São 3 hora da manhã e eu não consigo dormir. Fui mal na prova de matemática, de novo, e meu pai fez questão de avisar que já está mais do que na hora de eu começar a me dedicar mais. "O vestibular está chegando, Claire, está na hora de começar a estudar", frase preferida do meu pai. Como se eu já não fizesse isso. Eles não sabem o que acontece comigo todos os dias na escola. Toda manhã sou obrigada a vestir meu uniforme, que diga-se de passagem é horrível, tomar suco verde, por conta de uma gastrite nervosa que não desgruda um segundo de mim, e enfrentar aqueles seres estranhos que minha mãe cisma em chamar de "colegas". Eles não são meus colegas, não mesmo. Tenho 17 anos, estou no terceiro ano do ensino médio e meu único "colega" é o Pedro, que fala comigo apenas em dias de trabalho e provas em duplas. Ele diz que estudar não faz parte do seu ser e que a única coisa que ele consegue e gosta de fazer é ioga. Segundo ele, ioga é vida. Meditação, é vida. Chá, é vida. Hortelã e camomila então? São seus melhores amigos. Não posso culpar o Pedro por só falar comigo em ocasiões que valham nota na escola, eu não ajudo muito ele em questão de fala, porque eu só consigo pensar em como minha vida poderia ser invadida por uma paixão avassaladora, daquelas que te faz perder o ar. Mas, quando eu paro de sonhar com isso me deparo com a realidade: nunca namorei, nem beijei, nem sequer consegui gostar de alguém. Mas, gostar de alguém como? Do José lá da sala? Que deixa todas apaixonadas e nunca namora sério com nenhum? Ou o Carlos que, se duvidar, já pegou até a minha tia. Esses meninos me enojam só de pensar. Romantismo, conquista e namoro não faz parte do vocabulário deles. Eu quero um carinha que seja cavalheiro, doce, fofo e ao mesmo tempo apaixonado, misterioso e forte. Não digo forte de musculoso, até porque nem gosto muito de caras bombados, mas forte no sentido de que vai me carregar no colo e me acalentar quando a vida ficar mais difícil do que acho que posso suportar. Minha mãe, quando me escutou falando assim, disse que parece que tenho 30 anos e estou morando sozinha com quinze gatos. Não concordo com ela, na minha opinião, só não sou igual as pessoas do ensino médio da minha escola: infantis, bêbadas e imbecis. Apenas gosto das coisas como eram antigamente, não consigo imaginar lugar e época melhor para viver do que em 1823, no Palácio de Conrado.
De repente, um vento forte começa a soprar lá fora e a janela de Claire abre.
– Ai, casseteeeee, berra Claire, se enrolando nas cobertas sem deixar nada de fora.
Cinco minutos se passaram e Claire estava quase sufocada embaixo das cobertas, cansada de respirar aquela pequena porção de ar, ela resolve colocar a cabeça para fora das cobertas e vê uma garrafa com um bilhete dentro caída no tapete do seu quarto.
"Ah, claro, ótimo, como se o vento forte repentino e o fato da minha janela ter aberto não foi o suficiente para me deixar assustada. Pegou ou não pego aquela garrafa? Será que devo berrar pra minha mãe? Mas, a garrafa é tão bonita, tem até um lacinho dourado na rolha", os pensamentos de Claire vinham sem parar e sem ordem aparente. Mas, ela sabia, que sendo curiosa do jeito que é desde pequena e adorando uma aventura como adorava, abrir aquela garrafa poderia significar alguma coisa muito importante.
Tremendo de frio pela janela aberta em pleno inverno, Claire resolveu se levantar, fechar a janela e enfim pegar a garrafa misteriosa. Ela, em seguida, sentou na cama e se enrolou novamente nas cobertas. Ficou olhando aquela garrafa por um tempo que ela acreditou serem horas, mas não passavam de minutos.
"Ok, vou abrir. Não vai acontecer nada, é só uma garrafa. É né? Só uma garrafa", ficava repetindo em sua mente como forma de tentar se manter positiva, o que era em vão.
A garrafa continha um bilhete escrito à mão, com um papel aparentemente antigo e já desgastado pelo tempo. A rinite de Claire resolveu aparecer naquela exato momento e uma sessão de espirros atrapalhou a abertura do bilhete, no entanto, Claire não imaginava o que estava por vir. O bilhete era de uma época antiga, onde reis, rainhas e príncipes viveram. Para Claire ficou óbvio que aquilo era algum tipo de piada.
No bilhete, as seguintes informações estavam escritas: Claire Rosa, é com muita honra que convidamos você a fazer parte do nosso baile real. Será amanhã, às 20 horas e 30 minutos no Palácio de Conrado. Você participará de algo que nunca imaginou.
