Lua nova

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Há muitos anos atrás um rei e uma rainha invadiram a terra de selvagens nativos da região, e declararam que aquela parte do mapa eram de seu território.

As famílias foram expulsas da terra, suas casas destruídas e seu sangue derramado.

Um novo povoado foi estabelecido, novas casas, novas famílias e toda crueldade e tirania foram apagados da história. Ninguém chorou suas mortes, ninguém lutou por suas terras, seus corpos foram enterrados na floresta e tudo aquilo teria sido esquecido se não fosse o que estava prestes a acontecer.

Dez anos depois da morte do rei de Lua nova as pessoas da parte sul começaram a cair desacordadas pelas ruas, assim que a lua aparecia no céu seus corpos caiam em um sono profundo e só conseguiam acordar novamente depois do nascer do sol.

Nove meses depois de tal acontecimento, era a vez do lado norte sofrer a sua parte da punição. Ao nascer do sol eles caiam desacordados e só podiam abrir seus olhos novamente no pôr do sol.

Esses eventos se tornaram permanentes e se mostraram irreversíveis ao longo dos anos. Logo o povo de lua nova se acostumava com sua nova rotina. As lojas e as pessoas se adaptaram e o sul e o norte se tornaram povos diferentes, separados.

A parte sul foi chamada de filhos do Sol, a cor predominante das pessoas era negra.

A parte norte foi chamada de filhos da lua, a cor predominante era branca.

Apesar da separação dos povos, eles cultivavam uma admiração um pelo outro. O sonho de qualquer morador do lado sul era conhecer alguém do lado norte e o sonho do povo norte era conhecer o povo do sul.

Depois de dois séculos o primeiro eclipse aconteceu.  Esse evento permitiu os povos se encontrarem e durou cerca de uma semana. Tudo isso parecia mágico mas ao findar do eclipse, cada coração que se apaixonou, cada amizade que se formou, cada gesto, olhar e amor foi destruído com a separação eminente e inevitável. O norte e o sul nunca estiveram tão distantes quanto naquele dia.

Nossa história se passa 800 anos depois do primeiro eclipse de Lua nova.

***

Shakirah era uma filha do sol, tinha acabado de fazer seus quinze anos o que seria uma comemoração para qualquer outra menina da sua idade de situação financeira diferente da sua.

Sendo a quarta filha de uma família bem pobre do setor D, ela teve que aprender a se virar bem cedo para arranjar algum dinheiro para sua casa, ou um pão qualquer.

Ela costumava ir para a floresta e pintar o que visse de mais exótico. Seus quadros tinham uma beleza surreal, era um talento nato que os setores altos como os B e A valorizavam, por isso compravam seus quadros. Mas como espertos que eram, nunca pagava o preço justo pelos quadros e como Shakirah desconhecia o seu próprio valor e talento aceitava até um pedaço de pão como pagamento.

Shakirah era uma mistura bem rara entre um homem branco e uma mulher negra, rara porque existiam poucas pessoas brancas no lado sul de lua nova.

Mas apesar dessa mistura Shakirah não herdara a cor branca de seu pai. Seus cabelos eram cachos definidos e selvagens que iam até a metade de suas costas, alguns cachos rebeldes sempre teimavam a fazer cócegas em seu nariz.

Ela costumava usar um vestido surrado azul e quando não estava descalça usava botas pretas.

Faltavam apenas duas semanas para o eclipse finalmente acontecer, de fato para Shakirah esse era o melhor presente da sua vida, poder participar de um eclipse, poder conhecer o povo da lua. Existia apenas uma regra para a semana do eclipse, o que não era bem uma regra talvez uma tradição ou um conselho antigo passado de ancião para ancião.

" Nunca entregue seu coração em uma semana de eclipse"

Shakirah acreditava que isso era uma forma de dizer que o povo da lua não podia amar o povo do sol sem ter seu coração partido e vice versa.

A coroaWhere stories live. Discover now