O que é aquilo no muro da minha casa?

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        Eu estava na sala de aula esperando o professor corrigir as provas que eu e minha turma havíamos feito na semana passada. Eu já sabia que a minha nota não seria nada boa. Espero que caia um milagre sobre mim e me tire dessa. Não aguentava mais aquele colégio, aquele professor, e nem aquela sala de aula.
        Na sala de aula tinha apenas um ventilador e eu já estava suando. Pingos de suor desciam pela minha testa. Estava um verdadeiro inferno. E para melhorar a situação a turma estava barulhenta. Olhei para o lado e vi todo mundo super ansioso com suas notas, comentando as questões. Eu escutava tudo, e pelo que me lembrava não coloquei nenhuma das alternativas que o povo sabe-tudo colocou. Com certeza meu pai me daria uma bronca daquelas. Eu estava ferrado. A única saída seria esconder a nota do meu pai, não importa qual seja.
        — Pessoal, já acabei de corrigir as provas. — O professor bateu na mesa e a sala fez silêncio. — E elas não foram nada boas. Esta prova foi feita para vocês tirarem o máximo de nota do teste, e a maioria ficou na média. A pior turma, por sinal. Vocês me deixaram decepcionado. — Ele balançou a cabeça de um lado para o outro. — Então, agora irei entregar as provas, melhorem nas próximas provas. Dessa vez, devido a pior nota da turma e por dormir bastante em sala de aula, terei que mandar um aviso para os pais de um único aluno: Nicolas.
        Lascou!  Só para mim!?  Eu odeio este homem, ele tinha que justamente dizer para todos que iria mandar um recadinho para meus pais? Achei bem ousado. Ele quer me desafiar, é isso? Meus olhos começaram a arder, eu queria implorar para que ele não fizesse aquilo. Acho que vou chorar para ver se ele tem comoção. Eu tenho que fingir gostar dele, é isso. Sei lá, eu juraria que não iria dormir mais em sala de aula. Com certeza minha notas melhorariam. Ele tem que ter piedade de mim! Meu pai não vai permitir que eu fique com meu celular mais. Minha vida acabou. Eu já respirava com dificuldade, eu estava muito nervoso para saber a nota. Já sabia que era a pior... Não tem para onde correr mais.
        O professor se levantou da cadeira e se aproximava para entregar a minha prova. Eu era o primeiro que ele iria entregar. A cada passo, meu coração estremecia. A cada passo, minha respiração falhava. Enfim, ele deu o último passo, com certeza a cor fugiu de meu rosto. Eu realmente o odeio por isso. O pior professor da minha vida. Ele queria fazer sua cena de novela. Ele era amostrado, queria mostrar autoridade. Ele jogou a prova em cima da minha banca: ERA UM ZERO! Enfim, ele me chacoalhou e disse:
        — Acorda, Nicolas!

        Abri os olhos e visualizei a cortina azul do meu quarto. Era um pesadelo. Não acredito que caí nessa. Ainda estava me recuperando do sono, quando percebi que minha irmã estava me chacoalhando desesperada. Tentei voltar para a realidade para escutar o que ela dizia.
        — O que foi? — eu falei preocupado.
        — Tem um homem entrando aqui dentro! — Ela estava ofegante. — Ele estava pulando o muro da nossa casa. — Letícia estava esbaforida.
        Dei um pulo da cama. Me desesperei. A primeira coisa que procurei foi pelo meu celular. Encontrei. Quando fui ligá-lo, percebi que estava descarregado. Lascou!  Olhei para minha irmã e perguntei:
        — Ele estava armado? O que você estava fazendo? Como ele era? — Eu estava perplexo, como assim um homem pulou o muro da minha casa!?
        — Não sei, eu não vi nada. Quando vi que o homem estava estava em cima do muro, corri para dentro de casa. Só lembro que estava usando um boné e uma camisa regata laranja. Eu estava apenas no quintal pegando um balde com água. — Ela segurava a porta do quarto, que ela já havia fechado.
        — Mas você fechou a porta da cozinha, certo? — Eu estava apreensivo esperando pela resposta.
        — Não fechei, eu saí correndo. — Ela arregalou os olhos.
        Eu não enxerguei a cara dela. Como assim ela não fechou a porta!? Agora ele entrará facilmente aqui dentro de casa.
        — Por que você não fechou aporta!? Como é que tu vê um homem pulando nosso muro e deixa a porta aberta e simplesmente corre? — Eu não estava acreditando, só podia ser outro pesadelo.
        Procurei rapidamente pelo carregador do celular, achei. Consegui ligar o celular, conectando no carregador. Eu pensei em ligar logo para a polícia, mas Letícia pediu para que ligasse para nosso pai. Tudo bem, tínhamos que ser rápidos. Aquele homem poderia abrir a porta do meu quarto a qualquer momento. Enquanto eu tentava ligar para meu pai, Letícia saiu da frente da porta e se escondeu ao lado da cama. Como o celular do meu pai estava desligado, decidi ficar embaixo da cama, próximo a Letícia. Estávamos observando por debaixo da porta para ver qualquer movimento suspeito. A luz do dia ajudava a localizar qualquer sombra que passasse pelo corredor da nossa casa. Estávamos assustados.
        — Você não deveria ter fechado a porta do quarto, agora não temos como sair daqui. Porém, deveria ter fechado a porta da cozinha. Que coisa, não? Você fez tudo errado e agora estamos aqui. — Minha voz estava trêmula. — Eu não tive culpa nenhuma, Nicolas. Eu não fechei a porta da cozinha por causa do susto que tive, droga. — O lábio inferior dela tremeu.
        Comecei a perceber que embaixo da cama tinha muita poeira, e o nariz de Letícia estava ficando super vermelho. Ela iria espirrar. Não acredito!
        — Não espirra, pelo amor que você tem por mim. — Ela espirrou. — Pelo visto nenhum... Você só atrapalha. Se ele entrar aqui estamos mortos, sabia?
        — Eu sei, por isso você tem que tentar ligar para papai de novo. Ele vai nos salvar. — Atendi ao pedido dela, peguei o celular, dessa vez o celular dele não estava desligado, mas ele não atendeu. Aff pai, desse jeito você não vai nos salvar,pensei.
        — Ele não atende. Estamos ferrados. Se o ladrão entrar aqui, ele nos mata. Não sei o que vou fazer se ele entrar aqui. — Eu sentia medo.
        Nós dois estávamos olhando fixos para a frestada porta. Já era tempo do ladrão chegar neste cômodo da casa para roubar o que tinha de valor e nos matar. Minha jornada acabou, e da minha irmã burra também. Nossos olhos estavam arregalados, e nossa respiração falhava. Nada. Tudo estava silencioso. Decidimos que já era hora de checar o que estava havendo. Abrimos aporta de mansinho. Olhamos o corredor e não havia ninguém. Andamos até a cozinha e nada. Não havia ninguém! Nem uma formiga tinha.
        — Você me disse que tinha um homem aqui, entrando dentro da nossa casa. Cadê ele? — eu disse com expressão séria.
        — Eu não sei, ainda bem que ele não está aqui. Que continue assim... — franzi a sobrancelha.
        — Assim, não entendo. Você interrompe meu sono alegando que tem um cara aqui no nosso quintal, pulando nosso muro. Mas quando vejo, não é nada. Puro drama!
        — Mas tinha um homem de boné pulando o muro, Nicolas. Não estou louca!
        — Tudo bem. Espero que realmente não esteja. — zombei.
        Estávamos  nos  aproximando da porta da cozinha para olhar se havia alguém no quintal. Coloquei a cabeça para fora e visualizei uma escada trepada no muro da nossa casa. Estranho. A porta da cozinha ficava na parte lateral da nossa casa. Decidi olhar para a parte da frente da casa, onde tinha uma porta para a sala de estar. Escutei um barulho parecido com sandálias arrastando no chão. Olhei assustado para Letícia e ela também me olhava. O que era aquilo?Corremos rápido para dentro de casa e , dessa vez, a porta da cozinha foi fechada.
        — O que era aquilo? Realmente tem alguém aqui? — eu preferia que não tivesse.
        — Provável que tenha! — ela arregalava os olhos.
        Ficamos parados na cozinha olhando para a porta por um tempo. Depois nós dois fomos para a sala de estar, onde tinha uma janela. Tentávamos observar o movimento no quintal. Nada anormal, apenas tinha o muro lá e um sol cintilante. Não era ninguém. Continuamos olhando. De súbito, uma sombra passou pela janela. Paralisei. Letícia dava pulos de desespero. Não conseguíamos gritar! Nos escondemos debaixo da mesa. De repente, o que eu não esperava. Deram três batidas na porta da cozinha. Letícia começou a chorar. Tudo bem, dessa vez a porta estava fechada.
        Debaixo da mesa dava para observar a janela da sala de estar. O homem, ou seja lá o que for, apareceu na janela. Estamos mortos,pensei. O homem gritava, eu nem sabia o que ele queria. Eu estava apavorado e Letícia segurava forte na minha camisa.
        — Letícia, você está esticando minha camisa nova, droga. — Eu olhava sério para ela.
        — Ele vai nos matar, ele vai nos matar. — Ela repetia as palavras rapidamente — Faz alguma coisa, Nicolas! — Ela entrou em desespero, se levantou pegou o jarro de flores e atirou na janela. — Sai daqui, Satanás! Não havia mais janela, havia apenas vários cacos de vidro pelo chão da sala de estar. Agora o homem pode pular a janela. Minha irmã é uma gênia.
        — Por que você fez isso? Sua professora tem razão, você é super inteligente. Agora corre, que eu não vou ficar aqui para morrer, ele vai pular. — Gritei.
        O homem apareceu na janela, ele realmente usava boné. Ele existia. Nós dois corremos pelo corredor até o quarto. Eu não escutava mais nada. Eu estava tão ofegante que minha visão estava turva. E minha irmã? Dez mil vezes pior, estava toda vermelha de tanto chorar e toda descabelada. Se ela sair dessa terá que passar um dia inteiro num salão de beleza, porque a dela , neste momento, está precária.
        Entramos no meu quarto e fechamos a porta. Colocamos um banco, aquele suporte que se coloca bolsas que eu nem sei o nome daquela coisa horrível. Colocamos também vários livros, tudo isso para fazer peso na porta. Letícia pegou no canto do quarto algumas revistas e saiu jogando em cima das coisas que estavam na porta. Eu não deveria ter deixado aquelas revistas ali.
        — Você tem revistas de pornô gay, Nicolas? — Ela estava surpresa. 
        — Eu? Elas não são minhas. — Peguei rápido das mãos dela. — Alguém deve ter colocado aqui, que absurdo, vou fazer um escândalo depois que saímos vivos daqui para saber quem colocou aqui. Eu não vejo estas coisas.
        — Aham, sei.
        Joguei a revista debaixo do guarda-roupa. Agora bastava esperar para que aquele homem arrombasse a porta. Nossas respirações estavam rápidas. Agora eu deveria ligar para a polícia. Peguei meu celular, disquei o número da polícia, e quando eu iria apertar no botão da chamada, o celular tocou a música de recebimento de chamadas. Era meu pai! Nessas situações cai um milagre sobre mim.
        — Pai, me ajuda, tem um homem aqui arrombando a casa toda. Ele vai nos matar, e tamb... e nos roubar, tu-tudo de valor.Vamos fali... Na verdade o senhor vai falir porque eu e Letícia vamos morrer —minha voz estava entrecortada. — Ele pulou nosso muro. Socorro!
        — Nicolas, presta atenção, Nicolas... — Meu pai pedia atenção, mas eu não parava de repetir as palavras e falar como era o físico do homem, o que ele usava. Eu vi como ele era na janela. Eu atropelava as palavras.
        — Pai, ele vai nos matar, chama a polícia.
        — Nicolas...
        — Vai logo pai, ele vai abrir a porta do quarto. Vai logo.
        — Meu filho, veja.
        — Não temos tempo para explicar mais pai. Ele está aqui, vai levar tudo até nossas vi-vidas — interrompi. — Você nun-nunca mais nos verá. Socorro. Me ajuda.
        —Nicolas — meu pai dava altas gargalhadas. Por que ele estava rindo em uma situação tão séria? — Calma meu filho, o homem é o vizinho. Ele precisou subir no nosso muro para consertar uma antena, e vai fazer o favor de capinar o matona frente da nossa casa. Por favor, mostre para ele onde está a enxada. Vocês não reconheceram o nosso vizinho? — E papai continuava dando altas risadas escandalosas.
        Nos acalmamos. Aquele homem é nosso vizinho? Letícia olhava para meu rosto com uma expressão de dúvida. Não sabíamos quem era nosso vizinho. A que nível chegamos? Estamos tão antissociais assim? Fiquei preocupado.
        — Ah, então o homem que estava no muro da nossa casa, não era um ladrão, nem assassino, ou até um serial killer, ou um alienígena? — era uma pergunta retórica. — Bem, pai. Acho que agora conhecemos o vizinho... — dei uma risadinha baixa para que meu pai não escutasse.
        — Este homem é seu vizinho. Não acredito que morando 3 anos nesta casa e vocês dois ainda não viram o nosso vizinho. Preciso voltar ao trabalho, até depois. — Desliguei o celular e coloquei de volta na estante.
        Olhei para Letícia, eu estava incrédulo. Eu estava com tanto sono,e ela me acorda com esta fake news. O impacto foi tão grande que perdi até o sono. Andei até a cozinha e abri a porta, Letícia vinha logo atrás. O homem estava na minha frente rindo. Dei uma risadinha para tentar desviar aquele mico que eu estava pagando. Até que ele se pronunciou.
        — Eu sou o vizinho de vocês, eu só queria a enxada emprestada. Eu já pedi para o pai de vocês, eu disse que quando eu acabasse de consertar minha antena. — Ele apontou para a antena. — Eu iria limpar os matos que tem no meu quintal, aí precisaria da enxada emprestada e o pai de vocês disse que eu poderia entrar e pegar, mas não encontrei lá atrás. — Ele virou o rosto em direção a janela da sala de estar e observou os cacos de vidro no chão. — Ah, e eu acho melhor vocês limparem toda esta sujeira, o pai de vocês vai ficar bravo. — Olhei perplexo pela ousadia do cara. Eu e Letícia ficamos de boca aberta. 

        EU MEREÇO, EU MEREÇO.     


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