Era uma tarde quente, como a maioria das tardes naquela estação. O sol brilhava imponente já próximo ao horizonte, e poucas nuvens ousavam cobri-lo. O único refresco era a leve brisa da noite que se aproximava e a grande sombra das árvores.
Tara apreciava feliz as flores do bosque. Fazia um bom tempo que ela não descia até o rio, aquelas árvores haviam crescido muito, agora já sussurravam palavras indecifráveis ao ar; pareciam alerta-la de algo. A vegetação crescia livre juntos às flores da margem, por uma pequena clareira ela podia ver a Aldeia ao longe, as fazendas mais perto com campos verdejantes mesmo no calor do verão e até um moinho sendo construído logo onde o rio chegava a planície. Àquele povo não sabia de sua existência, nem dos outros na Tribo, mas ela precisava deles assim como eles precisam dela.
Risos de criança a acordaram de seu devaneio. Por um segundo ela tinha esquecido que seu filho também estava ali. Daqui a alguns dias ele completaria quatro anos, pequenos cachos dourados já chegavam a seus olhos, iguais aos dela, verdes e intensos. Havia uma libélula pousada em sua mão, ele ria mas não mexia um dedo sequer. Tara tinha certa inveja, naquela idade tudo despertava graça das crianças. Mal sabiam o quão cruel o mundo poderia ser.
A libélula finalmente voou e Liam só então percebeu que cardumes enormes de peixes nadavam tranquilamente pelo rio. Sua expressão era de quem estava vendo aquilo pela primeira vez. — São tão lindos, posso pegar mãe?
— Você pode tentar querido — respondeu Tara. — Mas eles são rápidos e espertos, dificilmente você vai alcança-los, com uma rede conseguiria pegar vários. E pode parando aí mesmo — ela segurou seu braço. — A água é perigosa filho, e você é pequeno demais.
— Mas... — ele estava aborrecido, sua vontade era claramente entrar no rio atrás dos peixes. — Um dia eu serei como o papai — falou por fim.
— Claro que será — ela respondeu afagando seus cabelos.
A agitação nas árvores mais ao interior do bosque parecia ter aumentado, mas Tara não se importava. Era a primeira vez que ela trazia seu filho para fora da Tribo, a primeira vez que ele conhecia o bosque e o rio e a calmaria daquele lugar. O tempo foi se passando enquanto os dois andavam sobre as milhares de pedras da margem. Liam frequentemente ria de algo e Tara mostrava tudo que ele não conhecia. Como algumas plantas que só cresciam ali e pássaros que se escondiam entre os galhos das árvores.
Um galho quebrou no interior da floresta, um barulho abafado mas inconfundível. Isso foi o bastante para paralisar Tara. No mesmo instante as vozes vindas das árvores recomeçaram. — Tara... Volte... O tempo corre... Agora... — dessa vez ela pode entender o que diziam, pegou a mão de Liam, que não devia ter ouvido nada e falou: — Vamos voltar querido, já está ficando tarde.
— Mas já mãe? — sua voz estava entristecida. — Eu queria ir mais longe.
— Desculpe — ela sorriu gentilmente. — Prometo que vamos voltar, mas agora precisamos ir.
Liam por sorte concordou sem fazer drama. Ia quase correndo para alcançar os passos da mãe. As vozes continuavam a repetir as mesmas palavras, agora mais rapidamente, em um tom de urgência. Tara não sabia o que estava acontecendo, mas desde criança lhe avisavam sobre não desobedecer aquelas vozes; os seres da floresta viam coisas que os humanos não podiam ver.
Eles já estavam na metade do caminho de volta, Liam reclamava o tempo todo de estar cansado, e de um cheiro de cachorro molhado que sua mãe não conseguia sentir. Foi quando Tara viu, como um flash rápido e intenso: sangue espalhado pela grama, dentes afiados, algo chocando-se contra a água do rio.
O desespero tomou conta de dela. Tara sabia o que significava, teve visões a vida toda, a morte estava chegando. As vozes agora estavam em sua mente: — Corra... Salve-o enquanto há tempo... Corra...
Tara andava o mais depressa possível. Liam que não entendia mais nada já estava no colo da mãe, suas pernas eram curtas demais para aquilo. Ao longe podia-se ouvir o som de galhos partindo. Tara já podia ver ao longe as luzes da Tribo quando Liam falou: — Mãe... — sua voz era sombria para um criança. — Do outro lado do rio, tem... Parecem olhos — ele mostrava com o dedo.
Tara se virou rapidamente e também viu, na outra margem do rio, entre as árvores, haviam dezenas de olhos reluzindo nas sombras. Agora mais que nunca ela sabia, já era tarde demais. Desceu então Liam de seu colo e lhe disse com firmeza enquanto segurava sua mão: — Corra filho, volte e chame seu pai.
— Mãe, o que são eles? — Liam perguntou. Havia assombro em sua voz. — Você vai ficar?
— Não são nada querido, eu vou logo atrás de você. Só corra e não olhe para, trás tá bom? Eu te amo.
— Eu não...
— Agora Liam — Tara o interrompeu. E então ele foi.
Ela virou-se para trás, iria encarar seu destino, mas não sem antes ter certeza de que seu filho estaria a salvo. Aqueles olhos, como ela tanto temia, eram lobos. Estavam atravessando o rio lentamente, mostravam dentes enormes e afiados; sabiam que a luta estava ganha
Palavras eram recitadas por Tara, em uma língua tão antiga quanto as primeiras pessoas que pisaram naquela terra. Ela caminhava em direção aos lobos de cabeça erguida, não seria tão fácil. Um grito saiu de sua garganta, forte o suficiente para balançar as folhas das árvores próximas e ser ouvido a quilómetros dali. O grito não afetou os lobos, Tara sabia que não aconteceria, mas isso era o suficiente; seu filho estaria a salvo. Os lobos rosnaram como se achassem graça, e atacaram.
Liam não podia ouvir direito o que estava acontecendo, aquele grito foi de sua mãe? Vultos cinzentos se moviam no rio, quase prateados com a luz da lua. Pareciam se aproximar. Ou eram vozes que se aproximavam? A última coisa que ele viu foram linhas negras queimando em sua mão, crescendo na forma de uma árvore. Antes de tudo virar nada.
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O Olho
FantasyEm uma simples aldeia de tempos já perdidos, tudo está prestes a mudar. A famosa Floresta Assombrada pode se mostrar cheia de vida, das montanhas virão inimigos e de todos os cantos lendas surgirão. No meio de tudo isso um garoto que pensava conhece...
