Estrelas binárias

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Além das fronteiras de Tafker, a Terra abrigava suas últimas formas de vida. No começo, o planeta era apenas uma esfera quente flutuando no espaço sideral, até o Sol perder seu calor. Mas foi graças ao declínio das estrelas que os primeiros oceanos apareceram, enchendo por milhões de anos.

O Sol estava destinado a morrer até o próximo milênio e a queda brusca de temperatura congelaria toda a água doce. Pensando no futuro, quando o preço da água superaria o valor da terra, os humanos monopolizaram e fortaleceram sua força militar ao redor do Vale de Fogo e Gelo.

Dentro de Caraveli, perto de um grande vulcão, jorrava muita água quente para o alto. A história conta sobre a morte de um garoto que caiu em Velikan, no gêiser mais quente daquela região. O vapor dos jatos de água, aquecidos a uma fervura escaldante, dissolveu seu corpo, e o que sobrou foram restos de ossos e a autópsia dele. Porém, a tragédia permitiu que o químico Gelis Forell descobrisse tritônio, o elemento mais instável na natureza.

Os átomos de tritônio se transformavam em uma substância amarela quando se fundiam com oxigênio e hidrogênio contaminado e em um gás inodoro, ao se misturar com o ar das montanhas geladas. Os dois eram tóxicos e altamente radioativos. Ainda assim, o tritônio ajudou no desenvolvimento das civilizações.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a quebra de suas partículas produziu bombas atômicas muito poderosas, que foram lançadas no Japão, em Hiroshima e Nagasaki, e na Alemanha, em Berlim Oriental.

De alguma maneira, o tritônio também foi o responsável por dar fim à grande guerra que matou milhões de pessoas e encobriu o resto da luz do sol.

Naquele dia, três semanas após o primeiro incêndio na capital alemã, e da destruição de Hiroshima e Nagasaki, Franklin Polz renunciou. Dessa forma, o presidente norte-americano assinou um acordo de paz que existe há décadas e prevalece até os dias de hoje.

— Nossos olhos, nossos cabelos, todos os planetas deste sistema, tudo que vemos é feito de átomos. Eles circundam o universo, formando a matéria e a vida — afirmou o cientista Mark Rendberg, depois de um pífio discurso na televisão.

— Seja mais direto, por favor — a presidente Hevilis se enfureceu.

— Não sei porque o Sol está se apagando, senhorita, mas acredito que tenha a ver com a distorção dos átomos de hidrogênio.

— Está falando sério? Essa é toda a informação que o Ministério da Ciência possui?

Mark Rendberg não havia encontrado a resposta para a morte das estrelas, muito menos os seus funcionários. Para piorar, os últimos conflitos de escalas globais enfraqueceram a política alemã e o país passou por uma crise profunda, enfrentando uma escassez rigorosa no desenvolvimento de sóis artificiais.

Homens, mulheres e crianças que entendessem o teorema de Bosgman, foram convocados para trabalhar na criação dos sóis, com a responsabilidade de manter o planeta aquecido. Mas a cada ano, tornou-se mais difícil encontrá-los.

O teste de matrizes sofria viéses significativos, tornando um privilégio econômico e social, onde grande parte dos aprovados eram famosos, ou filhos de gênios, com carreiras em ascensão. Enquanto aos mais pobres, eles sequer entravam nas salas das provas.

Os irmãos Roger e Ray Penrose foram os últimos selecionados para trabalharem no Ministério da Ciência. Roger ganhou fama na produção de campos de soja transgênica, resistentes a climas muito frios. Ray foi reconhecida por fazer o primeiro telescópio de lentes infravermelhas.

Os feitos dos gêmeos não eram grandes, em comparação ao notável Gelis. Por isso os líderes científicos começaram a perder as esperanças. Fizeram chamados para que eles fossem reciclados e disseram que bloqueariam novos investimentos. Até que uma jovem alemã chamada Kali começou atrair a atenção do governo.

Kali Riemann era a filha mais nova de Boris, um astrônomo desconhecido, e de Milena, uma professora de matemática. Em agosto de 2025, Kali escreveu um relatório explicando como as estrelas estavam morrendo e contou em seu livro sobre a possível existência de um planeta feito de antimatéria.

Ourija talvez seja real. Eu estava observando o céu quando Meyri surgiu. O brilho da estrela foi embora antes que o telescópio captasse sua energia. Há uma distorção de gravidade suspeita na região que nenhum buraco-negro, nem qualquer corpo celeste que estamos habituados a ver pode causar.

— Kali Riemann em "A Mutação dos Tritônios".

No século XXI, Frances Karsburg escreveu sobre a antimatéria. Ele sugeriu que antiátomos com elétrons de carga positiva, e prótons de carga negativa pudessem existir. Anos depois, provou que quando um átomo encontra o seu par oposto, os dois se anulam, gerando radiações cósmicas.

Na teoria, se um anti-hidrogênio se chocar com um hidrogênio, o que resta é apenas energia, e não um arranjo de partículas com forma. Aquela descoberta serviu como inspiração para o trabalho de Kali.

Os sóis artificiais duram meio ano, quando todo o isótopo do hidrogênio em seu núcleo funde-se em hélio e queima, até desaparecer. Eles não podem ser grandes, ou as torres gêmeas e todos os prédios cairiam. Se forem pequenos demais, o calor não é o suficiente para sobrevivermos. Seria muito mais fácil se o verdadeiro Sol continuasse fervendo pelos próximos bilhões de anos, mas agora esse tempo é curto. Nossa querida estrela não vai explodir em uma linda nebulosa, ela simplesmente vai desaparecer e Gless tomará o seu lugar.

           — Kali Riemann em "O Destino do Sol".

Um grupo de cientistas irlandeses negou veementemente a hipótese de Kali. Para eles, apenas estrelas feitas de antimatéria poderiam apagar outras estrelas em um curto tempo, mas os colapsos seriam tão poderosos que detonariam sistemas estelares inteiros.

Quando Kali fez um experimento para aula prática de física molecular, descobriu sem querer respostas diferentes daquelas constatações. Um dia, ela comprou um cubo magnético e embrulhou a parte detrás com uma folha de papel verde.

Terence, a sua amiga de faculdade, estava com ela e trouxe um laser de energia. A intenção das duas era apontar o laser na direção do cubo, para que a luz despertasse as partículas de tritônio impregnadas no papel. O laser dispararia rajadas de oxigênio com intenção de reagir com o tritônio, queimando a celulose e fazendo a substância amarela emergir. Mas uma coisa estranha aconteceu:

Após várias tentativas fracassadas, perguntei à Terence sobre as anotações. Eu tinha esperança que ela finalmente levasse nosso projeto a sério. Ela apenas sorriu e falou sobre como os meus cabelos estavam molhados e dos fios que caíram no cubo. Um humor irrisório para o momento. No entanto, a sua brincadeira abriu portas para eu refazer o experimento. Dessa vez, enchi um béquer de água suja e separei o oxigênio da água, por meio da eletrólise. Conseguimos transportar a maior parte do gás para o cubo, mas um terço do hidrogênio vazou. Ignoramos aquela informação e apontamos a luz para a face de cima. Para minha surpresa, o papel desapareceu. Depois, a mesa começou a vibrar e a minha mão tremia.

          — Kali Riemann em "A Mutação dos          Tritônios".

Ourija: a Lenda de Kali RiemannStories to obsess over. Discover now