Cap. 01 - O último dia

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Pulei para o batente inferior e sentei-me próximo às pedras.

Usava uma jaqueta jeans azul surrada com uma gola colorida e desfiada, camisa preta com um enorme olho de Thundera – animação ícone da minha infância – e os pés metidos num par de tênis All star na cor vermelha. Estava gripada, limpando o nariz compulsivamente. Gostava da ideia de estar doente, pois, assim, disfarçava as lágrimas e o desânimo. Há meses afundava. Sentia o poço tão profundo que era incapaz de prever o dia da queda.

Eu não sabia, mas o dia tinha chegado.

As ondas quebravam junto às pedras e pareciam atingir a alma. Ricocheteavam na mente a cada segundo como o ponteiro de um relógio, acusando o fim da vida e o atraso nos planos e sonhos.

Não, ainda não tinha terminado com os meus projetos. Havia muita coisa pendente. Grandes viagens para conhecer os lugares mais estranhos dos quais já ouvira falar e aqueles que ainda ouviria.

Esse era o último dia, mas ainda precisava de um pouco mais.

Quando termina a vida de uma pessoa?

Alguns dirão que com a sua morte. Pois não é no que eu penso. A vida acaba quando não se vive o que tem dentro de si. Não, não é uma defesa do egocentrismo ilimitado. Nada disso. O problema começa quando todos a sua volta decidem o que você deve fazer, pensar e sentir. É um clichê que todo mundo já sentiu na pele.

Eu senti. E quase morri por isso.

É incrível que, por mais que se combata e discuta sobre isso, as coisas não tomam outro rumo. A ditadura arrogante dos conformes sociais, os modismos insanos e as necessidades de 'parecer' mais do que importar-se com os significados, continuam decidindo o destino de milhares de pessoas. Geração após geração, uma legião de zumbis atravessa o planeta como uma névoa cinza de fuligem.

Bilhões de idiotas morrem todos os anos. Bilhões de idiotas em todos os séculos. E o mundo continua reproduzindo esse câncer maldito. O câncer não são as pessoas levadas pelos modismos, mas o ciclo maldito que parece impossível de ser quebrado.

Foi assim que a minha vida chegou a este impasse. Sou idiota? Talvez no sentido aristotélico do termo e no muito interessantemente trabalhado romance de Dostoiévski. Sou idiota, sim, mas não nos termos chulos atuais.

Há muito para contar e não sei se conseguirei fazer da forma mais apropriada. Sugiro ao leitor que se acomode em um ambiente arejado, próximo a uma janela e com uma generosa fatia de bolo de chocolate acompanhada de uma xícara de café. É o que eu faria. Mas pode tomar chá com bolachas se quiser.

Por onde começar?

Veja o lugar em que me encontro: aqui mesmo, o fim da minha vida. Espero que ao final desta narrativa vocês sejam capazes de compreender. Senti a necessidade de colocar em palavras concretas o que ia na minha alma. E aqui está o vislumbre de um retrato fosco. Mas é tudo que consigo fazer. A vida é muito mais que algumas páginas, não é mesmo?

Vou começar pelos últimos acontecimentos de que me lembro.

Fui demitida do emprego porque um grupo de colegas disse que eu era exigente demais. Não há lugar no mundo de hoje para exigências em matéria de educação. Você deve se adequar ao que todo mundo está lendo, à forma como todo mundo está escrevendo, às ideias que a grande massa reproduz. Quer ler os clássicos? Leia os da moda. Mas muitos deles são exatamente os mais imbecis que já vi.

E talvez alguém classifique dessa forma este relato queixoso que aqui me propus a fazer.

Você deve seguir a onda ideológica do momento. Tomar partido em um grupo e defender aquela ideia como se fosse a sua vida. Só o seu grupo está coberto de razão. Caso outro resolva discutir política sob outro prisma, ou querer conhecer mais do que vê na mídia, suas palavras e tentativas serão vilipendiadas por aqueles que delas discordam. É preciso moldar o pensamento à forma que 'eles' desejam. Eles quem? Ninguém sabe. Ah, e não pode usar de certas palavras; não seria politicamente correto. Ao inferno com o politicamente correto!

Prefiro me ater aos fatos da minha vida.

Os colegas pediram minha demissão. Eu exigia qualidade nos textos dos alunos e atenção às discussões. Cheguei a ser chamada por eles de 'generala'. É sempre assim quando um professor entra na sala falando de regras de convivência e coisas que não vai tolerar.

Sempre tratei a docência com dedicação e tinha por ela uma devoção quase religiosa. Era a minha vocação.

Mas isso não importava, pois as minhas ideias eram diferentes. E ninguém lembrou que eu precisava ganhar o meu sustento. Quando a discordância é visceral e cega, não importa sequer se a sua sobrevivência como ser humano e a sua dignidade estão em jogo. Ainda bem que não tinha filhos para descer ao fundo do poço comigo.

As pessoas, meus pares, meus caros colegas, não viviam o magistério como vocação e sim como um emprego. Uma profissão como todas as outras. Todas são importantes, entendam, mas o magistério é como a maternidade e a paternidade. Não tutelamos os alunos como os pais, mas somos aqueles que caminham lado a lado anos a fio, com cada um dos indivíduos em formação e levantamos juntos as estruturas da civilização. Fundação e estrutura.

Isso não é coisa pouca.

Os peripatéticos caminhavam erguendo sonhos...

Mas eu desisti de lutar contra essa incoerência do sistema quando percebi que tudo aquilo era intrínseco às pessoas que encontrei. Não desisti da docência, mas de me deixar comandar pela turba que empurra sem dó nem piedade e das pessoas que te cobram favores pelo resto de sua vida, quando você não pediu nada.

Um dia um aluno me disse: 'Eu que mando aqui, amanhã trago uma arma e te mato!"

Um rapaz franzino, que andava armado mandou o que me ameaçava calar a boca. Mais tarde, já do lado de fora da escola, contou-me que a namorada estava grávida, que era de uma gangue que que não queria aquela vida para o filho. Disse-lhe que precisava estudar se quisesse dar uma vida melhor ao seu menino. Emprestei a ele O príncipe, de Nicolau Maquiavel; sim, aquele filósofo que falava se era melhor ser temido do que ser amado. Eu dava aulas de filosofia.

O rapaz voltou depois das férias e tinha me feito prometer que voltaria também.

E eu voltei por mais um tempo. Meses apenas. E fui embora. Mas é preciso atacar pela raiz dessa história. Vamos ao "E tudo começou".

Grace AugustHistórias para pegar e não largar. Descubra agora