Prólogo: Love, Sorry...

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Consegui enxergar a escuridão, na verdade, não enxergava nada, mas sentia um frio imenso. Com meus braços pequenos e perninhas gordinhas, tentei puxar para cima o cobertor e senti que estava sozinho na imensidão que aquela cama de casal parecia ser. Escutava algumas vozes rondando o andar de baixo, e com a manha de uma criança de três anos, desci as escadas resmungando algo que chegava perto de "mamãe".

Cada passo pareciam dez, e com perninhas tão curtas não se chegava tão longe quanto eu esperava. Enfim, o final da escada. A luz verde da televisão iluminava a sala, o volume parcialmente alto. Cocei meus olhinhos na intenção de enxergar um pouco melhor, e queria que não o tivesse feito. Dei mais um passo à frente e senti algo molhar minhas pantufas de ursinho marrom claro. O líquido penetrava meu calçado e molhava a sola dos meus pés, parecia algo bem consistente e estranho de explicar, e então, eu olhei para baixo. Pode parecer inusitado e difícil de acreditar que eu não tenha visto antes, mas foi tudo tão rápido. Eu tinha apenas três anos, uma criança, a única certeza que eu tinha na vida era de que minha mãe me amava e estaria do meu lado, e agora aquilo não era mais uma certeza. Não era mais uma realidade, não era mais nada.

Senti algumas lágrimas correndo por meu rosto, e a única coisa que eu conseguia enxergar era meu padrasto, mais uma vez bêbado, com aquela garrafa verde quebrada nas mãos e chorando como se sentisse algum remorso do que acabara de fazer. Eu conseguia ouvir certa agitação na rua, pessoas conversando amontoadas. Hoje eu sei que foi por causa dos gritos e ameaças que saíam altas da boca de ambos os envolvidos. Eu não ouvi, mas era suficiente para que alguém ouvisse e chamasse a polícia. As luzes vermelhas e azuis agora se aproximavam, pessoas cochichavam cada vez mais alto, minha cabeça rodava, homens grandes e armados entravam e saíam da minha casa, enxerguei dois deles algemarem a pessoa que fazia minha mãe sofrer por tanto tempo e agora tinha chegado ao extremo.

- Ei, vai ficar tudo bem. - Um deles se aproximou e apoiou a mão em meu ombro, eu já soluçava e nem percebia.

- Vamos te levar para um lugar seguro, onde ninguém pode te machucar.

Mentira.

- E-eu quelo a minha mãe - Ele apenas suspirou, com o olhar mais penoso que conseguia, me segurou nos braços, então eu me agarrei nele e chorei em seu peito enquanto me levavam para a viatura. Depois disso, tudo estava destinado a dar errado.

Love, Sorry...Where stories live. Discover now