Capítulo Único

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Quando criança minha mãe contava-me a mesma história, o conto era sobre um anjo de neve, que realizava desejos na época de Natal.

Mesmo sendo uma criança, quando ouvi a história pela primeira vez e outras vezes, nunca fiz nenhum pedido, sempre que minha mãe perguntava-me o por quê, eu  lhe respondia que não tinha encontrado o desejo certo.

E enquanto eu crescia, esqueci-me do desejo que tanto queria encontrar e assim, finalmente, desejá-lo, até aquela noite de Natal.

Eu e meu pai estávamos discutindo sobre o meu futuro no clã, como me destacava nas artes marciais, o velho queria que eu assumisse o posto de assassino do clã ou como mandante dos assassinatos, e eu, como sempre, me recusava a seguir essa vontade dele.

Mas essa briga foi o estopim para o velho Shimada, ele me expulsou do clã, segundo ele, um filho que não queria seguir as tradições do clã, não merece ter o sobrenome Shimada.

Depois desse discurso me retirei do castelo Shimada, do mesmo jeito que a briga fora um estopim para ele, foi para mim também.

Por conta da raiva que sentia, não percebi os assassinos que perseguiam os meus passos com os olhos, por um descuido meu, eles atingiram o objetivo deles com sucesso.

Enquanto estava jogado no meio da neve, com os últimos resquícios de vida, lembrei do antigo conto que há muito tempo havia esquecido, não me lembro do porquê ter feito um desejo logo naquele momento, talvez fosse a esperança de poder viver, independente do motivo eu fiz um pedido ao anjo, “Quero continuar vivo”, depois disso só me lembro de fechar os olhos então via pequenos flocos de neve caírem.

                               ***

Quando abri meus olhos não reconheci o lugar em que me encontrava, diferente das ruas gélidas de Hanamura, eu estava em um quarto com paredes de gelo, decidi levantar de onde me encontrava e quando olho ao redor percebo que não estou sozinho.

De costas para mim, estava uma mulher e em suas costas havia um par de asas, com penas brancas como a neve de Hanamura e junto dessas plumas estavam pequenos flocos de neve, mas sua coloração azulada me causava a incerteza se eram mesmo de neve ou gelo. Mesmo surpreso pela presença dela chamei-a.

—Q-Quem é você? — Minha garganta estava seca e a língua parecia que tinha sido usada de ninho por um escorpião.

Quando a figura se virou, vi o quanto os seus olhos azuis combinavam com seus cabelos loiros, e estes estavam presos em um coque, além do penteado, seus fios loiros possuíam alguns modestos flocos de neve.

Suas vestes consistiam em um corpete e uma calça, ambos azuis escuros, no corpete existia uma joia feita de gelo, já sua calça, estava isenta de detalhes.

Suas botas, de coloração igual ao resto de seus trajes, iam até seus joelhos, e suas pontas, além de brancas, possuíam um floco de neve, e em suas mãos estavam luvas, do mesmo tom escuro que as outras partes do traje, e estas iam até os seus cotovelos.

— Acho que você já sabe, afinal você me pediu um desejo.

— Um desejo?— Após essa frase, lembrei-me do pedido que havia feito nos últimos momentos de vida, e com essa lembrança, olhei para as minhas mãos.

Ambas estavam cobertas por luvas pretas e estas eram revestidas por geadas, e pela abertura sai ar congelado, igual à fumaça do gelo seco, só que mais fina e em menos quantidade.

Quando levantei meu olhar, vi um espelho encostado na parede, não percebi quando meus pés se movimentaram, apenas me dei conta quando estava de frente para o espelho.

Eu vestia um conjunto de roupas sociais, a calça, o colete e a gravata eram pretos como o carvão, a camisa branca completava o meu tronco e em meus pés estavam botas de couro.

Mas, o que mais me chamou a atenção do conjunto, era que algumas partes estavam cobertas de geada, como em minhas botas, colete e gravata.

Contudo, o que atraiu o meu olhar foi o meu rosto, antes imaculado, agora coberto de cicatrizes, e meus olhos, agora estavam azuis como o gelo e as pontas de meus cabelos encontravam brancas.

— Eu sei que não era bem isso que você queria, entretanto, reviver alguém sempre requer uma consequência, e a sua foi ficar com essa aparência. — Comentou o anjo, enquanto me observava. — Mas saiba que só consigo cicatrizar ferimentos, entendo se estiver chateado.

— O-Oquê?? N-Não, quero dizer, obrigado, eu só estou surpreso, eu não esperava que o desejo fosse realmente se realizar. — Curvo-me para demonstrar minha alegria e para me desculpar pelo mal-entendido que causei.

— Não precisa se curvar eu entendo a sua surpresa, a propósito me chamo Angela. — Disse com um sorriso em seu belo rosto.

— Sou Genji, Genji Shimada, me desculpe se estiver sendo inconveniente, mas posso ficar aqui por um tempo?

— Claro, fique o tempo que precisar, é normal precisar de um tempo para se acostumar com o seu novo corpo, venha vou lhe mostrar os seus aposentos.

Embora eu tenha dito que precisava de um tempo não fosse uma total mentira, eu apenas não queria ter que voltar para o meu antigo lar, e agora, com essa segunda chance, posso me livrar das amarras do meu velho pai.

                              ***

O que era apenas uma hospedagem passageira, tornou-se um lar permanente. Quando nós menos esperávamos surgiu uma amizade e uma bela parceria na realização dos desejos.

E em pouco tempo, Angela percebeu a minha verdadeira intenção de ficar ao seu lado, e ela perguntou-me se eu queria me tornar um realizador de desejos, igual a ela, e eu aceitei a sua proposta.

Passamos a trabalhar juntos, e não foram poucas às vezes que as pessoas nos viram lado a lado, nosso companheirismo mudou a lenda, tão antiga quanto o próprio inverno, e agora o anjo, delicado como a própria neve, possuía um amante, o cavalheiro da geada, e juntos realizavam os desejos das pessoas na época de Natal ou aonde estivesse a neve.

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⏰ Last updated: Dec 25, 2018 ⏰

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