As luzes do candelabro se apagam. Cecilia finalmente tem a sensação de dever cumprido. Palmas ecoam no salão principal do Museu do Louvre. Sua exposição intitulada: "Luzes em mim" fora aclamada por todos os presentes. Após atravessar o corredor central ela se depara com jornalistas de toda a Europa que a aguardavam na coletiva de imprensa, no salão oval. Sempre minimalista, atende primeiro os fãs e lança um sorriso faceiro em direção a sua assistente Ana, que a essa altura já estava se remoendo pela demora da chefe em proferir as primeiras palavras para a mídia.
- Creio que esta tenha sido minha última aparição em público pelos próximos doze meses. Permitam-me dizer que entro de férias a fim de fazer uma nova e introspectiva viagem as minhas raizes. Saio de Paris com a sensação de dever cumprido. Àquilo que me propus a fazer, fi-lo bem feito. Agora, como dizem os brasileiros: "quero sombra e água fresca". A fala inicial de Cecilia Frey (assim era a alcunha da famosa artista plástica internacionalmente conhecida, mas que na certidão de batismo respondia pelo nome de Cecília Freitas), causou um grande espanto no salão. Ouvia-se claramente o som dos presentes engolindo seus canapés a seco, como se algo de podre lhes descesse pela garganta.
Em questão de segundos um burburinho tomou conta do ambiente e todos começaram a rir, acreditando se tratar de mais uma das peripécias da excêntrica artista carioca. Afinal, Cecília sempre se destacara pela exímia competência como pintora ao mesmo tempo em que não abria mão de viver sua vida íntima longe dos holofotes.
Sinceramente ela não entendera o porquê de tantos olhares espantados. Após uma ascensão meteórica e de se dedicar por longos 17 anos a arte em si, viajando por todos os cantos da Terra, chegara a hora de voltar as suas origens e de revisitar um lugar há tempos adormecido, pois esquecido jamais seria, uma vez que seu coração morava lá.
Após todos os esclarecimentos devidos, retornou ao Saint James Albany na intenção de enfim descansar e tirar o pé do acelerador. Retirou o salto agulha bourdeaux que combinava minuciosamente com sua echarpe terracota. O vestido preto a essa altura já passava pelos joelhos e ela se dirigia a banheira, com a intenção de poder pensar finalmente nos seus próximos longos doze meses de recesso.
A água parecia um pêssego ao tocar suavemente sua pele. Enquanto aproveitava para retirar todo excesso de maquiagem, cremes e afins, seu pensamento a levou há alguns anos, num mergulho introspectivo, que a fez balbuciar o nome daquele que fizera seu coração acelerar mais forte pela primeira vez: Carlos. Por onde andara aquele que há anos a fez tomar a decisão mais difícil de sua vida, abandonando-o na cidade maravilhosa? Decisão essa que a levara ao grau máximo de reconhecimento profissional, mas que deixara em seu coração o vazio de se viver sozinha e esperançosa.
Num súbito, Cecília levantou da banheira e sentiu que era hora de encarar a verdade dos fatos e suas consequências. Era hora de voltar pro Brasil. Pro Rio. E pra Carlos, porque não?
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Unissonante
RomanceCecilia, uma artista plástica renomada, volta de uma exposição muito aclamada no Museu do Louvre decidida a se afastar da fama e das festas da alta sociedade europeia, a fim de relaxar em seu ano sabático. O que ela não sabia é que o amor a faria re...
