Returning The Ashes

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(Natasha's POV)

FLASHBACK ON

Frio. A maca gelada passando por um corredor sem fim. O som das rodas enferrujadas ecoavam pela minha mente. Pessoas me fitando com um olhar frio e maldoso. Estava dopada. Minha visão ficou turva. Meus olhos imploravam por arrego e a minha mente, ainda confusa, tentava reconhecer o lugar.
A Sala Vermelha sempre foi um lugar muito misterioso, onde eu nunca pudera explorar. Dormitório, sala de treino, refeitório e o consultório médico, onde eram feitas as famosas lavagens cerebrais, eram os únicos lugares que estavam ao meu alcance.
O maldito corredor finalmente chegou ao fim. No mesmo momento em que entrei na sala, desejei voltar ao lugar que eu estava. Avistei instrumentos cirúrgicos e o médico responsável pelo consultório da Sala Vermelha, que eu já conhecia muito bem pelos inúmeros assédios que o mesmo submetia todas as meninas que estavam sendo treinadas.
A anestesia que eu havia recebido antes, realmente começou a fazer efeito. Por mais que eu tentasse lutar contra, era inevitável o meu apagão.
De vez em quando, ouvia os barulhos dos instrumentos cirúrgicos sendo usados em mim e o monitor, monitorando os meus batimentos cardíacos, que a cada minuto ficavam mais fracos. Involuntariamente, uma lágrima escorreu de meus olhos, pois eu sabia o que estavam fazendo ali comigo, eu apenas não queria acreditar. Em algum momento, os sons pararam e eu apaguei completamente.
Quando acordei, já tinha todos os meus sentidos recuperados. Estava em meu dormitório, tomando mais uma vez um maldito soro, que eu sentia penetrando as minhas veias. Minhas forças estavam escassas, e uma dor me comia de dentro para fora, na região do meu ventre. Percebi que eu não estava sozinha. Uma mulher loira, não tão velha, me encarava com um olhar orgulhoso.
— Parabéns, pequena aranha. - As palavras da mulher soavam em um tom frio e distante.
— O que fez comigo? - Falei, ainda com a voz trêmula. Eu sabia o que fizeram comigo, mas eu não queria acreditar em tal atrocidade. Eu estava com medo, porém não podia demonstrá-lo.
— Natalia, querida. - A mulher disse, em um tom doce. Até acreditaria nela se eu não soubesse do que ela era capaz. - Você sempre foi a melhor de todas. - Eu engoli seco. - Se tornou o que sempre quis. A Viúva Negra. - As palavras dela saíram tão orgulhosas que eu quase fiquei feliz pela minha "conquista". - A melhor assassina da Rússia!
— E como recompensa - A mulher mudou totalmente a expressão. De um olhar orgulhoso, para um malicioso. - Tiramos a sua fertilidade.
Ao final de sua frase, a dor piorou, mas não física. Eu tinha um vazio em mim agora, que nada mais podia preencher. Seria pra sempre um monstro hostil. As lágrimas vieram, mas em nenhuma condição eu poderia chorar na frente da Madame B. Ela era a diretora da Sala Vermelha. Pra ela, fraquezas eram punidas com a morte.
Tive de fingir felicidade no pior momento de toda a minha vida. E foi isso que eu fiz. Abri um sorriso de orelha a orelha. Nunca havia sorrido tão falsamente como daquele jeito. A madame acreditou, pelo menos fingiu acreditar, correspondendo com outro sorriso mais falso que o meu.

FLASHBACK OFF

Acordei, de outro pesadelo. Já era o terceiro naquela mesma noite. Olhei o horário do relógio e eram ainda 04:29 da manhã. Havia perdido totalmente o meu sono, então decidi ir até o terraço, para tomar ar puro.
Levantei da cama, o chão estava gelado e eu completamente descalça. Nunca me incomodei com o frio, já que sempre havia convivido com ele lá na Rússia. Deixei os pensamentos sobre o sonho, ou melhor, pesadelo de lado. Subia as escadas sem menor preocupação de fazer algum barulho, já que eu morava sozinha.
Havia chegado ao terraço. Como eu amava essa vista. Escolhi essa cobertura no centro de Manhattan pela vista que me dava. Nova York, a cidade que nunca dorme. Quem diria para a Natalia da Rússia que um dia, ela estaria aqui.
Passei mais algumas horas, apenas apreciando a vista, até que o Sol raiou. Não me lembrava da última vez que havia assistido o nascer do Sol assim. Talvez seja melhor eu não me lembrar mesmo. Passei mais algum tempo lá, até que uma brecha de sono veio e eu resolvi voltar para dentro, para tentar descansar mais um pouco. E assim fiz.

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