"Um amigo durante a vida é muito; dois é demais; três quase impossível. A amizade exige um certo paralelismo de vida, uma comunhão de idéias, uma rivalidade de objetivos."
— Henry Adams
Chuva fria. Simone corria rua abaixo segurando com as duas mãos um pedaço de papelão sobre sua cabeça que em nada a impedia de se molhar naquela gélida tempestade. Sabia que uma bronca da mãe a aguardava quando chegasse em casa; não levara guarda-chuva e não voltou para casa à primeira trovejada como sua mãe lhe ordenara. Mas urgia fugir da tempestade. Mesmo a bronca da mãe era melhor que as gotas dolorosas e congelantes que despencavam do céu como bombas naquela implacável borrasca.
Um som baixo e agudo surgiu de algum lugar próximo. Embora as orelhas de Simone captassem o som, ela não dava atenção, concentrada que estava em sua fuga. Mas a repetição do som fez a menina, por curiosidade, voltar sua atenção ao som. Pareceu-lhe o miado de um gato.
— Um gatinho — disse Simone — coitadinho, tomando chuva!
Parou de correr e jogou para o canto o papelão. O som vinha de um playground cuja calçada ela estava ultrapassando. Mas antes mesmo de poder dar o primeiro passo em direção ao playground, Simone percebeu que o som não era de nenhum gato.
— Ajuda! Ajuda! Alguém me ajuda! — gritava uma voz chorosa.
Simone correu alvoroçada para dentro do iglu. Ela tinha grandes olhos cor de amêndoas, lábios rosados levemente túrgidos, o nariz que descia numa linha diagonal perfeita de ser almejada pelos geômetras e o cabelo escuro era cortado rente na altura do queixo.
Estava amarrada. A calça e as mangas da blusa estavam encardidas de barro. O semblante era de tal terror que em nada mudou ao ver Simone. Continuou gritando em súplica.
— Me ajuda! Me tira daqui!
— Uma menina! — Surpreendeu-se Simone.
A menina aterrorizada apenas fitou Simone com seus olhos inchados de tanto chorar. As lágrimas que escorriam de seu rosto misturavam-se às gotas de chuva. O pedido estava no olhar. Desespero.
Simone pôs-se atrás da menina e começou a desfazer os nós desesperadamente, desajeitada. Assim que conseguiu se soltar, a menina levantou-se numa violência que derrubou Simone na lama e saiu do iglu correndo e gritando feito um animal.
— Espera! — gritou a garota, pondo-se a persegui-la.
Conseguiu alcançá-la na rua adjacente à do playground. Agarrou-a pelos braços.
— Sai! — protestou ela.
— Machucou? — perguntou Simone.
Ela tentava lutar, mas Simone a segurou com firmeza pelos braços até contê-la e, olhando nos olhos repetiu:
— Machucou?
A menina relaxou o corpo e olhou surpresa para Simone.
— Não. Obrigada.
Simone sorriu. Tinha longos e volumosos cabelos castanhos, baixa estatura, sereníssimos olhos avermelhados e nariz arredondado.
— Qual é o seu nome?
— Ayn. — respondeu resistente, desviando o olhar.
— O meu é Simone. Vem pra minha casa! — Convidou puxando-a pelas mangas.
— N-não. — protestou Ayn, com menos clemência.
— A gente já tá molhada, mesmo! — brincou Simone, conduzindo Ayn pelo braço.
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Amigas
RomanceO mais belo e forte laço existente entre duas pessoas, a amizade, fortalecido até seu máximo e testado até seu limite.
