As testemunhas

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Jéssica despertou primeiro. Subitamente. Sentindo como se uma lâmpada de luz incandescente fosse acesa bem no âmago da sua inconsciência, forçando-a a emergir do fundo de um oceano sem forma e vazio - Os primeiros segundos foram arrebatadores. - Ela nunca experimentou acordar daquela maneira. Nem mesmo nas vezes em que seus temores escapavam dos recônditos de sua imaginação para fazer-lhe visitas pela madrugada, a jovem era tão coagida a acordar com a sensação esmagadora de um susto repentino, o pior de tudo foi que não houve um motivo sequer para aquilo ter acontecido, pois nem mesmo do bendito sonho a garota recordara. Tudo o que sentiu foi um arrepio congelante discorrer por todo seu corpo, a começar pelos pés, subindo pelas pernas, passando pelo tronco, pescoço, até alcançar o topo da cabeça. E tudo isso veio acompanhado da sensação mais esquisita do mundo: ser projetada para fora do seu próprio sonho, sem qualquer resistência.

Num impulso involuntário, Jéssica sentou-se sobre uma cama, dentro de um quarto mal iluminado. Seus olhos estavam arregalados, mesmo assim ela ainda visualizava no fundo da sua imaginação a nuvem escura que pairava, encobrindo os seus pensamentos, dispersando-se devagar. Sua respiração estava profunda, ofegante. Tendo amenizado o efeito daquilo, ela voltou a recostar a nuca sobre o travesseiro de espumas e fronha branca, e olhou para o teto de gesso sem dar muita atenção. Depois, virou-se de bruços, em direção à janela e percebeu que havia uma outra cama ao lado da sua, e um jovem adormecido nela - aquele era Rafael - Jéssica assustou-se e ergueu-se novamente.

Quem é esse garoto? - pensou.

Foi quando se deu conta de que o cômodo em que encontrava-se não era o seu quarto. Na verdade, o ambiente tratava-se de um quarto hospitalar, com leitos e cortinas brancas encobrindo a janela. Ela saltou de debaixo do lençol e levantou-se, perplexa com tudo o que viu. Seus olhos correram pelos quatro cantos do cômodo na intenção de encontrar algo familiar. Mas tudo o que via era completamente novo e desconhecido - principalmente o jovem desacordado na outra cama.

Onde eu estou?

Ela notou que vestia um traje hospitalar simples. Uma camisola comprida, branca, podendo ser confundida com os tradicionais roupões utilizados em cerimônias religiosas. Mas Jéssica já estava atordoada o bastante para perder tempo pensando em religião, ela queria descobrir que raios de lugar estranho era aquele em que se meteu. Por isso, ela correu até à porta do quarto, agarrou a maçaneta metálica e girou, estava trancada por fora, forçou, de nada adiantou. Então correu para a janela - sua segunda opção. - Abriu a passagem de luz até o final e debruçou-se sobre o parapeito para ver melhor o que tinha lá fora. A vista dava para um vasto campo verdejante. Após 1 quilômetro de capim, crescia uma floresta de clima amazónico tomando conta de todo o restante. Perto do horizonte erguia-se um encadeamento de montanhas escarpadas contornando toda a região campestre. No alto céu azul destacava-se um vívido sol nascente, alguns punhados de nuvens esbranquiçadas davam o acabamento a toda aquela obra da natureza. Uma vista emoldurada por detrás dos umbrais de madeira da janela.

Mergulhada em tamanha beleza, Jéssica nem se deu conta de que na verdade havia se debruçado sobre o parapeito de uma das janelas do segundo andar, nos fundos, do único edifício construído bem no meio de um complexo jardim selvagem e encantador. O edifício trazia o estilo rebuscado de uma casa de repouso, com traços arquitetônicos do período colonial. Rusticamente conservado.

Os raios de sol invadiam o quarto, indo de encontro à cama de Rafael. A claridade tomou conta de sua vista e isso foi o suficiente para faze-lo despertar do sono, incomodado. Não existia no mundo, nada melhor para fazer Rafael acordar rápido assim, como a luz do sol direto em seu rosto pela manhã. Ele abriu os olhos, sonolento, mas os tapou novamente e virou-se de bruços, tentando escapar da luminosidade do dia.

Jéssica deixou-se levar, encantada com a beleza estonteante. Quanto mais ela mergulhava nos detalhes daquela paisagem arrebatadora, mais ela era preenchida por um estado de plena paz trazida pela brisa dançante que vez ou outra atravessava a janela só para beijar o seu rosto. No mesmo instante o medo e a insegurança perdiam forças, consideravelmente.

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⏰ Last updated: Mar 24, 2019 ⏰

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