– Você precisa parar com isso – falei irritado enquanto colocava gelo numa toalha e me voltava para o homem sentado no balcão da minha cozinha. – Um dia vai acabar com mais que um nariz quebrado.
Narciso sorriu, apesar do inchaço em seu nariz e do sangue que ainda escorria por seu queixo.
– Tudo bem, eu já estou acostumado – murmurou enquanto eu tentava colocar o gelo em seu rosto o mais delicadamente possível.
Suspirei enquanto olhava para meu melhor amigo e guarda costas.
É, guarda costas.
Tudo começou no primeiro ano do ensino médio.
Narciso já era meu melhor amigo naquela época, nos conhecíamos desde pequenos, já que morávamos no mesmo prédio e estudávamos na mesma escola. O dia fatídico foi o início das aulas, quando uma das meninas da sala deixou um espelho em cima da carteira e eu, desastrado como sempre, tropecei e derrubei tudo, inclusive o espelho, que se quebrou em um montão de pedacinhos.
Ela nem ficou muito irritada comigo, apenas aceitou minhas desculpas e seguiu com sua vida. Mas a minha tinha mudado para sempre.
Narciso, enquanto tirava lascas de vidro da minha mão no banheiro dos meninos, disse:
– Você sabe que foi amaldiçoado, não sabe?
– O quê? – havia sido minha resposta confusa.
– O espelho, Guilherme. São sete anos de azar.
– Ah... – eu não acreditava nessas coisas.
– Mas você não precisa se preocupar – ele tinha dito com um sorriso. – A partir de hoje, eu vou ser seu guarda costas. E vou te proteger pelo tempo que durar a maldição.
Eu não havia levado aquilo a sério, a princípio, mesmo que soubesse que quando Narciso metia algo na cabeça, não havia modo de fazê-lo mudar de ideia.
Bom, mas aqui estávamos, quase sete anos depois, e ele continuava firme em seu "emprego". E se metia em todo tipo de encrencas para me "proteger". O negócio é que eu, de fato, parecia atrair todo tipo de acidente, mesmo antes de quebrar o espelho, e com o tempo isso só piorou. Às vezes, até cogitava a possibilidade da maldição ser verdadeira, mas...
Não, que besteira.
– Eles eram três, seu idiota – falei, apertando seu nariz com um pouco mais de força de propósito, o que o fez gemer de dor. – Qualquer pessoa com o mínimo de auto preservação teria ficado na sua e ignorado.
Ele fez uma careta quando me afastei um pouco, só para depois pressionar o gelo do lado mais machucado e então disse:
– Mas, Gui, eles estavam chamando você de perdedor. Eles mereciam uma lição.
E eu era um perdedor. Estávamos na época dos jogos da faculdade e meu time havia acabado de perder. A galera de Pedagogia – o meu curso – nem se ligava muito nisso, nós sempre perdíamos todos os jogos. Os caras que estavam me provocando eram apenas um bando de bêbados de Economia que não sabiam a hora de parar com as brincadeiras de mau gosto. Mas Narciso estava atenuando a situação. Perdedor foi o adjetivo mais lisonjeiro que aqueles idiotas haviam usado.
– Que grande lição – resmunguei. – Aposto que os dedos deles estão doendo bastante por terem quebrado seu nariz.
– Não está quebrado. Eu já quebrei uma vez, lembra? Não está doendo nem um pouco do que aquilo doeu.
Ah, eu lembrava. Narciso havia se metido numa briga com um caminhoneiro num posto de gasolina depois que eu acidentalmente passei uma das rodas do meu carro em cima do seu pé.
CITEȘTI
O Guia de Gui para Quebrar uma Maldição
DragosteGuilherme quebrou um espelho no primeiro ano do ensino médio. Narciso decidiu ser seu protetor durante seus sete anos de azar.
