O Dia em Que Tudo Mudou
Já passava das quatro da manhã.
As dores não davam mais trégua.
Cada contração parecia atravessar meu corpo, roubando um pouco mais das minhas forças. Eu respirava como podia, tentando encontrar algum alívio, mas era inútil.
Chegara a hora.
Fui para o hospital.
Assim que cheguei, uma enfermeira me levou para uma sala reservada. O médico fez o famoso toque para verificar a dilatação. Fechei os olhos e apertei os punhos, tentando ignorar o desconforto.
Segundos depois, ouvi sua voz.
— Você já está com oito centímetros de dilatação. Vamos levá-la imediatamente para o pré-parto.
Apenas assenti.
Naquele momento, eu não tinha energia para dizer mais nada.
Fui colocada em uma cadeira de rodas e empurrada pelos corredores frios do hospital. O cheiro de álcool, as luzes brancas e o silêncio quebrado apenas pelos gemidos de outras mulheres tornavam tudo ainda mais pesado.
Quando cheguei à sala de pré-parto, vi outras gestantes esperando. Algumas choravam. Outras gritavam. Algumas apenas encaravam o vazio, como se estivessem tentando reunir forças para o que ainda estava por vir.
Minha mãe estava ali.
Fisicamente.
Mas era só isso.
Ela ocupava um espaço na sala, porém parecia distante de tudo o que estava acontecendo. Não segurava minha mão. Não perguntava como eu estava. Não tentava me tranquilizar.
Era como se fôssemos duas estranhas dividindo o mesmo ambiente.
Naquele instante, compreendi uma verdade difícil de aceitar: eu atravessaria aquilo sozinha.
As contrações aumentavam de intensidade.
Nunca imaginei que trazer uma vida ao mundo pudesse doer tanto.
De repente, senti uma forte vontade de ir ao banheiro.
Minha mãe levantou os olhos por um instante.
— Acho que sua bolsa estourou.
Olhei para ela, tentando explicar entre uma contração e outra.
— Não... eu só quero fazer xixi.
Ela apenas me acompanhou até a porta do banheiro.
Nem uma palavra de incentivo.
Nem um abraço.
Nem um gesto que fizesse aquele momento parecer menos assustador.
Enquanto caminhava lentamente pelo corredor, apoiando uma das mãos na parede para suportar a dor, uma sensação era mais forte do que qualquer contração.
A solidão.
Eu estava cercada de médicos, enfermeiros, pacientes...
Mas, na verdade, eu estava completamente sozinha.
E ainda não fazia ideia de que aquela seria apenas a primeira de muitas vezes em que a vida me ensinaria a seguir em frente sem ter em quem me apoiar.
As horas seguintes passaram como um borrão.
As contrações ficaram cada vez mais próximas até que o momento finalmente chegou.
Empurrar.
Respirar.
Empurrar de novo.
E então...
YOU ARE READING
Mas a Vida Não Começa Assim
Romance**Sinopse** A maioria das histórias começa com um nascimento. A minha começou com uma menina de treze anos tentando entender como havia se tornado mãe. Entre as dores de um parto difícil, o silêncio de uma relação familiar marcada pela distância e o...
