisa morrer, se eu escolhesse um prédio baixo o suficiente para que o mesmo pudesse cair e não morre com a queda, conseguiria o relógio e não teria o peso na consciência de ter encaminhado a morte um homem ingênuo.

Então caminhamos por alguns minutos na noite fria e ventilada, a rua já estava pouco movimentada, e no ceu a lua cheia brilhava como um grande farol, foi ai que me lembrei, hoje não deveria ser noite de lua cheia, mais esse pensamento loco esvaeceu, pois como seria possível eu homem feito e detentor de plena capacidade mental, ver coisas onde não existe. Depois de uma longa caminhada encontramos um prédio baixo o suficiente para que o nosso homem pássaro, pudesse cair sem que o mesmo morresse, e assim me livrando de manchar a minha doce e pura consciência.

escalamos o muro que ficava próximo ao prédio que parecia abandonado, ele demonstrou um pouco de dificuldade, já que aparentava estar na casa dos 60 e estar ainda um pouco acima do peso. Por isso fui o primeiro a chegar no terraço ao subir dei uma olhada em volta e vi que havia uma grama espessa e alta cercando a construção, percebi que a mesma seria favorável e consequentemente amorteceria a queda do falso pássaro. Eu, por ser a causa principal da queda do velho, e também por possuir um enorme senso de altruísmo, que nos dias de hoje e escasso a maioria das pessoas, preparei o número da emergência em meu telefone para ligar rapidamente após a queda do pássaro.

A noite estava fria e ao mesmo tempo acolhedora e eu não conseguia de forma algumas tirar da mente a imagem do lindo relógio precioso e angelical. O vento era constante, e aos poucos acariciava meu rosto tirando de minha mente a excitação jovial de sair triunfante numa negociação, até eu parcialmente esquecer o motivo de estar ali e de meu sorriso amplo e confiante. Mais essa doce sensação de vitória durou pouco, pois ao me virar para trás pude perceber um homem sem camisa, com o corpo completamente enrugado e seus braços dobra sobre sua barriga proeminente, ele me pergunta com uma voz completamente diferente da de 10 minutos, na praça, agora era uma voz doce, angelical e pausada, como se escolhesse cada palavra cuidadosamente ou não estivesse familiarizado com o nosso idioma. Ele então abriu os braços como nosso senhor jesus cristo e pude perceber que o excesso de pele que parecia estar enrugada e o excesso de carne que ocupava seus quadris e abdômen haviam desaparecido e dado lugar a um enorme par de assas que repeliam a luz do luar.

Nesse instante minha aparência sofreu uma drástica mudança, a pele que outrora estava radiante perdeu toda a cor e involuntariamente soltei um grito de espanto, medo e desespero. como é possível, um homem que a pouco de encontrava no topo do mundo, ter medo o bastante para não conseguir mexer uma única parte de seu corpo. Mas o mais surpreendente foi as doces e calmas palavra do homem pássaro desferidas a mim – meu querido amigo, não tenha medo, pois não irei lhe fazer nenhum mal e você também não está ficando louco.

Pontual Where stories live. Discover now