"O rapaz não podia acreditar. Ela havia o provocado no meio de uma cena importante, na frente de quase duas mil pessoas - as quais esperavam, no mínimo, uma apresentação teatral de qualidade -. E agora, ele estava tão mexido que não conseguia parar...
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National Threatre, Londres
— A tristeza que nos entrega isso mudou.... Faz você pensar — disse Charlotte em seu forte e típico sotaque britânico, seus pés se movendo entre as marcações previamente ensaiadas. A voz dela soara familiar e agradável aos ouvidos do homem de olhos azuis, e ele teve facilidade em manter seu olhar no dela quando sentiu um peso sobre as próprias pernas.
— Como um ator maçante, agora, eu esqueci o meu papel. E estou do lado de fora, mesmo para uma total desgraça — ele entonou, lembrando de suas falas. A garota estava agora sentada em seu colo, seus olhos escuros brilhantes contra a luz dos holofotes e seus cabelos loiros presos para trás. Ela o pressionava o peito coberto pelo couro das vestimentas gentilmente, enquanto seus dedos seguravam-na pela cintura, uma ação quase que involuntária.
Algo abaixo de duas mil cabeças mantinham sua miríade de olhos pregados nos dois atores focados na cena que se tornaria mais íntima e profunda em questão de minutos. As cortinas nas laterais do palco e as luzes fortes impediam os artistas de contemplarem o considerável número de pessoas que estavam ali para prestigiar o seu trabalho. Coriolano, de Shakespeare, era um sucesso durante as noites frias de Londres e atraía os mais diversos públicos para o Teatro Nacional; desde amantes da arte, leitores assíduos do dramaturgo, até membros da alta sociedade que apreciavam o teatro ou que apenas precisavam ser vistos naquele tipo de evento.
Tom e Charlotte, apesar de não se importarem muito com aquilo, gostavam de ver a casa cheia. Significava que seus trabalhos estavam tendo retorno e isso era simplesmente gratificante. Charlotte vivia do teatro, ela achava sets de filmagens locais gelados demais e preferia a sensação de ter a adrenalina correndo em suas veias durante as apresentações ao vivo.
Já Tom, possuía experiência no ramo cinematográfico, seu nome fora construído em cima de vários personagens feitos com dedicação para as telas de cinema, mas não podia reclamar do bom e velho teatro. Fora lá que aprendera as melhores técnicas de improvisação e conhecera grandes pessoas; a garota sobre si era uma delas. Havia uma certa pressão em não poder cometer erros, mas o rapaz gostava de se desafiar de vez em quando.
Tom amava seu ofício, o que apenas o tornava um dos melhores no ramo. Ele gostava de desbravar personagens da mesma forma que se é desbravada uma pessoa recém conhecida, gostava de entender as circunstâncias deles e o que aquela história exigiria dele como ator. Além de topar qualquer situação, fazia os sacrifícios necessários para alcançar uma boa performance na maioria das vezes.
— Melhor da minha carne, perdoe a minha tirania. Mas não por isso diga 'perdoe os nossos roman....' — Sua fala foi completamente interrompida pelo beijo que Charlotte depositou em seus lábios. Era um beijo programado e que fora ensaiado diversas vezes, Tom esperava por ele, mas ainda assim foi lento, duradouro e caloroso da forma que deveria ser.
Eles haviam sido muito profissionais desde o começo, e, por isso, ninguém suspeitava do que os dois faziam por trás das cortinas quando elas se fechavam, ainda assim ele não pôde conter a leve queimação a qual tomou conta do próprio peito ao senti-la tão próxima de si, tão colada a seu corpo; não pôde evitar que ele e seu personagem entrassem em conflito em sua mente. Não que tivesse orgulho disso.