Capítulo Vinte e Sete

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Depois que saiu do consultório, Marco largou William nas mãos capazes da ruiva da pet shop e seguiu para a sua segunda parada: o escritório.

Não que trabalhasse aos sábados – graças a Deus! –, mas queria pegar uma papelada lá para revisar em casa.

Havia um vento norte soprando e o calor começava a incomodá-lo. Ele deveria ter optado por uma camiseta de manga curta, mas não queria mostrar seus braços arranhados para todo mundo, pois já bastavam as mãos. Mesmo assim, acabou se rendendo e, antes de sair de dentro do escritório, ergueu as mangas da camisa.

Froga-se, os outros que olhem, pensou ele, irritado.

Quando guardou a papelada no carro estacionado na sua vaga da Brenner Associados, lembrou de sua conversa com Fernando a respeito do pobre Ernani sendo assaltado na rua. Foi isso que o fez pensar na sacola que ainda tinha de entregar, contendo o abrigo e a camiseta.

Com ela em mãos, Marco passou na cafeteria e pediu para um dos atendentes chamar Fernando. Era melhor lhe entregar aquilo pessoalmente.

O rapaz apareceu logo em seguida, e lhe deu um sorriso antes de cumprimentá-lo:

– E aí, cara? Tudo bem?

Marco retrucou com um:

– Tudo, e aí?

Fernando se recostou no balcão.

– Tudo também, cara. Olha, deixei sua calça, a camisa e a gravata na lavanderia junto com a toalha de mesa da vovó.

O atendente que havia chamado Fernando olhou para os dois com uma cara estranha.

Marco notou aquilo, mas deu de ombros. Já tinha passado a última sexta-feira sob o escrutínio do pessoal do escritório e clientes devido ao seu pescoço arranhado, então já estava deixando de se importar com os outros, na verdade.

– Obrigado, Fernando. E a Elisa, acordou muito irritada hoje de manhã?

Fernando fez uma careta.

– Cara, foi um horror. Ela xingou a mim, a você, xingou a mãe por ter dado a toalha chique para ela, xingou a vovó por ter feito a toalha num tecido que manchava tão fácil, xingou o vinho... Enfim, a ruiva estava esquentada hoje. E o pior foi para o Sr. Antunes, o nosso vizinho.

Fernando se inclinou mais no balcão, a fim de se aproximar de Marco, porque embora já estivesse falando baixo, notou que o seu colega de trabalho dava um passo na direção deles para escutar.

Então, continuou em tom de confidência:

– Ele bateu lá em casa para pedir uma forcinha para ela, sabe? O carro não ligava, e a Elisa sempre o ajudou nessas coisas sem cobrar o serviço, só as peças, quando necessário. O Sr. Antunes é um senhor de idade, que daqui a pouco nem dirigir vai mais. Mas a questão é que enquanto nós tentávamos fazer o carro pegar, ela ficou enchendo os ouvidos do nosso vizinho sobre estar na seca. E o pior era ele, constrangido e tentando consolá-la ao dizer que fazia tempo que não namorava também. Mais de vinte anos, porque seu médico o assustou muito para não tomar uma azulzinha.

Marco se imaginou na situação do Sr. Antunes tendo de escutar Elisa, e na situação de Fernando tendo de escutar aquela conversa... Não, o melhor era não imaginar coisa nenhuma.

– Lamento muito por isso – Marco respondeu, sem saber o que realmente poderia ter dito.

Fernando riu.

– Capaz, cara. Pensando bem, de certa forma eu também tenho culpa por a Elisa estar na seca e com esse humor do cão, não é? Fui eu quem interrompi vocês, afinal.

Meu Adorável AdvogadoWhere stories live. Discover now