Não tinha ideia de quanto tempo estava ali, sentado e escondido no pequeno espaço atrás da porta, talvez fosse tarde ou de noite. Aquilo não importava, apenas queria escapar do mundo e das pessoas que estavam nele.
O esconderijo foi desfeito com o simples fechar da porta, Cris viu sua mãe torcer a boca para si, abaixou a cabeça e esperou o sermão diário, já era rotina discutirem as suas condutas. Mas dessa vez, ela somente disse:
-Quando você planeja "crescer", Cris? Estou cansada das suas atitudes, como quer viver?
Ouviu o abrir e fechar da porta mais uma vez, esticou o braço e girou a chave. Aquelas palavras foram o ápice das situações, os colegas o ignoravam na universidade e os amigos ou o que quer se chamavam começaram a evitá-lo.
Cris olhou o seu reflexo no espelho, um jovem de 21 anos usando um moletom surrado do Batman, olhos cansados e com olheiras, também inchados por chorar a caminho de casa. A sua situação era a consequência do mal que lhe fazia. O mundo queria que ele fosse um homem responsável com um bom emprego, um salário bem pago, uma carreira e talvez uma bela família e uma bela esposa ao seu lado.
O "belo ideal" para a sociedade moderna.
Dos próprios pais.
Mas não o dele.
Cris odiava os padrões sociais, para ele eram amarras cruéis postas em qualquer um, uma infeliz receita seguida a risca por alguns. Graças a isso passou a desgostar de si mesmo, dos seus sonhos e ideais e do seu modo de agir, chegou ao extremo de arrancar e atirar na lixeira todos os pôsteres de quadrinhos e animes das paredes. O taxavam de infantil por gastar dinheiro com isso.
Quando anunciou que seguiria o ramo das artes toda a família o condenara e o taxara de irresponsável ou que não dera valor no que lhe fora dado, recebeu um caloroso parabéns somente de um professor no curso. Depois passou a se manter com o dinheiro de uma bolsa que ganhou, os pai deixaram claro que não o ajudariam em nada relacionado a universidade e lhe deram as costas.
-Parem de cair malditas lágrimas!
Em meio ao choro notou algo diferente, o espelho não refletia sua imagem, ao invés disso, um garotinho com um belo sorriso lhe observava. Curioso com aquilo perguntou:
-Quem é você?
E a imagem respondeu:
-Sou sua alegria, tristeza, raiva ou dor ou o que quiser chamar. Sou o aglomerado de sentimentos e sensações que forma você, Cris.
-Então sabe que odeio esse "mundo", que apesar de ser um adulto não me sinto como um, pra mim eu nunca mudei desde de criança e não quero! Seria matar a mim mesmo!
-Ah, Cris, você é mais um em meio aos outros, sofre pelas suas escolhas, por ser quem é, por enxergar o mundo de forma peculiar e jamais abandonar seus princípios. Eu sou a prova disso, a verdadeira "imagem da alma".
O Cris criança abandonou o espelho e se pôs ao lado do Cris adulto, deram as mãos e vislumbraram suas imagens. Foi impossível o rapaz não sorrir, um sorriso verdadeiro depois de tanto tempo.
-Eu estou aqui, sempre estive aqui.
Então, naquele instante percebeu o quanto cresceu e que jamais esteve sozinho no mundo.
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Eu estou aqui
RomanceCris é um jovem adulto de 21 anos angustiado por não ser aquilo que todos esperavam: "alguém sucedido". Em todo o conflito e ódio que guardava da sociedade, descobre algo sobre si mesmo, algo que o poderia fazer se reerguer dos próprios sentimentos...
