Capítulo Dois - O vocalista relutante

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Na manhã de domingo, Jorge estava ausente quando despertei na cama de Nicole. Eu explico quem é a fulana. Acontece que Raquel dividiria o apartamento com essa amiga dos tempos de infância, porém as duas não se viam há mais ou menos quatro anos, desde que a tal Nicole havia se mudado para Atibaia com a mãe e as duas tias. Não sei maiores detalhes, isso é tudo que consegui prestar atenção quando Raquel tagarelava sobre essa amiga (inúmeras vezes).

– Ainda está deitado? – Raquel invadiu meu quarto provisório.

– Raquel... – resmungo sonolento – posso até me levantar, mas tem de sair daqui, estou só de cueca – defendo-me com as vergonhas cobertas pelo lençol cor-de-rosa.

– Grande droga!

Ela deu uma risadinha sem graça e, antes de sair, disse que tinha feito uma caneca de café com leite pra mim. Me levanto e visto as roupas, em seguida, vou até a cozinha.

– Por que você fica mais natural quando o Jorge não está por perto? – questiono petulante, me sentando à mesa.

Ela respondeu com o silêncio.

Jorge fazia o tipo manhoso, carente e baba-ovo, tudo no mesmo pacote, sim, senhor. Raquel o namorava há apenas três meses, e não fora fácil para o Jorge conquistar a garota, pois o infeliz é chiclete igual à irmã. Procedia no relacionamento com generosas doses de doçura e, às vezes, eu notava, parecia irritá-la (talvez estivesse ficando diabética do cara).

– O Jorge telefonou para você ontem – ela começou de repente, acho que para divagar de minha alfinetada – lembra? E daí o senhor desligou na cara dele antes de ouvir o motivo da ligação.

– Lembro – engoli mais café com leite – o que ele queria?

– Sei que vai dizer não, mas perguntarei assim mesmo! É sobre o teste para a banda que eu e o Jorge mencionamos há algumas semanas e...

– Ah, não! – interrompi sua fala – achei que vocês já tivessem desistido de me convencer. Não pretendo fazer parte de banda nenhuma.

– Sei bem disso, você já disse e redisse um milhão de vezes!

– Então, chega de insistir, certo?

Raquel fitou-me desapontada. Fazia alguns dias que o Jorge havia me contado sobre um rapaz da faculdade, um tal Guilherme. O cara pusera no mural do campus que procurava um vocalista para completar a sua banda de rock.

– Só estou pedindo que converse com esse Guilherme e faça um teste. Não custa nada e assim nós paramos de encher sua paciência, o que acha?

– Sinto muito, Raquel. Mesmo que eu faça um teste e seja aprovado pelo cara, não pretendo ser um músico, nem sei ao certo o que pretendo da vida e gosto de tocar guitarra, cantar e compor algumas canções apenas por diversão. E o tal Guilherme deve estar atrás de alguém mais profissional – ataquei de humilde.

– E se eu disser que talvez esteja jogando um dom na geladeira? – fez uma expressão durona.

Fitei-a com certa preocupação e após pensar um pouco, respondi:

– Vocês realmente acham que eu canto bem?

Raquel sorriu como nunca vi e assentiu com a cabeça.

– Suponha que eu tenha interesse, quando poderia falar com o Guilherme? – perguntei monotonamente, apenas por clemência a sua devoção.

– JURA?

Martini, O Pequeno DemônioStories to obsess over. Discover now