Após a refeição, Rayan sentia uma sensação boa no peito. E no estômago, claro - apesar da língua queimada.
Não conseguira falar muito com Hyun, o pobre tinha cerca de vinte mesas para atender sozinho, e ainda tinha que preparar as bebidas! O professor então resolveu não dificultar o trabalho do pobre. Entrou no local, deixou o pagamento no balcão com um bilhete e se despediu de Hyun, que lhe dirigiu um sorriso afável. Rayan saiu do estabelecimento, imaginando como seria o sorriso de surpresa do jovem ao notar a gorda gorjeta que deixou, junto com o bilhete agradecendo pelo bom atendimento e elogiando o chá e o bolo. Era algo meio idiota e estranho, mas quis fazer com que o rapaz se sentisse valorizado. Seu sorriso era tão doce quanto o bolo... Valia muito mais do que qualquer gorjeta. E um dinheirinho a mais é sempre bem-vindo quando se é um estudante universitário.
O sol já se despedia quando retornou ao trabalho. Não tinha mais aulas, apenas uma grande e desanimadora papelada para verificar e assinar - mas estava estranhamente animado para terminar o dia. Adentrou a sala e deu um olá para Palstry, que nada disse, apenas o observou esperando algo. Longos minutos se passaram.
- Rayan?
- Sim?
- O que houve?
- Hã?
- "Hã"?! Homem, você saiu daqui irritado e cabisbaixo, voltou como se tivesse conseguido um encontro dos sonhos! Aonde foi? - Palstry estava admirada. Rayan mal percebera a própria mudança de humor. Mais uma vez, IMBECIL E DISTRAÍDO.
- Ah... Eu só fui naquele café, o Cosy Bear. A comida de lá é ótima, me pôs pra cima. - Na verdade a comida era boa, porém nada muito requintado ou extraordinário demais. Mas era complicado dizer que se animou ao ver um lindo rapaz sorridente. Um rapaz estudante da Antheros. Palstry suspirou.
- Pena que todo mundo lá em casa está de dieta, senão eu comeria lá com gosto!
- Quando for possível, te pago uma ida lá. - Rayan sorriu ao notar o "sofrimento" da amiga.
- Homem, não brinca com isso que eu te deixo pobre... - riu e andou até a saída - Boa noite, se cuida, viu?
Se despediram e o homem se viu sozinho na sala. Deu uma espreguiçada, se levantou até sua bolsa e, do fundo, tirou um pequeno cantil prata de bebida e deu um gole. Se pôs a meditar na estranha e repentina mudança de humor hoje. Ultimamente tinha passado por uma grande pressão, um estresse insuportável, por conta da direção que insistia em mudar seu estilo de aula. Não tinha culpa alguma nisso! Sua aula era desse jeito e os alunos amavam e se saíam bem. E pra que jogar uma avalanche de livros caros na cabeça dos alunos? Fazer com que criassem calos nas mãos de tanto escreverem datas de pinturas e opiniões inúteis de outras pessoas no papel no lugar de prestarem atenção e participarem da aula? Que inferno...
Suspirou.
A doce imagem do Cosy Bear veio à sua mente. Era daquilo que gostava: um ambiente aconchegante, perfumado, e porque não romântico? Sim, romântico, fofo... Acolhedor como um abraço de um grande urso de pelúcia. E com direito a experiências sensoriais deliciosas, como o cheiro do pão saindo do forno, como o sabor e calor do chá - este último lhe deu uma pontada de desgosto por causa da língua (des)sensibilizada -, o delicioso bolo molhadinho e... Hyun.
Riu consigo mesmo.
Nunca escondeu de si mesmo a própria bissexualidade, como se tentasse abafar uma "fase". Pelo contrário, escondia mesmo era dos outros, que não sabiam respeitar uma questão natural inerente aos seres vivos.
"Somos capazes de tornar a água salgada potável e de ir à Lua, mas insistimos em não dar liberdade para que as pessoas vivam em paz. Temos muito o que evoluir."
Esse pensamento o fez lembrar de Oscar Wilde e de Alan Turing. Dois gênios com extremo potencial na literatura e na ciência que sofreram na lei por causa de suas orientações sexuais. O professor pensou que algo assim poderia ser um bom tema de sua próxima aula: como a repressão social dos desejos de alguém pode fomentar a criação artística... Ou doenças mentais como ansiedade e depressão. E síndrome de pânico.
"É melhor eu pensar nisso depois."
E se pôs a terminar a bendita papelada. Mas claro, em sua mente, um sonzinho irritante insistia em chamar sua atenção. Era como se sua consciência estivesse sussurrando "ei, você gostou do garoto. Vocês dois são maiores de idade, porque não o chama pra beber e vê no que acontece?"
Em sua mente, enumerava as respostas:
1. Eu só o vi umas duas vezes na vida;
2. Eu não sei se ele gosta de homens;
3. Mesmo se ele gostar, ele pode estar em um relacionamento com outra pessoa ou simplesmente eu não ser o tipo dele;
4. Ele é aluno da instituição onde trabalho e isso pode dar em muita merda se descoberto.
Numa tréplica, sua mente dizia:
1. "Ele é muito lindo;"
2. "Não custa nada apenas se aproximar dele;"
3. "Ele é um docinho de pessoa e deve gostar de comédias românticas e chocolate quente assim como você;"
4. "Você viu aquela bundinha, né? Eu sei que você está afim, esconde não! Rapaz, ele é todo gostoso!"
Espantou os pensamentos sacudindo a cabeça e fazendo uma cara feia, como se realmente fosse alguém conversando com ele. Olhou para o cantil.
"Tenho que beber algo com um menor teor alcoólico a partir de agora."
Olhou para o relógio e decidiu terminar de preencher os papéis em casa mesmo. Não queria andar por aí tarde da noite.
"Preencho uma parte hoje... E posso terminar no Café."
Riu com a própria contradição em não querer e querer demais se aproximar de Hyun. Afinal, sua consciência tinha razão. Ele tinha uma bunda linda.
KAMU SEDANG MEMBACA
Ursinho acolhedor
Fiksi PenggemarO professor Rayan se irrita com as críticas ao seu método de ensino e resolve sair para esfriar a cabeça. Se dirige até a um café muito elogiado pelos alunos, onde dizem servir um delicioso capuccino e bolo de pêssego, ou algo parecido, qualquer coi...
