Prólogo

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O vento soprava seu cabelo em todas as direções, mas a mulher não se importava, tampouco se preocupava, pelo contrário, isso fazia com que corresse mais. Perdera a noção dos dias e das horas, o tempo lhe era um fantasma, cuja presença podia ser sentida, nunca vista. Não sabia contar a quanto sua vida era zigue-zaguear pelo trânsito, ora caótico, ora tão calmo que apenas sua moto tomava conta da pista. Mesmo nesses casos, onde se encontrava apenas ela, a lua e o vento em seus cabelos, ela costurava a pista, na máxima velocidade que conseguia.

Essa noite era um desses casos. Só existia ela na pista, o ronco firme e baixo da moto bombeava o sangue pelo seu corpo; o vento que acariciava seus cabelos, era o mesmo que soprava em seus ouvidos, silenciando seus pensamentos e, embora fossem suas mãos a controlar a moto em perigosas costuras pela pista vazia, era a lua que guiava seu caminho, como de costume.

Em determinado momento do trajeto, seus olhos capturaram algumas luzes, um pouco distantes da estrada. Ela pensou em ignorá-las e seguir, todavia seu coração a mandava ir. Nunca fora de ouvi-lo, de qualquer forma, o que a fizera pegar o retorno foi o pedido da sua única companhia por gasolina. Assim ela dissera e contara.

Não demorou muito para descobrir que não era uma cidadezinha esquecida, como presumira, mas sim um pequeno parque, talvez um circo, não saberia dizer. Ela estacionou a moto em uma sombra segura. Já que chegara até ali e, certamente, não encontraria onde abastecer a moto, iria se abastecer do álcool que, podia sentir pela garganta seca, seu corpo pedia. Desceu da moto, desabotoou a jaqueta de couro, não se preocupou com a bagunça que seu cabelo estava, colocou as mãos nos bolsos da jaqueta e caminhou até a entrada do local, chutando a terra batida que sujava suas botas, outrora de um preto vívido e brilhante.

Não conseguiu avistar nenhum lugar que aparentasse vender o que precisava, resmungou em desapontamento e estava prestes a retornar para sua moto e sua liberdade, quanto avistou uma grande tenta. Ela se aproximou, tirando um cigarro do bolso e acendendo. O pano da tenda era marrom, mas não se apagava na escuridão do local, pelo contrário, brilhava como nenhum outro. A luz da lua, que sempre a acompanhara na estrada, o fazia brilhar. Ela entrou.


A menina andava pelas barracas sem realmente enxergá-las. O tempo deixara de fazer sentido desde a noite que dera seu primeiro tiro no trabalho. O primeiro e o fatal. Ela sentira que o tiro a matara, tanto quanto o homem que caíra em seu próprio sangue, sem vida. Muitos a abraçaram, sorriam, ela virara uma lenda, uma heroína, na delegacia onde trabalhava. Ela ria daqueles homens que, repentinamente, decoraram seu nome e lhe davam tapinhas nas costas. Ela fora transferida a mais de 2 anos, nunca haviam sequer a olhado nos olhos, à ela, por ser a única detetive feminina do local, eram destinadas falas misóginas ou cantadas de baixo calão. Até o dia que ela, sozinha como sempre, matou o maior chefe de quadrilha da região.

Quando exatamente as coisas mudaram? Ela não saberia dizer. Aquele tiro pode ter sido disparado há um mês, mas pode ser que tenha sido há algumas horas. Ela tampouco saberia como chegara ali, muito menos fazia ideia de que lugar era aquele. A única certeza que tinha, era de que, no momento em que vira o homem, que pisara em seu sangue, sangue que ela derramou, para confirmar de que morrera, parte dela também morreu. Sua certeza nem era completa, como poderia ela, uma mulher que jurara ficar sempre ao lado da lei, se sentir morta por matar um criminoso tão perigoso quanto aquele? A última coisa que se lembrava no momento, era de entrar em seu carro e dirigir, agora chutava a areia batida do que lhe parecia ser um pequeno parque antigo.

A beirada de seu longo vestido vermelho já estava amarronzada pelos grãos que se juntaram ao tecido, quando ela avistou a tenda do tecido mais azul que já vira na vida. Olhou ao redor, mas, naquele momento, não tinha certeza do que via, então resolveu entrar e explorar o que parecia ser o único lugar fechado do grande aberto que a envolvia. Ela entrou.


Assim como as duas mulheres, não sou senhora do tempo para precisar quanto se passou. Sequer poderia contar o que passou lá dentro, a história delas, apenas elas têm a autorização de contar.  Meu papel é instigar e por isso cabe a mim questionar: estão no mesmo lugar? Os panos são diferentes, não são? Aconteceu no mesmo momento? Do mesmo jeito? Por enquanto, cabe você decidir. Daqui parto para outro momento, que talvez lhe de resposta para uma ou duas perguntas, ou assim te faça crer.


A mulher estava em um canto afastado, sentada em uma raiz que se projetava do chão. Recostou contra o tronco, acendeu um cigarro enquanto fitava a lua cheia e pensava nas palavras que a senhora havia lhe dito. Estava na metade do cigarro quando vozes alteradas lhe chamaram atenção.

A luz da lua não era o suficiente para iluminar o local, apenas as silhuetas da paisagem eram visíveis. Por conta do silêncio, as vozes saiam claras, ainda assim, incompreensíveis. A mulher jogou o resto de seu cigarro no chão e pisou, caminhando em direção ao som. Parou em uma distância segura, assim que conseguiu distinguir os contornos dos donos das vozes. Não pode ver seus rostos, mas sabia se tratar de um homem e uma mulher.

Varreu com os olhos, o melhor que pode naquele breu, procurando por algo que poderia ajudar. Demorou até achar o que queria. Pegou e caminhou com cuidado, deslizando em um pequeno declive que não vira. Ficou um tempo imóvel, esperando qualquer reação das pessoas. Quando julgou seguro e que nada aconteceria, soltou o ar e voltou a caminhar. Aproximou-se lentamente, pegava partes da conversa, mas não tinha um contexto. Viu que uma das sombras, de repente, apontou um revolver para a outra, foi nesse momento que ela correu, encurtando em poucas passadas a distância, e golpeou a pessoa na cabeça.

O som do corpo atingindo o chão foi encoberto pelo grito da outra mulher, depois silêncio. Nenhuma das três pessoas se mexiam, uma por estar mergulhada na inconsciência, as outras duas não se sabe. Aos poucos, as batidas do coração puderam ser ouvidas, como um sussurro distante; as respirações seguindo o compasso irregular; mas nenhum movimento foi feito. Cada qual se concentrava em respirar, o sangue martelando em seus ouvidos, dificultando qualquer outro sentido.

Uma explosão ao longe fez com que a audição de ambas voltasse lentamente. Um clarão à distância. Ambas se viraram para o local. Outro barulho, dessa vez ambas escutaram mais nitidamente os fogos. Olharam para o céu, para a profusão de luzes. Se perguntarem, dirão cores diferentes, cada qual olhava por uma lente. Quando abaixaram os rostos, o breu já voltara. Encaravam-se sem ver, até que novos fogos ganharam o ar, mas dessa vez ninguém desviou o olhar.

A luz que tomou conta do céu, permitiu que uma enxergasse apenas metade do rosto da outra, mas era o suficiente. Uma se viu perdida no olho mais azul que já vira na vida; a outra se perdeu no castanho mais brilhante. As luzes cessaram, o breu voltou, ninguém se moveu. As respirações entrecortadas eram a única garantia de que compartilhavam o local. Seus ouvidos voltaram a ser tapados pelo pulsar do coração de cada uma.

Um baque distante fez a audição de cada uma, voltar gradativamente. Outro estalo. No terceiro se deram conta. Tiro. Quem quer que tenha caído com a pancada na cabeça, se levantara. Um último clarão fez com que as metades de seus rostos se reencontrassem. Uma última olhada no azul; uma última olhada no castanho. Um meio sorriso de um lado; meia boca aberta do outro. O silêncio e a escuridão novamente. Um outro tiro quebrando a calma da noite, pés apressados em duas corridas às cegas.

L'amour en Bleu et NoirStories to obsess over. Discover now