Capítulo 1

17 0 0
                                        

Vocês realmente sabem como é ser um homem gay? Não quero me "vitimizar", palavra muito usada hoje em dia para atacar as dores e sofrimentos das outras pessoas, para se colocar a um nível superior de força e austeridade que, garanto, nenhum ser humano tem. Eu só quero ser sincero com você, pessoa do outro lado da tela escura. Existem muitas consequências em ser diferente neste muito louco, onde todos querem parecer iguais.

Vivemos na era das padronizações. Acho que nunca tivemos tantos moldes para tudo na vida: tipo de casa, aparelho celular, roupas, estilo do cabelo e corte. Nas redes sociais existem aquelas que tentam lutar contra isso, virtualmente são ovacionadas, curtidas e comentadas, porém no mundo real são zombadas, taxadas de loucas, prostitutas, drogadas e "sem futuro". Sempre achei muito engraçado esse último termo, afinal estamos todos fadados ao mesmo destino intrínseco, cadavérico no fundo de um baú enterrado a sete palmos abaixo no chão duro.

Minha única intenção ao escrever a minha vida para vocês, que não consiste em um registro fiel em sua totalidade, palavras jamais serão suficientes para expressar a complexidade de ser uma pessoa. Sou um lunático e busco a vida eterna, a minha fala estará aqui digitalmente integrada a grande rede que se chama internet ou interweb. Tudo o que eu sei sobre a minha pessoa digitalizo em poucos bits, afinal texto não ocupa muito espaço. Logo eu, aqui, infinitamente pequeno, assim como um grão de areia no meio do asfalto, uma molécula de água frente a uma tempestade, um sopro no meio do furacão. Sou tão pequeno e insignificante que nem me enxergo. E você, consegue se ver? Entende nos seus neurônios, circuitos, cavidades interligadas e sacanas projetadas pela própria vida que deu início ao seu percurso nesse planeta. O que você representa neste vasto universo?

Você está aí, Paulo! Disse ela enquanto caminhava na minha direção, com seu vestido vermelho de seda e a sede de quem tem toda uma vida pela frente. Tão jovem, tão romântica e linda. Pessoas com essas qualidades têm tudo que se precisam para usufruir da melhor vida que este mundo pode dar. Bem afeiçoada e educada, ao mesmo tempo solta como uma pétala que acabara de voar pelo ar sendo arrastada pelo vento. Posso sentar aqui com você? E sentou, estende para mim um sorriso aberto de meia lua, um pouco amarelado como deve ser para quem fuma, e acendeu um cigarro que pegou dentro da sua bolsa de couro da Louis Vuitton, aquela com os símbolos para todos os lados e extensões, o L e V do luxo de quem pode comprar tudo o que quiser, querer tudo o que olhar e conseguir alcançar o que poucos têm o prazer de sonhar. Minha aluna, Geanini. Pelo visto não gostou muito de Paris, já está de volta, achei que ficaria mais um pouco por lá, não que a esteja expulsando, suas fotos estavam muito bonitas, principalmente as que tiraste pelos campos de papoulas. Sua última postagem no Instagram me transportou diretamente para uma pintura de Monet. Mas como tem passado, Geanini, soube que estava namorando um garoto, como era mesmo o nome dele? Autrement Dit? Questionei todos os seus passos, não havia como aqueles pés estarem nos mesmos lugares que os outros mortais, eram pés sagrados de donzela.

Geanini me contou todas as suas façanhas antes de me mostrar os seus inscritos de verão para que os corrigisse, como se tivesse algo lá para ser revisado. Muitos escritores já haviam passado pelas minhas mãos, o material que brotava daqueles dedinhos delicados era sempre estupendo, fenomenal. Ela amava meus elogios e os cumprimentos que vos dava sempre que lia suas palavras, por isso que me escolheu como seu amigo e redator. Eu não a via apenas como a garota bonita de família abastarda, eu percebia o seu universo interior que não tinha sexo, a parte de si que exuberava talento e sabedoria, carregada em seu DNA de todos os outros humanos e bichos que vieram na sua genética, resultando em uma criatura única como eu e você. Infelizmente não tive a mesma sorte de nascer como ela, com tantas vantagens. Não quero te incomodar, professor. Estou de partida para Amsterdam. Irei encontrar a minha família em setembro, mas antes preciso acertar algumas coisas com o meu tio. Ele me falou que vai investir em meus livros e quer que sua sobrinha seja conhecida internacionalmente. Nunca serei nenhuma Agatha Christie ou Jane Austen. Imagina eu, uma Nora Roberts? Mesmo assim continuo sonhando muito, sabe, aprendi com você.

Fiquei lisonjeado. Nos despedimos com um breve abraço e ela me deu um beijo no rosto, deixando uma marca de batom sobre a minha pele morena. Meu dever em ser professor é criar aspirantes a dominadores. Quero que por onde eles forem levem um pedaço de mim e consigam a cada dia lutar com todas as forças para tornar do mundo um lugar mais livre! Pouco depois da Geanini sair, meu amor, João, chegara ao café Taverna Beach onde estava sentando. Copacabana. Lugar onde nos conhecemos a seis anos atrás... Não irei demorar muito só vim te trazer seus livros que acabaram de chegar. São dois de Moacir Parvaronni e um de Cláudia Ribeiro, este está uma maravilha, onde será que conseguem estas capas tão maravilhosas com este vermelho fosco? Muito deslumbrante e o romance dentro faz jus a capa. Quando o lado de fora reflete o que tem dentro não é fenomenal? Sem dúvidas, meu amor, sem dúvidas.

Saímos juntos, mas não de mãos dadas. O nosso pequeno planeta ainda não era um lugar tão livre assim. Mesmo depois de trinta e três anos passeando sobre este chão, ainda não conseguimos alcançar o desfrute de sermos livres de forma completa e definitiva. Estamos tentando mudar tudo um pouco a cada dia, os filhos de Caim, desventurados, profanos e ingratos. Os infratores de ideias, escritores, poetas, músicos, pintores, artistas, prostitutas, alcoólatras, pessoa non grata. Quem é você, meu caro ou minha cara leitora? A que grupo pertence? Existe divisões em nossa rara espécie homo sapiens sapiens?

Continuarei falando de mim no próximo capítulo, espero que não se importe.

MileiaWhere stories live. Discover now