Theodore Barton é um garoto gay com dificuldades de expressar suas emoções e lidar com as pessoas. Carregado de pesadelos com alguém que ele ainda não conhece, cada dia parece um peso até que um incidente muda tudo.
Regina Pearson leva sua vida da...
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Me reviro na cama como uma criança de 5 anos. Mais uma daquelas noites em que acordo daquele terrível pesadelo e não consigo mais dormir. Pingando de suor e totalmente ofegante, com o cobertor parecendo estar em chamas. As imagens nunca ficaram totalmente claras. Só sei que nele eu estou correndo por uma rua desconhecida repleta de árvores mortas em todas as casas e há uma tempestade caindo dos céus. O sentimento é de puro pânico, desespero e receio por algo que não tenho ideia. Então me viro e vejo um rosto masculino extremamente pálido e vermelho. Sai sangue de sua boca carnuda e rosada, e meu coração pula incansávelmente temendo por ele. Como se tivéssemos algum tipo de conexão que transpassa a famigerada empatia. - Theo…- Ele mal consegue pronunciar as palavras antes de cair e então algo me acerta por trás me fazendo cair no chão. Tudo o que vejo a partir daí são as gotas de chuva e uma dor que me faz querer gritar tão alto que rasgue minhas cordas vocais. E sempre acordo com uma maldita dor na coluna, bem no lugar onde fui atingindo enquanto dormia. Sorte que parei de gritar, assim não preocupo muito meu pai. Seu coração é fraco e eu já tive episódios de pânico bem fortes no passado. Não quero nunca mais trazer nenhum tipo de situação que faça o velho ter outro infarto. Pego meu celular e vejo que já está quase amanhecendo. Desisto e me levanto, indo para o banheiro e tomando um banho rápido. Faço a higiene matinal em seguida, colocando alguma roupa social e me preparando pra escola. O clima em Los Angeles não contribui muito com meus casacos nessa época do ano, então me contento apenas com uma blusa polo azul. Quando desço encontro papai fazendo panquecas. - Bom dia, garoto. Vê se come algo antes de sair - Ele diz, pegando um prato e despejando uma das massas. Assinto. - Bom dia, pai. - E então me sento, comendo bem rápido como de costume. - Um dia ainda vai engasgar - Ele ri, se sentando do outro lado da mesa e comendo também. Tento ser simpático e faço o mesmo. A arte de comer rápido e não morrer é pra poucos. Recebo uma mensagem de minha melhor amiga e me levanto com a mochila nas costas. - Tenho que ir, Alicia tá me esperando. Até mais tarde. - Até. Boa aula, garoto - O grisalho diz, e vou até a o portão onde a garota dos cabelos avermelhados e olhos castanhos me espera dentro de seu gipe esverdeado. Alicia Golden é minha melhor amiga desde bem pequeno. Sua pele meio morena e corpo violão sempre atraiu o olhar da maioria dos caras da nossa escola e também a inveja/discórdia das meninas. Tinha tudo pra ser aquela patricinha dos filmes mas na real tem um jeito único que a faz ser especial. Seu único defeito está na vida amorosa, tem uma queda por problemas. Me sento no banco do carona, deixando a mochila no de trás. Ela sorri e me dá um beijo na bochecha. - Que saudade do meu menininho. Agora me diz, como foi o verão? Abaixo o rosto, tentando não lembrar de algumas coisas. - Maneirinho, nada demais. E o seu? Como foi em Seattle com seu pai? - Disfarço, mas ela repara. Ela sempre repara. Sua expressão fecha no mesmo momento e lança um olhar mortal, mas não direcionado a mim. - O que o idiota do Hodges fez agora? - Ela desvia o olhar, desligando o carro por um momento. Suspiro. - Nada, só uma festa em que ele foi idiota o suficiente pra começar o verdade e desafio e então quando eu vi tava quase topando beijar uma menina do terceiro ano que nem sei o nome - Não consigo controlar meu tom, e deixo transparecer minha raiva sem querer. - Mas tudo bem, é só Tristan Hodges sendo Tristan Hodges. Nada novo. Alicia bota a mão em meu ombro. - É, meu amor. Quando se trata de homens, você sempre toma más escolhas. Esperemos que conheça alguém decente esse ano. Suspiro outra vez e sorrio. - Você também, meu amor. Tristan e eu nos conhecemos na oitava série, mas pra mim (e pra todos) ele sempre foi hétero. Tem todo o estereótipo, tira fotos na academia, fala de futebol e suplementos com seus amigos. Nunca trocamos muitas palavras até o baile de formatura. Encontrei o garoto chorando nos cantos das arquibancadas e quando percebi seus lábios estavam nos meus e minhas mãos tocando seus lindos cabelos cacheados. A coisa nunca esquentou totalmente depois disso, mas não deixamos de nos pegar quando a oportunidade apareceu. Sempre trocamos mensagens românticas mas nunca admitimos nada real, então todo o ciúme que sinto dentro de mim teve/tem que permanecer escondido, assim como o fato de ele gostar de meninos. Boto os fones de ouvido o resto da pequena viagem até quando finalmente chegamos ao desfile de moda que é o primeiro dia de aula. Nunca fui muito fã, mas Alicia sempre foi obcecada em parecer perfeita na pequena semana. A garota estaciona o jipe e ambos saímos. -x- Até que as aulas são agradáveis, não demoram tanto como geralmente acontece um pouco antes do verão. Revejo alguns conhecidos na hora do intervalo e quando o fim chega, Alicia tem que sair antes pra poder buscar sua irmã pequena na escola, esquecida novamente pela mãe. O que significa que estou sozinho, e não afim de voltar de ônibus e encarar metade da minha turma novamente. Uma caminhada me fará bem, tenho certeza. Boto os fones de ouvido e deixo que a música faça o tempo passar mais rápido. Dancing with a stranger do Sam Smith e da Normani começa a tocar e por um momento não consigo controlar minhas pernas, chamando até a atenção involuntária de algumas pessoas na avenida principal. Fico meio desconcertado e vou fazer a passagem para o outro lado da rua. Tudo acontece bem rápido. Ouço o barulho de freios não muito longe e vejo o carro vindo na minha direção como se fosse em câmera lenta mas ao mesmo tempo não. Minha reação corporal e colocar as mãos na frente e recuar com o resto, mas por um lapso de momento percebo que nada disso vai funcionar. Então apenas fecho meus olhos. Um clarão toma conta e só sinto o puxão e a sensação de estar caindo, mas apenas por um breve momento. Ao som de Dancing with a Stranger, tipo quê? Demoro meio minuto pra perceber que estou deitado ou apoiado sobre algo, e quando abro meus olhos sinto minha circulação parar. Arregalo os mesmos, reconhecendo os olhos esverdeados do garoto de meu sonho. Capto todos os seus detalhes, desde o maxilar semi definido até os cabelos ondulados louro acinzentados. Ele retrai seus lábios como se estivesse angustiado e me solta, sinto meu corpo chacoalhar de emoção jogado pelo chão. Algumas pessoas vem a meu encontro perguntando se está tudo bem, inclusive o motorista que quase me atropelou. Apenas me levanto, sem responder nada e procurando pelo garoto dos sonhos que acabou de salvar a minha vida na realidade.