A Decisão de Daniel

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Daniel estava de joelhos, com as mãos para trás e cabeça, olhando para baixo. Chovia levemente e o clima ficava cada vez mais frio. Estava sem camisa, apenas com sua calça jeans, e descalço. Sua esposa estava a esquerda. Também de joelhos e olhando para o chão, porém, com um vestido branco. Manchado pela sujeira do lugar. Ela tremia. Por favor, implorava Daniel. Ela tremia e olhava de soslaio para Daniel que não escondia as lagrima parcialmente camufladas pela chuva. Por favor, suplicou novamente Daniel. Quatro homens estavam ao redor. A maioria com tom de pele escuro. Exceto por aquele que perecia ser um garoto ainda. Este, olhou para Daniel e demostrava superioridade. Daniel sentiu o cano da arma, frio, solido, na sua nuca. Um calafrio correu por sua espinha. Olhou brevemente para sua esposa, Anna, também sob a mira de um revolver. 

− Por favor. Eu não sei. Foi tudo coincidência. Eu juro. – disse Daniel, segurando o choro. 

− Cala a boca! Acha que nós acredita? Você caguetou e vai morrer. – todos riram e xingaram. E outros incentivavam para matar logo. 

− Podemos... 

Antes de terminar a frase, Daniel ouviu um tiro, pensou que sua vida houvesse chegado ao fim, mas imediatamente ouviu um som abafado de algo caindo no chão. Não quis olhar para o lado. Seu coração, por mais que parecesse impossível, bateu ainda mais forte. Pressionou os dentes, mostrando-os. Seu olhos arregalados olhavam para o nada. 

− Desgraçados! Eu vou matar vocês! Vou matar cada um de vocês! Seus filhos da... 

Tudo estava escuro. Era possível sentir-se no vazio. E ao mesmo tempo, envolto por alguma coisa, ou sensação apenas. Daniel tentava abrir os olhos, sentia que o fez, mas ainda era tudo escuro. Uma luz. Um ponto no horizonte. Crescia progressivamente. No instante seguinte, estava bem a sua frente. Tudo era iluminado, mas vazio mesmo assim. Daniel não conseguia olhar suas mãos. Ele existia ali. E apenas isso. 

− Daniel – ouviu sem saber de onde viera o som. 

À sua frente teve o vislumbre de uma lugar bonito, sem descrição possível, viu sua esposa e filha. Uma alegria encheu seu ser juntamente com uma saudade desesperadora. Elas sorriam, olhavam em sua direção. Ele as via, mas elas não estavam ali. Lembrou de sua vida feliz com elas. Mas um pesar surgiu. Uma lembrança. Rostos sorridentes, gargalhadas, armas. Não via seu corpo, mas sentiu como se seu peito ficasse pesado. 

− Daniel − Novamente ouviu. Agora parecia vir de cima. E era uma voz entre o feminino e o masculino. − Não permita, Daniel. Se liberte de todo sentimento destrutível. 

Um ser iluminado, praticamente feito de luz, apareceu. Se aproximou lentamente dele e os tocou no queixo. 

− Entendo sua dor, sua raiva. Mas precisa se libertar, se quiser viver uma nova vida junto dos seus. 

Daniel olhava para o ser com olhos bem abertos. Fechou os olhos e franziu o cenho e virou o rosto. 

− E aqueles que nos tiraram a vida? 

− Eles não importam mais. Ficaram para trás. 

Daniel lembrou de seus sonhos, planos feitos cuidadosamente com Anna. A angustia aumentou. 

− Daniel – disse o ser. ¬– Não permita, Daniel. 

Daniel sentia. Eles tinham que pagar. Como ser feliz, sem justiça? Ele as amava. Mais do que tudo, mas do que sua propria vida. Mas homens cruéis as assassinaram e isso era imperdoável. 

− Não... – disse Daniel. – Eu não os perdoo. 

Daniel se sentiu sendo arrastado. E como se caísse em uma piscina de temperatura indefinida. Estava em sua casa. Estava tudo escuro, apenas com a luz artificial do poste iluminando parcialmente a sala. Como vim parar aqui, pensou. Percebeu que conseguia ver seu corpo. Sua pele negra, porém opaca. Não usava roupa, mas seu corpo não possuía sexo. Toda a informação estava deixando ele sem saber no que pensar e o que fazer em seguida. 

− Daniel, vamos embora. Ainda dá tempo. – apareceu o ser de luz. Com uma silhueta humana. Nada além disso era possível notar. 

− Me deixe em paz... – Daniel aos poucos se concentrava. Sua raiva crescia, mas isso era a única coisa que ele conseguia controla, mesmo que pouco. 
Daniel tentou se mover, mas era difícil, as leis da física não existiam para ele. 

− Daniel. Prefere perder sua salvação para buscar vingança? 

− Não é vingança. É justiça – Daniel tentava se mover, com pouquíssimo êxito. 

− Não lhe cabe fazer justiça, Daniel, não mais. 

− E quem fará? O Todo Poderoso? – disse Daniel em tom sarcástico. – Me diga. Eles podem me ferir? 

− Há formas de te atingirem. 

− Com armas? 

− Não. Nada que se valha de ataques físicos lhe fará qualquer efeito. 

Daniel já conseguia se mover consideravelmente. Por costume mexia as pernas, mas descobriu rapidamente que poderia se mover sem mexer qualquer parte do corpo. Atravessou a parede da sala para o quarto que era de sua filha. Pressionou os lábios e franziu as sobrancelhas ficando cabisbaixo. 

− Não faça isso consigo mesmo, isso apenas lhe trará, mais dor e sofrimento. 

A raiva crescia dentro de Daniel. Ele lembrava das risadas e do som do corpo de sua amada acertando o chão. O olhar de superior do assassino. Não queria saber quais as consequências que levaram aquele rapaz àquela vida. Ele também sofrera na vida. Nada que possa ter acontecido ao rapaz justificaria aquele ato. Ele iria pagar. Assim como todos os outros que estavam no local. Daniel soltou um grunhido. Uma mistura de ódio e lamento. Fechou as mãos, levantou os braços e os abaixou bruscamente contra a cama de sua filha. A madeira rachou deixando a cama entortada. Daniel olhou para a cama danificada, olhou para suas mãos e braços e voltou a olhar para a cama. 

− Viu só? Viu o que consigo fazer? 

− Não faça isso, Daniel. Vamos embora. Ainda há tempo. 

− Não! Vou acabar com a vida daqueles malditos. 

Daniel se esforçou e conseguiu se mover por grandes áreas, saiu de sua casa e deu uma volta na rua. Conseguia ver toda a comunidade da qual fazia parte. As pessoas andando na rua voltando do trabalho. O céu estava carregado com nuvens e as estrelas completamente escondidas. Via também, aqueles que faziam parte das grupos criminosos, as pessoas que subiam para comprar drogas. Os entregadores em suas motos se arriscando para levar as compras dos mais variados tipos. Desde remédios até pizzas. 

− Eu poderia entregar os pontos para a policia. Seria o fim desses vermes. Não precisaria matar todos. Apenas... ajudar a policia a fazer seu trabalho. 

− Esqueça isso tudo. Você não consegue falar com os vivos. Não se quiser ir ao paraíso. 

− O que quer dizer? Tem como então? 

− Esqueça isso, Daniel. 

− Deixa pra lá. Descobrirei sozinho. Aprendi a me mover... Quanto tempo tem desde que morri? 

− Três dias. O tempo passa de fora diferente no plano espiritual. 

Daniel aproveitou seus poderes que seu estado lhe proporcionava, passeou por toda a comunidade. Pelos becos, onde boa parte dos criminosos passeavam. Viu operações da policia nesse meio tempo. Mas nada com resultado significativo. Pela manhã, passou pelo campinho de terra, onde as crianças jogavam bola. Entrou em algumas casa onde viu um casal de vizinhos em momentos íntimos. Se sentiu incomodado pela presença do ser de luz. E deixou o local. Daniel passou uma semana observando tudo que conseguia. Quase parou em outra cidade, mas teve que manter o foco. Sabia onde o homem que matou ele e sua familia estava. Mas queria descobrir onde os outros moravam. Sem sucesso, resolveu procurar o jovem de olhar superior. Não que ele fosse o único assim, afinal, a maioria andava como se destemido, imortal, mas aquele olhar ficou na cabeça de Daniel. Demorou, mas Daniel o encontrou e o seguiu para todo lado. Cada vez mais e mais sua raiva por ele crescia. Queria estrangulá-lo com as próprias mãos. Mas sua raiva tinha um limite, ele ficava com tanta raiva que, às vezes, ela parecia sem sentido, e diminuía transformando-se em tristeza. 

Durante a madrugada, a policia iniciou uma operação. Era a busca e captura de um foragido. Houve troca de tiros. Daniel, viu o rapaz, pegar a arma, falar com outros comparsas e seguir para um beco. O rapaz se deparou com um policial e abriu fogo, correndo em seguida. O policial revidou. O jovem se escondeu em uma curva que dava para um portão no meio daquela passagem toda irregular. Era possível ouvir gritos e tiros ao longe. Claramente o jovem queria fugir, era arriscado demais trocar tiro com a policia naquele lugar. 

Daniel percebeu a situação. O policial, com seu fuzil, avançou com cautela. O jovem tentou correr, mas antes que desse o terceiro passo, Daniel se jogou me sua direção com toda raiva e vontade que possuía. O jovem sentiu como se água caísse com muita força sobre ele, se cambaleou, praticamente parou de correr. 

O policial, aproveitou e disparou. O tiro acertou as costas do jovem que caiu, mas se levantou e correu, virando a esquina, apenas para cair novamente dez metros à frente e ficar deitado. 

− Daniel... – lamentou o ser de luz. 

O policial falou ao seu comunicador e momentos depois, mais policiais chegaram ao local. 

− Vejo que não ama sua esposa e sua filha... – afirmou o ser de luz momentos depois. 

− Quem é você para dizer isso? – desafiou Daniel, se levantando e encarando ele. – Você viveu como um humano? Passou pelas merdas que pessoas pobres como eu e minha familia tiveram que passar? Se tivesse passado, não diria essas coisas... Eu era pintor! Não te tela. De parede. Pintava casas, das mais variadas. Me dedicava, sacrificava finais de semana, feriado... Mas consegui construir uma casa com o dinheiro que eu e minha esposa juntamos. Eu e minha esposa saímos do aluguel, tivemos nossa filha, Clara. Éramos felizes. Meu erro foi ter construído nossa casa em um lugar com tráfico de drogas... O preço do terreno era bom... Fiquei cego pelo vontade de me livrar do aluguel. Coincidentemente, na mesma época, a policia fez uma operação que prendeu o chefe do tráfico e deram um fim nele na cadeia, pelo que ouvi. Foi perfeito, sabiam onde e quando encontrar todo mundo. Os poucos que fugiram, depois de muito tempo, voltaram. Depois de várias disputas posteriores pelo ponto de venda de drogas, decidimos nos mudar. A gente não era muito de interagir com o pessoal. Por isso sabiam pouco sobre a gente. Mas foi o suficiente para boatos começarem. Depois de um tempo, começaram a olhar com desconfiança para a gente e evitar falar com a gente. Então, minha filha foi atingida em uma troca de tiros... Nosso inferno começou aí... Minha esposa tinha amigos cujo os pais era policiais. Eles nos visitaram como se fossem civis comuns. Mas alguém os reconheceu. Só pode ter sido isso... Bom... O resto da história nós sabemos... Vim parar aqui... 

O ser de luz nada disse. 

− Ver a pessoa que você ama morrer do seu lado e você não poder fazer nada. Pensar em pedir para te matarem e a pouparem, mas não saber o que farão com ela após você morrer. Por causa disso, sentir, da forma mais repulsiva, um alivio. Alivio por saber que não farão coisa pior com ela. Apenas por desespero. Não consigo descrever como eu quero que esses desgraçados sofram. 

− Daniel, eu posso te levar para sua esposa e sua filha. Podem ser felizes. Posso fazer com que isso tudo fique para trás. 

− Pode mesmo? Então porque não faz? 

− Preciso que me permita. 

− Escute bem, a única forma de evitar tudo isso, de me tirar dessa merda onde fui colocado, é me levar a força. 

Daniel partiu para a casa do homem que tirou a vida de quem e ele amava. Inicialmente pensou em matar os outros primeiro, mas não tinha mais paciência, não poderia esperar mais. Ele morreria o quanto antes. Os outros iriam depois sem pressa. Daniel entrou em sua casa e lá estava ele. Assistindo um jogo. Era domingo e esse era o programa de muitas pessoas. Daniel observava cada detalhe. Seu alvo estava no sofá com capa florida. Havia latas de cerveja próximas aos sofa, muitas abertas. Seu alvo segurava uma lata e xingava os jogadores do time para o qual torcia. 

Um jovem entrou na sala. 

− Qual é, Robinho, Nenê está te chamando. 

− Ah, cacete! Estou vendo o jogo! Já falei para ele o que tem que fazer. 

− Vamo lá, na moral. 

Robinho levantou e deixou a sala proferindo vários palavrões. Seu comparsa o seguiu. Daniel reclamou pela oportunidade perdida. O ser de luz pediu para que desistisse, mas Daniel não deu ouvidos, pois sabia que haveria mais oportunidades. 

O clima havia mudado e uma leve chuva começara a cair. Robinho voltou resmungando e soltou mais palavrões ao ver que seu time havia sofrido um gol. O desgraçado vive como se nada tivesse acontecido, pensou Daniel. Daniel se aproximou pro trás do sofá e colocou a mão próxima ao ombro de Robinho que estava sentado no sofá. Robinho se virou e olhou para trás, Daniel se assustou e Robinho levantou, andou até a janela e a fechou. 

− Frio da desgraça! – reclamou voltando ao sofá e se ajeitando. 

Daniel lembrava das risadas como se tivessem sido ouvidas naquele mesmo instante. Ele pensava naquele momento, na promessa que havia feito e em sua volta para cumpri-la.
  − Parece que a promessa é mais forte que a morte. – Disse Daniel. 

− Há muitas coisas mais fortes que a morte, no entanto, quase nenhuma é boa. 

− Isso com certeza é. Me permitiu cumprir minha promessa. 

− Desista, Daniel. 

− Irei com você quando tiver feito o que voltei para fazer. 

O ser luz aumentou o tom e o brilho que emanava de seu ser aumentou paralelamente. – Escute bem, Daniel. Você fez sua escolha de deixar o ódio te guiar. Você causou a morte daquele jovem. Mesmo assim, eu posso implorar pela sua alma. Porém, eu lhe advirto, se matar este homem, não haverá lamento e penitencia que te salve. Nada poderei fazer. 

O tiro se repetia na cabeça de Daniel. De novo e de novo o barulho do corpo caindo ao chão. O olhar do jovem, as risadas, o choro de sua amada. Aquilo fez com que o ódio dentro de Daniel aumentasse. Lentamente, pôs suas mãos em volta do pescoço de Robinho. Robinho levantou comemorando um gol de seu time. Daniel permaneceu parado e com as mãos na mesma posição. Como uma estatua. 

Robinho voltou a se sentar e Daniel continuou, pegou ele. Conseguiu segurá-lo. Robinho se assustou e levou a mão ao pescoço. Um trovão encheu a sala com um estrondoso clarão. Robinho tentou tocar no seu inimigo, mas suas mãos passavam por Daniel. Robinho lutava por ar. Tentava gritar, mas ninguém o escutaria. 

− Não haverá misericórdia, Daniel. Pare imediatamente. – disse o ser de luz se aproximando para tentar impedi-lo. 

− Afaste-se de mim! – ordenou Daniel. – Quando mais precisamos, o que você fez? Nada! – o ódio crescia em Daniel a cada palavra proferida. Queria que Robinho o visse. Como desejava... Mas de certa forma, era prazeroso ver o medo por não compreender quem seria seu executor. O desespero nos olhos de Robinho, o confortava. O ódio, de selvagem, se tornou cruel, calmo, planejado. 

− A escolha foi feita... – disse o ser de luz – Não há o que fazer... 

− Sim... – disse Daniel com satisfação na voz e com olhos arregalados. Choraria se pudesse. Daniel viu o ser de luz ficar cada vez mais opaco. 

− Se quer ser util, − disse Daniel voltando seu olhar para o ser de luz – diga à Anna que seu assassino está no inferno. 

O ser de luz ficava mais e mais opaco sem proferir uma só palavra. De repente, sombras apareceram e se aproximaram de Daniel. 

− Que são vocês? – exigiu saber Daniel. 

Nada disseram, apenas seguraram seu braço e puxaram para baixo. Suas mãos queimavam. Daniel se assustou. Como sentiria tal sensação se não estava vivo? Começou a sumir do plano dos vivos. A medida que sumia, via tudo se apagar. Ouvia sussurros. 

− Anna! Clara! Eu as verei novamente! Eu amo vocês! − Daniel gritava enquanto já quase não era possível ver mais o quarto, o plano dos vivos. – Anna, eu te amo! Clara, papai te ama, meu bebê!
  Daniel foi puxado para o chão, expulso do mundo dos vivos. Naquela sala. Deixando apenas o corpo caído no sofá florido, uma lata aberta no chão molhado de cerveja e a televisão mostrando jogadores comemorando um gol.


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⏰ Last updated: Feb 12, 2019 ⏰

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