Capítulo 1 - 1990

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Parte I

Fevereiro chegava para anunciar o fim das férias escolares. Eu tomava chuva, dessas de verão a pino, deitado em cima do telhado de casa. Chuva era uma de minhas manias e me concedia uma paz que não encontrava, muitas vezes, nem na escrita e tampouco na música.

Volta e meia ia comprar meus discos na Galeria do Rock e toscamente tentava arrancar uns sons de ouvido na minha guitarra Yamaha de segunda mão. Estava com dezesseis anos e não era muito sociável com pessoas da minha faixa etária. Passava boa parte do meu tempo livre praticando guitarra e escrevendo bobagens.

Munido de trocentos discos, fitas cassetes de rock pauleira e heavy metal mais tapa na orelha ainda, juro que não almejava entrar para uma banda, apenas tocava a Yamaha bagaceira por diversão, despreocupado. Só havia arriscado mostrar uns solados (acreditava solar, de fato não o fazia plenamente) para uns amigos (apenas dois) e fiquei surpreso quando arranquei exclamações das mais positivas. Nunca soube entender essa voz que simplesmente, um belo dia, saiu da minha boca.

Também preciso dizer que não tenho muita vaidade. Aliás, meu pai sempre chama a minha atenção pelo modo molambento como me visto. Meus cabelos são um tanto aloirados e longos (bem longos, na verdade). Inúmeras vezes recorri ao boné para esconder o drama capilar. E como descrever meus olhos? Tenho heterocromia, essa palavra estranha serve para explicar cores oculares incomuns. Tenho um olho azul e outro castanho. A minha cara é corada igual uma pimenta, estando eu com vergonha ou não. E no quesito altura, sou mediano, com mais ou menos um metro e setenta e cinco.

Tenho uma gata preta, vira-lata, chamada Gótica. Achei-a ainda filhotinha, abandonada na rua, magrela e empestiada de pulgas. Hoje é gorducha e uma grande companheira.

Em frente a minha casa tenho vizinhas bisbilhoteiras, são as gêmeas: Suzana e Serena, que me espionam de binóculo quando me estendo no telhado para fazer nada. Crescemos neste bairro brincando de pega-pega, mãe da rua, esconde-esconde, taco e tantas outras bobagens que nem me lembro agora. Essas meninas têm a minha idade e uma irmã três anos mais velha, a Glória, que vive de amassos com o namorado em frente ao portão de sua casa.

E sobre os meus "amassos", olha, meu primeiro beijo foi aos treze anos, com Bruna, na época, também de treze. O problema é que ela é a irmã caçula do Jorge, meu melhor amigo. As gêmeas são minhas admiradoras, mas Bruna é gamada por mim. Só que não posso corresponder, afinal, se não der certo, como poderei continuar a frequentar a casa do Jorge? Bem, eu praticamente moro na casa do cara. No entanto, conheci-o por meio da Bruna, na escola em que estudo desde os sete anos.

Quando estava com onze e cursando a quinta série, entrou na minha sala uma aluna nova, ou seja, a Bruna. Na classe havia vinte e poucos alunos e por coincidência ela era a única mulata. Como criança também não perdoa nada, existia um famoso grupinho de bagunceiros, desses que há em todas as escolas e em todas as classes do mundo. Nem preciso dizer que eles começaram com provocações maldosas. Meu coração sempre foi de manteiga e fui o único que abriu a boca para defender a caloura. Para meu azar, a professora havia se ausentado por alguns momentos. Paguei caro pela minha atitude. Saí na mão com o cabeça dos insultos. Resultado: fomos parar na diretoria e nenhum de nós dois confessou o motivo da pancadaria, mas, alguns meses depois, os pais desse garoto o transferiram de escola e teve comemoração na minha sala. Talvez hoje ele seja um psicopata... ou não. Então, a partir daí, Bruna tornou-se minha sombra. A garota acabou gostando de mim até demais. Com a amizade dela passei a frequentar a casa do Jorge, seu irmão dois anos mais velho que nós. Vivian, a mãe deles, era uma fada madrinha na minha vida. Aos onze anos de idade tornei-me meio que um filho postiço, e a imaturidade não me permite retribuir tudo de bom que essa mulher faz por mim.

Martini, O Pequeno DemônioHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora